O REPLICADOR

Maio 27 2011

 

 

Este é o retrato da minha última experiência com a segurança social. O que lá fui fazer é pouco relevante já que, tal como bacalhau, sendo português todos nós nos temos que cruzar com ela um dia mais cedo ou mais tarde.

A ideia que tenho do que as pessoas pensam que ocorre numa repartição da SS é mais ou menos similar a uma rave do boom fest: mal organizada, com muitas cores e slogans como “sustentáveis” mas no fundo ninguém lá dentro sabe do que está a falar.

 

Nada mais longe da verdade. Eis a minha história:

 

Na última quarta-feira tive que ir entregar um papel. Existe em cada repartição da SS uma caixinha muito útil para o fazer mas, já que da última vez que tive que lidar com o monstro redistributivo me perderam metade dos documentos, decidi sabiamente que precisava de um comprovativo.

A minha primeira tentativa foi fútil, entrei na repartição para me dizerem que ali só tratavam de assuntos de estrangeiros. Felizmente o balcão próprio para o efeito era só no cimo da rua. Nessa altura ainda não sabia que a rua tinha quilómetro e meio mas lá fui alegremente a pé.

Quando chego não há ninguém na recepção (estava a almoçar mas ninguém a substituiu) e pelos vistos já não havia senhas. A quatro horas do encerramento já não havia vagas para atender mais ninguém naquele dia. O que era curioso porque o local parecia bastante desafogado, respirava-se bem e só estava em pé quem queria.

Duas horas e meia mais tarde saí a correr para ir buscar o carro cujo parquímetro estava a acabar. Não houve problema porque, com 4 pessoas sem senha à minha frente e o tempo que demoravam a atender cada uma o mais provável era ter que voltar noutro dia de qualquer forma.

 

Hoje não tomei riscos. Estava à porta da mesma SS às 7:30, hora e meia antes de abrir. À porta como quem diz porque a fila já tinha uns 4 metros e 11 pessoas à minha frente. Saquei do livro do juiz Carlos Moreno e esperei. Às 9 entrei, fiquei com a segunda senha de entrega de documentos e esperei mais 50 minutos até à minha vez.

 

Quando me dirijo à secretária que foi indicada ainda lá estava uma senhora “de leste” (isto tem que ser lido com o sotaque dos nossos avós) e o que deveria ser o seu filho, que tentava desesperadamente compreender o que a assistente queria dizer com “a carta vai para sua casa”. Assim ficou justificado o tempo que se perdeu até à minha vez. Eu demorei 5 minutos, era mesmo só entregar o maldito papel e receber o comprovativo. Mas a minha impressão mudou muito. Fui bem atendido e por funcionárias (destaco a segurança que me atendeu na quarta depois do seu almoço e a secretária de hoje) muito competentes e simpáticas. Aquele mito de que todos os funcionários públicos são calões não passa mesmo disso.

 

Então porquê filas tão grandes?

 

Porque o sistema da segurança social assenta na necessidade de preencher papeladas parvas em triplicado, benzidas pelo padre, carimbadas pela autoridade de produtos agrícolas da Guatemala e amadurecidas em casca de carvalho. E isto tem razão de ser: se for demasiado fácil receber o dinheiro “a que temos direito”, então vão todos querer uma parte do bolo e com cada vez menos a pagar vamos ter um queque para dividir pelo casting de abertura dos jogos olímpicos de Pequim.

A segurança social restringe o consumo não pelo preço (conceito impossível no sector público) mas pelo desgaste e cansaço. Quem tem menos para fazer e mais paciência consegue arrebanhar mais fundos do estado que os outros que não podem perder entre 2 e 8 horas na segurança social a

Aturar maus cheiros;

Comer com um ecrã que publicita todas as maravilhas da segurança social;

Ler quinhentas vezes o slogan da SS “Agora e Sempre”.

 

Nisto as funcionárias que vêem estes rebanhos tão perdidos comovem-se e têm um atendimento muito bom e de certa maneira expedito. Pior fui tratado pela secretária de uma seguradora. Com a abismal diferença que o que demorava uma semana e requeria uma assinatura na seguradora demora mês e meio e requer números, assinaturas e carimbos de todas as entidades conhecidas ao Homem na segurança social.

 

Em conclusão, os serviços de atendimento dos organismos estatais parecem estar numa tendência para o seu aperfeiçoamento no nível da relação humana por uma questão de pena. Infelizmente esse atendimento é a cobertura açucarada de um bolo estragado constituído por burocratas de fato que vão desde o parlamento até às secretárias da sede da ISS e DGSS, que nem sequer deveria existir.


Maio 21 2011

 

 

 

Qual é o problema do liberalismo? Todos os liberais sabem qual é, todos conjecturam sobre a solução mas muito poucos fazem algo por isso.

 

Na língua inglesa roubaram-nos a palavra liberal. Hoje quem vai a uma livraria pode comprar “a consciência de um liberal” por Paul Krugman e, com um pouco de sorte, percebe que não era nada daquilo que procurava. Nos EUA os liberais são os democratas, aqueles que promovem educação gratuita e saúde gratuita, ou pelo menos é assim que os americanos compram as palavras porque esses serviços saem à custa do empobrecimento geral (não falo estatisticamente, tanto os ricos empobrecem quanto os pobres). O liberal, dito libertário, está dentro do partido republicano, onde o chamam de conservador e o confundem, como seria de esperar, com senhores anafados veteranos de guerra, católicos ou derivados, que não querem direitos para ninguém que não se transforme numa lagosta no verão.

