O REPLICADOR

Março 13 2010

O Rui escreveu um texto, baseado nas ideias de filósofos como Rothbard, Mises, Hoppe e Locke, onde procurou mostrar que o direito natural e a ética libertária justificam-se com a natureza humana por si só, não precisando de emanação divinas para tal. A razão é assim suficiente para decifrar a acção humana colando-a a uma ética humana que é reconhecida através de apreensões a priori.

 

Esta lógica dedutiva é fortíssima, principalmente porque ao se aceitar os seus axiomas teremos necessariamente de aceitar as suas conclusões; ou seja, se eu aceitar que todos os gatos são amarelos e eu tiver um gato, tenho de reconhecer que o meu gato é amarelo (felizmente não tenho gato nenhum e não preciso de o verificar empiricamente). O que está aqui demonstrado é uma ética criada e reconhecida pela Razão que dispensa testes empíricos pois é dedutivamente passível de ser validada. A Razão descodifica o axioma da acção e o axioma da argumentação, ambos extremamente sólidos, mas até que ponto é a origem da ética? Até que ponto esta construção racionalista não pode coexistir e ser produto de uma razão subjugada às paixões que constrói regras de conduta sociais para permitir uma vivência em conjunto? Uma pergunta mais complicada seria: porque é que numa ética tão clara como esta observamos e reconhecemos uma permanente violação da mesma?

 

Ao ler o axioma da argumentação que postula que existe o reconhecimento racional do “meu” e do “teu” quando se entra em argumentação sinto que este reconhecimento é bem mais emocional do que racional, visto que em última instância, a amoralidade permitirá um simples atropelamento físico (pela violência) sem qualquer argumentação visto ela não ser necessária em determinadas circunstâncias mais extremas (talvez por isso fiquemos chocados quando nos filmes alguém mata outro a sangue frio sem uma palavra, uma justificação ou um argumento). Dir-me-ás que tal não correspondia à ética em causa, ao que me parece que essa ética só vai corresponder quando a razão não colidir com a emoção. Faz-me lembrar um filme do Woody Allen (já não sei qual) em que ao lhe dizerem que ele tinha de escrever um texto satírico brilhante a desmascarar os nazis ele responde: “no, no, that won’t do, but a baseball bat goes straight to the point”.

 

Porém, a ética pode ser criada e o Rui pode ter “criado” essa ética de conduta; mas, não sendo empiricamente verificável, existe alguma razão para que toda essa construção racionalista não seja produto de uma motivação emocional primária mesmo que seja fortemente lógica? Tenho dificuldades em encontrar uma. 

 

PS:  Fiz algumas perguntas sobre o anarco-capitalismo ao Rui nos últimos 2 comentários que gostava (se possível) ver respondidas (sobre a imigração e a revolução não violenta). Gostava no entanto de fazer mais uma: numa sociedade anarco-capitalista onde os indivíduos misturam o trabalho com a natureza e adquirem propriedade, como fazer com que existam estradas e ruas para as pessoas se deslocarem? Todos podem adquirir terrenos que não permita a existência das mesmas (e eu gostava de poder sair de casa, apesar de nem sair muito). Considerando que o negócio era possível, calculo que as estradas e ruas seriam privadas, compradas por alguém e pagas por todos os que quisessem sair de casa e as usassem, certo? Mas as estradas não permitem concorrência, pelo menos aquela que servir a minha porta de casa, o que significaria que quem fosse dono da estrada poderia pedir o preço que quisesse para me permitir sair de casa.

publicado por Filipe Faria às 21:31

Fevereiro 16 2010

O mundo político divide-se em amantes da liberdade positiva e amantes da liberdade negativa da mesma forma que o mundo televisivo se divide em amantes da Anatomia de Grey e amantes do Dr. House.  

publicado por Filipe Faria às 18:48

Janeiro 29 2010

Um artigo do jornal “Público” revela o facto de as mulheres terem em média mais sucesso académico do que os homens e de que se está a formar uma nova classe baixa constituída por rapazes que fracassaram na escola. Nada de novo. O que também não é novo são as explicações dadas por sociólogos e pedagogos que se baseiam, em larga medida, na famigerada teoria da tábua rasa que considera que temos todas as mesmas características e que as diferenças apresentadas são apenas resultados da educação e da cultura. Este excerto do artigo é elucidativo:

 

“Especialista em assuntos de Educação, o sociólogo francês Christian Baudelot defende que, antes de mais, aquilo que é pedido pela escola é a interiorização das suas regras, mas que estereótipos sociais ainda dominantes valorizam nos rapazes o desafio, a violência e o uso da força - um verdadeiro "arsenal antiescolar". As raparigas, pelo contrário, são socializadas na família em moldes que facilitam a adaptação às exigências escolares: mais responsabilidade, mais autonomia, mais trabalho. "Trata-se de um conjunto de competências que as torna menos permeáveis à indisciplina", observa Teresa Seabra. No ano passado, em Espanha, 80 por cento dos alunos com problemas disciplinares eram do sexo masculino.”

 

Desta forma, como acreditam que tudo se resolve pela educação, desenvolvem constantemente engenharias sociais para igualizarem o inigualável cometendo cada vez mais erros ao não permitirem que cada elemento seja livre para escolher o seu caminho segundo as suas características inatas e os seus instintos.

 

É muito claro que há diferenças genéticas entre rapazes e raparigas (eu pelo menos olho sempre para esses sinais distintivos nas fêmeas): os traços físicos, a força, a impulsividade, a drive sexual,  a agressividade que está ligada aos níveis de testosterona (superiores nos homens), etc etc. Contudo, os nossos amigos das pedagogias acham que tudo se deve à educação e à pressão social, como se os meninos e meninas não tivessem instintos próprios para reagirem ao contexto que as rodeia. Para estes educadores as pessoas são meros balões que voam para o lado que sopra o vento, ou seja, retiram da equação qualquer noção de livre arbítrio ou de responsabilidade pessoal.

 

 

 

 

Assim sendo, acreditando nestes pedagogos adeptos da teoria da tábua rasa, todas as tendências que separam os 2 sexos só se podem explicar por acordos sociais que os homens fizeram entre si e por acordos sociais que as mulheres fizeram igualmente para criar a tal “pressão social” e os tais “estereótipos”. Vamos esquecer os contratos sociais de Rousseau ou Hobbes ou Locke, este é “o verdadeiro contrato social” para estes pedagogos. Aqui ficam algumas das premissas acordadas:

 

  • Os homens acordaram entre si morrer em média mais cedo enquanto que as mulheres preferiram acordar morrer mais tarde. Os homens até acordaram terem taxas de suicídio bastante superiores às das mulheres (esse radicais contratuais).

 

  • Os homens acordaram terem (em média) mais força, maior drive sexual, mais comportamentos de risco e serem menos organizados do que as mulheres, elas acordaram o contrário porque queriam parecer melhor em vestidos.

 

  • Os homens concordaram em ser maus na escola porque os pais lhes diziam para serem viris e não para serem bons alunos (alguém acredita nisto?). Já as mulheres concordaram em ser boas alunas porque os pais lhes disseram para elas serem bem comportadas e boas estudantes (e não é que elas obedeceram).

 

  • Uma das premissas acordadas por unanimidade entre os homens é o facto de geralmente fazerem pouco trabalho doméstico (visitem a casa de um solteiro médio e provavelmente vão encontrar no frigorífico sandes azuis de bolor feitas em 1996). Por outro lado, as mulheres acordaram que o trabalho doméstico precisa de ser feito por uma questão de necessidade e mesmo quando não o apreciam particularmente tendem a fazê-lo com competência.

 

  • Eles acordaram em ter uma capacidade de movimentação espacial superior e elas acordaram ter uma inferior porque acharam que bastava terem melhores capacidades comunicativas (e seios) para dominarem os movimentos dos machos. 