 

Mas não há problema, arranjou-se uma palavrinha fantástica para nos distinguir: neoliberal. Os portugueses já ouviram esta palavra proferida em todo o espectro político português (começando na direita de esquerda PSD, passando pela esquerda de esquerda PS, até à esquerda dos unicórnios cor-de-rosa BE e PCP, passando pelo senhor dos submarinos do PP, ou como todos querem lembrá-lo), mais ou menos da mesma forma que se falaria de um leproso na idade média. Os neoliberais são supostamente empresários vis e violadores de extrema-direita que querem banir os direitos de todas as pessoas, tirar a saúde e a educação dos doentes e das crianças e escravizar todos os pobres ao (recorrendo a um dos termos do Jerónimo de Sousa que mais me enternece) “Grande Capital”.

 

Sim, curiosamente segundo a opinião geral, ser liberal é ser neoliberal, ser neoliberal é ser fascista. O que faz todo o sentido porque nós como liberais queremos abolir a maioria das funções de estado (senão todas) e como tal seremos os grandes ditadores totalitários que tudo controlam… errrr… esperem, se calhar não pensaram bem nisto.

 

Pronto, o problema está diagnosticado: os políticos profissionais (incluindo aqui todas as criaturas que trabalham para a máquina de marketing estatal, comentadores, promotores de privilégios especiais e os tão enganados sindicatos) conseguiram convencer a opinião geral de que os liberais são contra o alargamento dos direitos sociais (tenho tanto medo de dizer esta palavra mas que fique explícito que me refiro ao casamento homossexual, aborto e outras questões que são na realidade leis que neste momento restringem os tais direitos) e que querem retirar as regalias do estado social (nesta parte estão certos),sendo que sem elas todos nós iremos ficar mais pobres, doentes e sem emprego (nesta parte não).

 

A solução? Mises escreveu que a grande arma do liberal é a caneta e a argumentação. Que a missão do liberal é a de elucidar os desinformados e iludidos pela “máquina”.

… estamos lixados…

Como é que vamos competir com discursos aborrecidos contra os slogans apelativos, videoclips coloridos e filmes que jorram continuamente de todos os poros da sociedade cheios de mensagens anti-liberais? Mises escreveu muitos livros bonitos, até vou com a cara dele, parece um avô muito simpático, mas nesta ele meteu o pé na poça, encharcou-se todo e pegou uma pneumonia multi-resistente ao liberalismo.

 

Há quem já tome uma nova abordagem, o “econstories” já fez muito pela nossa causa com dois videoclips que deram a conhecer as falácias de Keynes a mais pessoas que Hazlitt (embora provavelmente nenhum dos dois as tenha convencido todas). E como este há muitos mais exemplos.

 

Está no entanto na hora de ter uma nova abordagem ao liberalismo e infelizmente esta é uma abordagem que prima pelo ataque: a promoção do roubo como moralmente reprovável. Provavelmente todos os não liberais falharam na compreensão desta frase enquanto os outros a entenderam perfeitamente. Mas todos os dias quando vamos pôr gasolina dizemos que fomos roubados. Cada vez que pagamos IRS, imposto de circulação, IVA, IRC, PEC, foi um assalto.

 

Impostos são UM ROUBO.

 

Não interessa a quem, o imposto é um roubo, independentemente do que se vai fazer com o dinheiro. O detentor dos bens não consente de livre vontade e o estado utiliza a sua máquina repressora para expropriá-lo. É mais justo que o governo taxe o milionário numa fatia exorbitante do seu lucro do que quando cobra ao pobre pela fruta que comprou que teve que passar pela alfândega (supostamente para proteger os produtores portugueses) e IVA, saindo ao dobro do preço? Não, é errado em ambos os casos.

 

E, para quem já não se lembra, ROUBAR É MAU.

 

E se o governo quer redistribuir o que for, que cada um tenha o poder de decidir se quer voluntariamente entrar neste esquema ponzi (que curiosamente é proibido por lei, que irónico).

 

Está na hora de desmascarar os socialistas como os ladrões que são. Eles não advogam direitos para ninguém, advogam o direito do estado poder fazer com as pessoas o que quiser, dando-lhes através da democracia a impressão de que são elas a mandar. Para isso não basta o poder da palavra, apenas a verdade. Mas a verdade não tem que ser transmitida apenas em textos como este. A verdade está por exemplo no Robin dos Bosques, que não roubava aos ricos para dar aos pobres mas que roubava os impostos de volta aos homens e mulheres que haviam sido assaltados. A verdade está em slogans, em letras garrafais nas paredes das finanças, “este dinheiro é nosso, devolvam-no”. A verdade está em clips do youtube, no “compro o que é melhor e mais barato”, no “estou farto deste assalto, vou fugir para Singapura” e “Os sindicatos querem sugar o dinheiro aos trabalhadores privados que realmente trabalham para os públicos que só querem emprego”.

 

Vamos dizer a verdade e libertar as energias de Portugal deste socialismo.


Maio 08 2011

 

 

 

 

Deixem que vos explique alguns factos acerca deste vídeo. Poderíamos começar pela diferença entre voluntariado e democracia.

 

No voluntariado o benfeitor entrega uma soma de capital (seja monetária ou em géneros) de livre vontade. Ele escolhe fazê-lo e com isso sente-se bem, promovendo até, dizem, a libertação de endorfinas nos centros do prazer (posso estar a inventar mas pelo menos a minha experiência também é esta). Como num investimento, cabe ao descapitalizado a análise do seu investimento, nomeadamente as consequências deste, seja o bom ou mau uso da sua dádiva. No entanto é comum no voluntariado não receber dividendos excepto um sorriso ou um obrigado.

 

Na democracia temos um voluntariado forçado (embora a palavra voluntariado nem se aplique). Teremos uma maioria que aprova um pacote de bailout com uns quantos zeros e cada um, incluindo aqueles que não concordaram, metaforicamente dirige-se ao mealheiro e tira de lá uma nota para financiar os “pobres” (na prática o país endivida-se e vai lentamente espremendo o contribuinte pelo pagamento da soma). A comissão de extorsão então junta tudo e manda para o destino. Está então encarregue de ver os frutos do seu investimento e pode até receber dividendos já que falamos de um empréstimo. Mas não nos deixemos enganar, as comissões fazem um trabalho tão bom em ver para onde vai o dinheiro como os contribuintes individuais quando mandam uma lata de feijão para África. E no fim àqueles que aceitavam o voluntariado fica-lhes a saber a pouco enquanto os que não queriam dar o dinheiro ficam com um mau sabor na boca. Pelo menos foi o que me ficou a saber aquando dos bailouts da Grécia e Irlanda. Não é uma questão de estar cá para o próximo ou não, é se somos obrigados ou não a fazê-lo.

 

Agora falemos de propaganda estatal.

 

Porque foi gasto dinheiro nisto? Eu preferia que me tivessem pago um café! E não é um pouco duvidoso ser o estado a lançar um vídeo com a intenção de receber mais dinheiro para redistribuir (leia-se gastar)? Isto lembrou-me de há uns anos passar nos vários canais publicidade ao “cheque dentista” (uma invenção socratina que provou a inadequação do sistema médico público já agora), que deixou todos saberem que o PS se preocupava com os nossos dentes. Quando fiz uma viagem a Santiago de Compostela via também cartazes do “plano E”, outro plano de contornos duvidosos.

Não é novidade (até pode ser porque vejo uma estupidificação geral acerca deste vídeo) que os governos “querem aparecer”. Publicitar as grandes (pequenas) vitórias é infinitamente mais decisor na opinião geral do que dar uma longa e enfadonha lista de colossais derrotas e erros. E neste caso o vídeo bonito esconde vários problemas: Portugal está em dívida mas tem mais telemóveis que habitantes, omitem-se os vários contornos obscuros das nossas grandes conquistas (que não deixo aqui porque a informação está na internet e não sou nenhuma autoridade na matéria para não me acompanhar de referências que neste momento desconheço) e finalmente porque gastámos mais do que produzimos estamos a fazer chantagem emocional feito bebés com os finlandeses. A mesma chantagem que se faz com os ricos para eles subsidiarem os pobres já que os primeiros têm um dever de retribuir à sociedade (como se não o fizessem pelos serviços que proporcionam e pessoas que empregam), sem dúvida que os governos já sabem a lengalenga. E como os portugueses cá a engolem tão bem, talvez os finlandeses também o façam.

 

Rezem então, os que suportam que o governo se continue a endividar por nós, rezem para que os finlandeses caiam na “artimanha”.

 

 

Entretanto isto é o que os finlandeses deveriam realmente saber sobre Portugal (créditos a quem sejam devidos pelo grande filme):

 

 

 


Abril 19 2011

 

Se Portugal sair do Euro, terá de voltar para uma moeda desvalorizada em relação a este, e as suas dívidas (contraídas em Euros) tornar-se-ão maiores. Como resolver este problema?

 

 

 

1) Não faz qualquer sentido falar em sair da zona euro sem a declaração de default e reestruturação da dívida. Só depois da assunção de bancarrota e de anulação de grande parte da dívida é que se pode voltar para o escudo de forma a ajustar o valor da moeda à nossa produção.

 

2) O default não é uma opção que os políticos portugueses possam evitar, é uma realidade inevitável que nenhum pacote de salvamento irá salvar, ou seja, vai acontecer quer eles queiram quer não. Os historiadores económicos revelam que países com dívidas públicas acima do 60% do PIB nunca ou raramente evitam o default. Nós já vamos perto dos 100% (números oficiais, fora as aldrabices contabilísticas do governo português e da UE). Todos os países da UE que estão na situação portuguesa vão entrar em default, é uma questão de saber quando.

 

3) É preferível assumir o default antes de contrairmos mais dívida do FMI e UE do que depois, visto que o default é inevitável.

 

4) Não sendo o default uma opção de políticos mas uma realidade que está a prazo, não vale a pena lamentarmo-nos do impacto que isso vai ter nos bancos portugueses e estrangeiros, porque esse impacto vai sempre acontecer. É melhor que aconteça antes de se acumular mais dívida e de forma preparada.