 

No fundo estes pedagogos são contratualistas que pregam uma reformulação deste “verdadeiro contrato social” de forma a que homens e mulheres acordem as mesmas coisas no sentido de obterem uma massa igualitária. É isso que estão a tentar. Porém, como o ser humano não é uma tábua rasa preenchido pelas suas políticas educativas e como ainda estamos longe de conhecer com exactidão os fenótipos das milhões de combinações de genes humanos, seria bom que admitissem a sua ausência de conhecimento e dessem liberdade de escolha para cada um escolher o seu caminho escolar e profissional.

 

Em média, homens e mulheres têm tendências comportamentais diferentes que se manifestam desde bebés (quando a influência da educação é ínfima), mas todos terão capacidades que podem ser optimizadas por eles mesmos numa sociedade pluralista e descentralizada.

 

PS: Outros textos sobre o assunto : Educação em Portugal: A Crença na Tábua Rasa, Steven Pinker: Acerca da Tábua Rasa

 


Janeiro 14 2010

"Every intellectual has a very special responsibility. He has the privilege and the opportunity of studying. In return, he owes it to his fellow men (or “to society”) to represent the results of his study as simply, clearly and modestly as he can. The worst thing that intellectuals can do – the cardinal sin – is to try to set themselves up as great prophets vis-à-vis their fellow men and to impress them with puzzling philosophies. Anyone who cannot speak simply and clearly should say nothing and continue to work until he can do so."


Popper, Karl: Against Big Words, in: Karl Popper: In a search of a better world. Lectures and essays from thirty years, London 1994, p.83.

 

publicado por Filipe Faria às 22:30
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Janeiro 09 2010

1- Sobre o estado de natureza hobbesiano

 

Segundo Friedrich Hayek, o estado de natureza de Thomas Hobbes é um mito; refere-se naturalmente ao estado cruel onde o Homem vive  num estado permanente de todos contra todos. O modelo individualista, ultracompetitivo e agressivo que Hobbes propôs para explicar as origens das sociedades nunca podia ter existido segundo o autor austríaco. Da mesma forma, Darwin defende que o Homem sempre foi social desde que nasceu, com laços competitivos mas também de entreajuda entre os membros geneticamente mais próximos, ou seja, da mesma tribo. Igualmente, o próprio Hayek caracterizou o homem selvagem de uma forma que poderá surpreender os que o vêem como um extremo defensor da cultura individualista:

 

“The savage is not solitary, and his instinct is collectivist”

F. Hayek

 

2- Evolução social

 

Ambos consideram que a selecção natural se faz ao nível do indivíduo e não do grupo, mas isto é essencialmente válido no campo da evolução biológica. No campo da evolução social (ou cultural) o processo é, em larga medida, Lamarckiano: as inovações que foram adquiridas durante o espaço de uma vida são transmitidas à comunidade de forma a produzirem uma sobrevivência  e reprodução mais eficazes. Ambos os autores consideram que a capacidade para imitar é provavelmente a característica mais importante para o desenvolvimento do conhecimento humano. Darwin chegou mesmo a aceitar a premissa de Alfred Wallace quando este diz que muito do trabalho inteligente do homem é feito por imitação e não através da Razão. Mais especificamente, a título de exemplo, quando um homem inventa uma arma eficaz para si mesmo, com o intuito de atacar ou defender, todos os outros elementos vão imitá-lo, não porque vão usar a Razão para racionalizar as consequências, mas sim por razões emulativas de equilíbrio de poder e sobrevivência.

 

3- Transmissão de cultura

 

A transmissão de cultura entre grupos foi descrita por Darwin da seguinte forma:

 

“We can see, that in the rudest state of society, the individuals who were the most sagacious, who invented and used the best weapons or traps, and who were best able to defend themselves, would rear the greatest number of offspring. The tribes, which included the largest number of men thus endowed, would increase in number and supplant other tribes. Numbers depend primarily on the means of subsistence, and this depends partly on the physical nature of the country, but in a much higher degree on the arts which are there practised. As a tribe increases and is victorious, it is often still further increased by the absorption of other tribes”

C. Darwin

 

 