 

5) A única forma de voltar ao crescimento económico é deixar de ter uma moeda (o euro) que nos incentiva apenas a importar e a não produzir. A manutenção do euro só seria possível colocando todo o Portugal em "Welfare", sem produzir e vivendo da redistribuição de riqueza da União Europeia. Mas isso é socialismo, e tal como a Margaret Thatcher disse: "o problema do socialismo é que um dia acaba-se o dinheiro dos outros". E um dia acaba-se o dinheiro Alemão.

 

6) É verdade que os Alemães beneficiam grandemente de uma moeda (o euro) que está subvalorizada em relação à sua capacidade produtiva. Assim podem exportar para todos os países da zona euro e acumularem capital. Mas por outro lado são vítimas de expropriação por 2 vias: 1) Por via do Banco Central Europeu que tem taxas de juro expansionistas. Gera assim inflação que mantém os salários reais na Alemanha comparativamente baixos. Por outro lado, como não importam, os preços dos produtos internos sobem também. Por isso os economistas revelam que os salários na Alemanha estão artificialmente baixos e os preços dos produtos artificialmente altos, o que lhes diminui a qualidade de vida. 2) O capital que acumulam é expropriado por via da redistribuição de riqueza através da UE. Para manter este sistema perverso onde os Alemães produzem e os PIIGS consomem, boa parte do capital acumulado proveniente das exportações serve para salvar os países endividados, improdutivos e com uma estrutura produtiva destruída devido aos incentivos deste eurosistema.

 

7) Em última instância, se os Alemães usarem continuamente o seu dinheiro para pagar os défices de todos os países, eles próprios vão entrar em bancarrota, deixam de ter acesso aos mercados e acaba-se o eurosocialismo.

 

publicado por Filipe Faria às 18:11

Março 26 2010

publicado por Filipe Faria às 19:08

Março 01 2010

O Consenso Português

 

O Insurgente fez 5 anos de existência. Várias personalidades escreveram textos para lembrar esse facto e, naturalmente, para congratular o colectivo. De todos os textos, o que captou mais a minha atenção foi o que foi escrito por José Manuel Fernandes (ex-director do jornal “Público”). JMF lembra como F.A. Hayek foi importante para a vitória ideológica e eleitoral de Margaret Thatcher em 1979, assim como lembrou as vitórias de Thatcher e o seu legado sob forma de “Thatcherism”. Ademais, JMF lembra ainda como o Insurgente tem um papel importante no quebrar do consenso estatista e social-democrata vigente, onde da esquerda à direita, todos acreditam que é o Estado que deve keynesianamente comandar a economia, e consequentemente, a vida dos seus cidadãos.

 

O Consenso Britânico

 

Para os que acham impossível qualquer mudança de paradigma em Portugal, vale a pena analisar o caso britânico. Depois da II guerra mundial, o consenso social-democrata keynesiano chegou a Inglaterra. Até à chegada de Margaret Thatcher em 1979, quer o partido trabalhista, quer o partido conservador, concordaram com o projecto socializante de Clement Attlee, o líder do partido trabalhista que lançou o Welfare State britânico. Esta era do consenso pós guerra britânico culminou com uma economia com crescimento quase nulo, estagflação, desemprego alto, défice público e, por fim, com a intervenção do FMI. Nessa altura a Grã-Bretanha era apelidada de “Sick Man of Europe”. Em seguida, Margaret Thatcher trouxe o liberalismo para o Reino Unido, através do monetarismo de Milton Friedman e da inspiração na fleuma literária de F.A. Hayek. Tudo mudou, o Reino Unido voltou a ser competitivo e ganhou influência no mundo, ajudando, com Ronald Reagan, a demolir o muro de Berlim, declarando triunfantemente a vitalidade da economia de mercado livre. Seguidamente, gerou-se um novo consenso: o new labour de Tony Blair já não era socialista e abraçava com bom grado o legado económico de Margaret Thatcher. O próprio Peter Mandelson, uma das figuras mais importantes do New Labour, declarou: “We are all thatcheristes now”. Talvez tivesse exagerado, o New Labour não era “Thatcherite”, mas tinha certamente deixado de ser socialista.

 

Novo Consenso

 

Durante as felicitações ao aniversariante, muitos alegaram que Portugal precisa de romper o consenso social democrata, destacando o papel positivo do Insurgente neste processo. Na minha óptica, não seria preciso apenas uma Margaret Thatcher, seria preciso um novo consenso onde a direita portuguesa fosse liberal e a esquerda fosse, no mínimo, liberal social, e onde o socialismo fosse uma memória do passado. Nada disto parece real nos tempos que correm; porém, a motivação de elementos como os do Insurgente dão-nos a ilusão de que em Portugal existe de facto debate de ideias fundamentais. Não existe, mas ao perpetuarem a noção de que poderá existir, eles trazem uma visão corajosa e optimista do futuro.

 

Parabéns (atrasados) Insurgente.

 


Fevereiro 27 2010

Os liberais (no sentido clássico do termo) não conseguem uma verdadeira influência no sector político europeu há bastante tempo. Contudo, o centro direita sempre foi incorporando algumas ideias liberais nos seus programas. Hoje em dia, todos, da esquerda à direita, pregam o estatismo: se é grande, se controla, se monitoriza o mais ínfimo pormenor social e económico, então estamos no caminho certo. O estado “grande” tornou-se consensual e os políticos agradecem. Aproveitam assim para fortalecer as máquinas dos seus partidos com mais cargos à disposição.

No epicentro deste pensamento único está, naturalmente, a crise económica e a fobia popular adjacente. O povo pede para ser protegido pelo estado e o estado não se faz rogado, incrementando os seus tentáculos estatizantes.

Já todos conhecem o lobo mau, chama-se neoliberalismo selvagem (peço desculpa pela redundância mas é assim que se costuma dizer nas tabernas e nas associações de estudantes universitários), é contra ele que o estado deve lutar. Claro que este lobo mau que nos é vendido em todo o lado está pintado de forma a servir os interesses políticos do burgo europeu.

Dizem-nos que a culpa da crise é da desregulação dos mercados e da falta de intervenção estadual no sistema bancário. Esta versão simplificada vende mais jornais, mas na realidade oculta pormenores que não encaixam no puzzle: o que não é dito é que foi precisamente através da intervenção da reserva federal americana que os bancos começaram a correr riscos suicidas. Como? Para convencer os bancos a colocarem mais dinheiro no mercado, estes foram incentivados através da fixação artificial de taxas de juros ridiculamente baixas. De forma análoga, foi concedida a protecção sobre as reservas dos bancos de forma a que estes jogassem as suas reservas no mercado. A acção governamental foi determinante para que os bancos tivessem a liberdade de arriscarem na oferta de empréstimos de retorno impossível. Em condições normais de mercado onde a responsabilidade do risco recaísse apenas e só sobre os bancos, a ponderação seria outra. A protecção governamental oferecida aos bancos terminou com uma total ausência de freios. Ademais, é frequentemente omitido que este processo não começou com o famigerado George W. Bush. O fenómeno está em curso há vários mandatos e o presidente Bill Clinton, visto por muitos europeus como um modelo de virtude, não o inverteu.

Vivemos na era do pensamento único. Em Portugal, a direita nunca foi de facto liberal; porém, no momento, está moribunda pois não consegue apresentar qualquer proposta que se desvie do pensamento estatizante da esquerda. Enquanto ela se arrasta, nós vivemos sem pluralidade nem contra-freios direccionais. Como consequência, o estado gasta, aumenta a dívida pública, incrementa a dívida externa e hipoteca as gerações futuras que terão eventualmente que pagar a conta.

Segundo o
Jornal de Negócios, o peso do estado chegou pela primeira vez na história aos 50% do PIB nacional, o valor mais alto de sempre. Continuar a criticar-se o suposto liberalismo em que vivemos, quando o estado controla 50% da riqueza produzida no país, é a prova de que estamos a viver dentro de uma peça de teatro do absurdo. Logo agora que esse género artístico nem está na moda.

 

 

Publicado pela primeira vez em 8/3/2009 no "The Visitor"

publicado por Filipe Faria às 17:32

Fevereiro 20 2010

Ler Sff

A crónica de Rui Tavares (comentada) - por LCD


Fevereiro 06 2010

É por oportunidades destas que um bloguista se sente impulsionado a continuar o seu trabalho! Parece que o meu último texto causou muito furor. Tanto que recebi três comentários de gratos leitores e que mereciam mais que uma resposta, mereciam um artigo integral:


Caro Tiago,

Curioso ver que no seu comentário não comenta a absorção de quase 50% do PIB pelo estado. Certamente que se este não cortasse o salário dos trabalhadores em dois seria mais simples ter poder de compra sem aumentar os fardos aos empresários, não? Também acho curioso que um empresário se veja face a enormes conflitos laborais para despedir um trabalhador ineficaz, reforça a noção numa empresa que não vale a pena trabalhar. O que um jovem da jcp percebe, ao contrário de mim que por sinal nem repito os 80% de esquerdistas e sindicalistas (sim, vós sois a mainstream, conformai-vos) é que se aumentarem os salários tudo melhora com o poder de compra. Mas os salários vêm da produtividade e sem esta aumentar então de onde virá o dinheiro?
-Imprime-se e criamos o Novo Zimbabwe?
-Roubamos aos empresários para eles não se interessarem em investir? Rapidamente deixará de ter um computador em que desenhar propostas-lei para salvaguardar os direitos dos trabalhadores e dos parasitas.
--Sim, roubar. Cobrar algum imposto para manutenção e o bem comum é aceitável, cobrar impostos aos ricos (a maioria dos quais trabalhou bastante para lá chegar) para dar aos pobres (a maioria dos quais se enterrou por políticas socialistas) é roubo legitimado por colarinho branco.

Será também importante realçar, e se quiser mais informação oiça atentamente o clip do youtube do mises institute uns posts abaixo deste, que no tempo em que não haviam máquinas para produzir mais havia, obviamente, menos e como tal era tudo mais caro. Se não havia incenso e especiarias para dividir por todos então nem todos podem ter, já pensou nisso? E já pensou que é preciso trabalhar para tudo ser produzido e para comprar tudo? Um emprego não tem um valor nato, tem o valor do que essa posição produz na sociedade. Se um homem produz uma música que é útil a milhões de pessoas acha mesmo que tem interesse em fazê-la para após colecta ganhar o mesmo que um homem que cola selos para as cartas seguirem no correio?

Por último, tenho que lhe apresentar a cruel realidade, a máquina de tachos é pública, é o estado. Porquê? Porque um empresário muito raramente põe numa posição da sua empresa alguém incapaz de colmatar ou exceder a demanda da mesma. E não mude de uma linguagem cordial para o "tu" no meio de um comentário, fá-lo parecer inapto com uma das grandes artes: a língua portuguesa.

Caro(a) Figueira,

Em primeiro peço imensa desculpa por não averiguar o seu género, dormi pouco e não estou com vontade de seguir links de momento para procurar a resposta à minha dúvida. Faço minhas as palavras do Filipe:

“[…]segundo instituições internacionais como a OCDE ou a Heritage Foundation, tem um dos códigos laborais mais rígidos do MUNDO (não apenas da Europa).”
“Em relação ao ordenado mínimo, saiba que países como a Alemanha não têm ordenado mínimo e não precisam dele para terem um bom nível de vida, porque ao contrário do que o esquerdismo que advoga gosta de fazer querer, os ordenados não sobem por decreto de lei, sobem sim pela criação de valor acrescentado.”

…e ponho aqui algumas das dirigidas ao Tiago. É verdade, trabalhar num posto de baixa qualificação é constrangedor, árduo, cansativo e a paga não é muito boa. Pior ainda é o investimento andar tão por baixo que não existam trabalhos de maior qualificação que permitam a uma pessoa encarar esses empregos de baixo ordenado como um comboio de passagem para uma posição melhor. Mas deixemo-nos de fantasias porque é verdade, não podemos pensar só no que poderia ser mas no que é neste momento. É uma pena que passar compras no lidl ou no continente seja um trabalho de ordenado baixo mas sejamos sensatos, qual é a preparação necessária para o executar? E qual é o grau de produtividade de uma caixa do lidl? Comparativamente à quantidade de stock (pessoas) para libertar, cada caixa despacha bastante devagar. Se calhar se só fossem precisas 3 pessoas nas caixas do hipermercado e fizessem o mesmo que as 15 ou 20 fazem neste momento, essas 3 fossem mais bem pagas, aí está, devido à sua produtividade. Encare como queira, as posições mais produtivas e com mais responsabilidade serão sempre melhor remuneradas, seja num regime liberal ou comunista. Parece um contra-senso mas imagine que obriga um cirurgião a reparar uma aorta a 50€ à hora. Sabe o que vai ouvir? Vai ouvir "não". Se aniquilar as diferenças de ordenado vai deitar por terra as diferenças de qualificação.

Mais uma vez, caro Tiago,

Um homem (ou mulher) tem direito à liberdade e à oportunidade de ser alguém. Pergunto-lhe desde quando isso passa por ter o resto da sociedade a limpar-lhe o rabo do berço à cova. Enxergue a falta de responsabilidade da população em geral por favor.
A cartelização e monopólio é consequência das leis estatais que impedem a concorrência livre. Se as empresas monopolistas se vissem face aos monstros estrangeiros talvez oferecessem negócios mais atractivos.

O Tiago fala na poupança das empresas para pagar salários maiores aos trabalhadores. Eu sou contra isso, os salários são proporcionais à produtividade e, fora ajustes inflacionários, devem ser alterados quando essa mesma produtividade sobe...ou desce. E os 25€ talvez sejam melhor empregues nas mãos do empresário porque este tem um poder que o cidadão comum está quase proibido pelo estado de ter: o de investir e criar emprego.


Mas quem sou eu, que sei eu. Sou só um estudante do ensino superior que vive nos subúrbios de Portugal e tem muita gente chegada a deparar-se com as crises de empregabilidade em Portugal e os fenómenos ocultos de gestão pública. Peço-lhe fervorosamente que não subestime a minha experiência com o sistema porque o que divulgo é a ponta do icebergue.

PS: Adorei a flor, alegrou-me o dia!


Fevereiro 05 2010

Parece que o cancro da má economia deu mais um passo ontem. Segundo o que li nesta notícia um senhor baixo, gordo e de bigode farfalhudo virou as atenções dos monstros do capital para Portugal, uma presa fácil. Pouco mais se pode adiantar daquela notícia senão o agravamento dos empréstimos ao estado e eventualmente a sua repercussão nos investidores lusos.

Claro que a questão essencial não deveria ser “o que fizemos para merecer isto” mas sim “porque um comentário do comissário europeu para os Assuntos Económicos e Financeiros consegue precipitar a bolsa na maior queda desde a falência do Lehman Brothers”. A resposta é uma economia cujo crescimento é apenas visível à lupa e com a flexibilidade da mentalidade de um jovem da jcp. E isso é a consequência natural de uma terra com
- impostos altos
- mão-de-obra cara e inflexível
- conflitos judiciais que demoram anos a resolver
- infra-estruturas de mobilidade todas ao contrário (entretanto também parece que decidiram que o TGV só vai transportar passageiros o que faz todo o sentido até porque não existem mercadorias para exportar)
- competitividade forjada mediante subsídios que abrangem desde o “incentivo ao investimento” até ao “porque sim”.

Talvez se este fosse um país que seguisse as cartas da Maya a sorte nos fosse mais favorável, porque toda a gente sabe que os pontos que enumerei são apenas consequência do destino e de uma força incompreensível. Ou pelo menos é o que José Sócrates e Teixeira dos Santos andam a pregar pelos microfones.
Talvez esteja mas é na hora de jogar com o que sabem que é “países com leis simples, liberdade e baixos impostos atraem investimento” e parar de tentar resolver os sintomas em vez da doença. Estão a tentar baixar a febre de um doente com malária com ben-u-ron e não é preciso ser médico para saber que isso não serve para nada…

 


Janeiro 25 2010
tim9798 (11 months ago) ShowHide

I don't understand why you Americans are so afraid of universal health care, as if this idea is on the edge of reason, its not new, every other 1st world country has it, becouse we believe its a right, not a corporation. And how does socialism = fall of freedom? In case you didn't notice, Sweden is socialist and very free, and to say that universal health care leads to becoming Sweden, well, that's ludicrous.
1) Sweden has a tax rate of over 50%
2) Sweden has a single payer no choice healthcare system
3) Name me a single Swedish Drug of Medical Instrument maker that isn't dependent upon exports to survive
4) Sweden is dependent upon the US for all medical advanvements, not everyone can be a free rider. Once we stop developing new drugs, Sweds will die.
5) In Sweden the young pay for the old, how perverse it that? Children supporting parents?
6) Demographics will topple that system.
drmoogala (4 weeks ago) ShowHide

Well ,first of all America is a unique country,it is not Sweden. What is considered freedom in Sweden is to stay drunk. In America we have a tradition of self-determination. To all you leftist fags what that means is freedom to fail as well as to succeed beyond most people's capacity to dream and everything inbetween. buttcrack and company are contrary to American ways of Life Liberty and the Pursuit of Happiness,not the socialist guarantee of mediocrity for all.
 
Tirado desta caixa de comentários. 
 
PS: para algo completamente diferente:  Uma análise sobre a evolução da Suécia por um sueco (liberal) do Mises Institute.
publicado por Filipe Faria às 05:55

Janeiro 23 2010

Há algum tempo estava na universidade a conversar amenamente com um colega e a comentar a abundância de estudantes do sexo feminino nessa instituição. Ele respondeu-me que esse facto se devia a estarmos numa universidade de ciências sociais que atrai essencialmente mulheres a uma média que supera os 80% em alguns cursos. Hesitei, perguntei-me o que estava ali a fazer, questionei por uns segundos os meus índices de testosterona, e respondi, não muito seguro, que ainda bem que assim é pois desta forma temos mais escolha e um melhor ambiente (pelo menos visual). Ficamos calados por instantes pois ambos sabíamos que elas estão lá geralmente para trabalhar em prol de boas notas e que mesmo que fossemos o Brad Pitt e o Jude Law (apesar de estarmos muito próximos) dificilmente teríamos alguma sorte, ou azar, mediante a perspectiva. Depois acrescentei que, actualmente, já mais de 60% dos alunos universitários são do sexo feminino e que mesmo nos cursos considerados “masculinos” como engenharia ou gestão as mulheres ganham visivelmente terreno. E mais, segundo o Instituto Nacional de Estatística, em Portugal, já no ano de 2004 as mulheres tiravam 2 vezes mais licenciaturas do que os homens. Ele pareceu-me assustado, mas como queria manter a conversa num tom satírico, disse que qualquer dia os socialistas vão querer quotas para os homens poderem entrar nas universidades visto que elas mostram ser mais metódicas e mais disciplinadas que eles, e, em média, isso revela-se nos resultados finais. Continuou dizendo que como os socialistas prezam mais a igualdade de resultados do que o mérito e a igualdade processual, estava à espera que mais ano menos ano surgissem esquerdistas a defender a presença dos homens nas universidades em detrimento das mulheres. Ambos rimos, sabendo-se que os socialistas são sempre uma boa fonte de humor, mas penso que nenhum de nós acreditava realmente nisso. Que ingénuos que fomos.

 

Na realidade, enquanto nós estávamos a ter aquela conversa cuja conclusão julgámos absurda, já os suecos tinham aprovado quotas para os homens no acesso ao ensino superior para combater a supremacia feminina nas universidades locais. Não nos devíamos surpreender, afinal de contas, como se sabe, os escandinavos são o modelo do mundo progressista social democrata. Para além de parecerem mais obcecados com a igualdade redistributiva do que com a liberdade individual, os escandinavos gostam de arriscar em prol dessa igualdade. Arriscaram no prémio Nobel da paz dado a Obama apenas pela sua aura messiânica e arriscaram igualmente na instauração de quotas para garantirem a igualdade de género nas faculdades ao aperceberem-se que as mulheres estão em muito maior percentagem nas universidades do que os homens.

No entanto, como era de calcular, a experiência não correu bem e gerou efeitos discriminatórios claramente injustos:

 

"The regulatory framework has caused inequality, writes Tobias Krantz. Last year it was almost exclusively women, 95 per cent, who got excluded because of their gender."

 

Depois de as mulheres que tinham mérito para entrarem nas universidades terem visto a sua entrada barrada devido ao sistema de quotas para homens, os seus protestos surtiram efeito e o ministro para o ensino superior sueco anunciou que vai terminar com o sistema de quotas considerando que estas geraram mais desigualdade do que igualdade. O mais intrigante desta história é saber como é que não se percebeu de início que este seria o inevitável desfecho, de tão óbvio que era. Naturalmente, a visão deve ter sido toldada pela indomável fúria progressista que visa a igualdade a qualquer custo, mesmo que para isso se passe por cima dos direitos naturais dos indivíduos, no fundo, um clássico da história humana.

 

As quotas, sejam elas para mulheres, homens, negros, brancos ou amarelos, são sempre uma discriminação positiva que vão em última instância prejudicar não só os elementos com mais mérito que vêem o acesso vedado por pessoas com menos mérito, mas também os próprios elementos que são positivamente discriminados, pois estes passam a ser vistos como elementos sem valor que subiram injustamente na sua posição social. Ademais, nenhum sistema pode ser optimizado se o critério principal não for o mérito e o liberdade de escolha.

 

A conversa com o meu colega findou no momento em ele foi socializar com umas colegas do sexo oposto. Mais tarde voltou algo indignado porque elas não pareciam especialmente receptivas. Como consequência, disse-me que se calhar umas quotas de mercado feminino só para ele não seria nada mal pensado, visto não gostar da concorrência masculina externa. Só os socialistas lhe poderiam resolver o problema. Quando o vi a clamar pelo senhor Sócrates lembrei-me do que significam realmente as quotas: privilégios legais sobre outros. 

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 03:54

Janeiro 16 2010

Com toda a razão, a Maria João Marques escreveu que já não há paciência para os típicos comentadores “imparciais” de esquerda (mesmo quando se proclamam de direita) que vão à televisão comentar a política nacional. Foi até mais longe qualificando muitos deles de “esquerda mascarada de direita”.

 

Não podia estar mais de acordo; porém, este fenómeno é apenas um sintoma da estruturação política portuguesa, ou seja, um reflexo e não uma causa. Num país onde o (suposto) principal partido direita é SOCIAL DEMOCRATA, alguém pode ficar surpreendido que os comentadores que se dizem de direita não acompanhem essa linha? Nunca é demais repetir verdades auto-evidentes quando elas são ignoradas pela comunicação social: a SOCIAL DEMOCRACIA é uma corrente de centro esquerda em qualquer país do mundo. Podemos tapar os olhos regularmente e fingir que o elefante não está na sala, mas todos os dias chocamos contra ele.

 

Bem sei que logo surge alguém (normalmente de esquerda em tentativa de auto-legitimação) que alega que isso é só o nome do partido e que o DNA do mesmo é de direita. De facto, o PSD tem alguns traços de direita nos valores sociais (apesar de cada vez menos), mas não diverge em nada do Partido Socialista na forma de olhar para o Estado e para o país. O PSD sempre foi liderado por keynesianos e sociais democratas, que se distinguem do PS por colocarem ênfase em pontos diferentes da propaganda política devido à necessidade de terem um produto distintivo no mercado do voto, mas que são substancialmente semelhantes em quase tudo. Basta para isto dizer que o peso do Estado cresce (pelo menos) tanto com o PSD como com o PS. 

 

Num país onde a direita é representada pela esquerda, não nos devemos surpreender que os comentadores políticos que estão na televisão sejam uma “esquerda mascarada de direita”, devemos sim ficar surpreendidos quando surgem comentadores que são realmente de direita (que vão começando a surgir), mas mais surpreendidos devemos ficar quando surgem políticos portugueses realmente de direita no arco de governação (que não surgem de todo).

 

publicado por Filipe Faria às 17:43

Janeiro 11 2010

 

"The left, we might think, has had a bad time of it intellectually over the last 15 years: socialism has collapsed, Marxism has little or no credibility and supposedly left of centre governments across the world have accepted privatisation and the private sector.

 

But in the academy things are very different. It is very rare indeed to come across a classical liberal or a conservative in a university humanities or social science department (I have to look in a mirror to see one in my public policy department)."

 

A Guide to Modern Lefties - Por Peter King - Via Insurgente

 

publicado por Filipe Faria às 04:30

Janeiro 09 2010

Ronald Reagan resumiu na perfeição o pensamento dos governos contemporâneos em relação à economia quando identificou as 3 fases comportamentais dos mesmos: se algo se move taxa-o, se se continua a mover regula-o, e quando pára de se mover subsidia-o.

 

O governo francês não é particularmente  criativo. Perante o problema do declínio da industria musical francesa o que é que faz? Subsidia-o. O que significa, em larga medida, que este sector chegou à terceira fase, ou seja, parou de se mover.

 

Segundo esta notícia, o governo francês tenciona taxar a publicidade na internet (sendo o google um dos principais visados) para subsidiar a industria musical, visto que esta está a ser “destruída” pela internet. Desta forma, a política Robin dos Bosques visa roubar os maus para dar aos bons. É justo. O que já não é tão justo é os ouvintes terem de ouvir o resultado final da música subsidiada, que é, em última instância, a principal razão do declínio. Quando a música não tem qualidade suficiente para crescer junto do público, quando não se expande e não se internacionaliza, só pode chegar a este ponto. Depois de anos de quotas na rádio para a música francesa e de proteccionismo cultural e económico nessa área, finalmente a industria pára, ou se não pára, pelo menos vai rastejando. Porém, em vez de alterar a estratégia e deixar os agentes musicais procurarem soluções para tornar a sua música mais dinâmica, o governo Francês volta às soluções dirigistas de subsidiação.

 

Quando se perguntarem porque é que o mundo consome essencialmente música anglo saxónica, não é preciso procurar muito. A resposta é simplesmente porque esta é produto do empreendedorismo musical e não de uma cultura de subsidiação. 

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 19:38

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