Desta forma, ao contrário dos argumentos dos defensores da cultura imutável, a cultura e a evolução social dão-se de forma transcultural através da imitação das inovações que se impõem como mais eficazes para resolver problemas. Em paralelo, um determinado grupo que perceba que outro grupo está a dar-se bem com determinadas inovações políticas irá sentir-se tentado a adoptar essas mesmas políticas. A isto podemos chamar globalização cultural, que apenas oferece resistências quando os Estados centrais, ou outras organizações centralizadas, rejeitam essas mesmas inovações que provêm de outras localidades. O indivíduo facilmente adopta essas mesmas inovações que funcionam com outros indivíduos, mas nem sempre os Estados têm interesse em fazê-lo por razões que se prendem com a manutenção de poder.

 

4- Solidariedade social e Estado

 

Ao rejeitar o contrato social hobbesiano por considerar que o estado prévio ao contrato não define a natureza humana, Hayek relembra que a ideia de Darwin não é a simples vitória dos mais aptos através da dura competição, é sim uma mistura de cooperação e competição que permitiu o desenvolvimento humano até aos dias de hoje, sem que fosse o contrato social a definir as premissas fundamentais do comportamento humano. Não será por existir mais intervenção dirigista do Estado que vamos cooperar mais nem por haver menos intervenção de Estado que vamos competir mais, podemos é competir pior e cooperar pior. Naturalmente, ao perguntarmos qual a solução que mais beneficia o todo, a resposta é clara, não só em Hayek mas também em Darwin: a política da liberdade individual e da não intervenção estatal, pois a entreajuda e a solidariedade social não começaram com o Estado providência, nem sequer com o Estado, começaram sim com os primeiros humanos.

 


Dezembro 30 2009

No seu paper “Colusion, Competition and Democracy”, o cientista político Stefano Bartolini explica os benefícios da competição através da ideia da mão invisível de Adam Smith e da ordem espontânea (que sem um plano humano supera quaisquer planos concebidos pelo homem) de Friedrich von Hayek.

 

De acordo com esta visão, a competição melhora progressivamente a performance da organização onde os competidores operam. Contudo, diz algo mais interessante que consubstancia a ideia anterior. Parafraseando: o funcionamento deste milagroso mecanismo foi notado há já muito tempo na espera biológica e foi provavelmente importado de lá. Foi notado que o prazer sexual, que para o individuo é auto-justificado, é um meio através do qual a espécie assegura a sua perpetuação.

 

Tal como Woody Allen documentou em “Annie Hall”, nós podemos mentir, mas o corpo não mente.

 

“What's fascinating is that it's physical. 

You know, it's one thing about intellectuals,

they prove that you can be absolutely brilliant

and have no idea what's going on.  But on the

other hand ...

(Clears his throat)

the body doesn't lie, as-as we now know.”

 

Woody Allen

 

 

publicado por Filipe Faria às 03:21

Dezembro 27 2009

 

 

Costuma-se dizer no âmbito das relações internacionais que os seres humanos só vão ter paz entre si quando encontrarem um inimigo externo a eles, como uma invasão de alienígenas. O que a saga cinematográfica “Alien” nos vem dizer é que nem isso nos uniria numa paz kantiana. 

 

A ideia patente nos quatro filmes “Alien” é a que apesar de existir uma ameaça alienígena, os humanos continuam a ter ideias diferentes em relação à forma de lidar com o problema e continuam a olhar para a situação com vista a trazer o máximo de proveito para si mesmo em detrimento do próximo. Em última instância, numa perspectiva utilitarista, se alguém considerar que manter um alienígena mortífero vivo traz mais dividendos do que manter humanos vivos ele/ela irá fazê-lo. A saga não é inquietante por causa da destruição em massa, do sangue ou dos milhares de assassinatos, é inquietante pela mensagem que deixa: independentemente do que possa acontecer, o amor à humanidade como um todo é algo que não existe.

 

Esta mensagem parece ter na sua base a explicação do sociobiólogo Edward Wilson para a nossa falta de coesão como colectivo alargado: ao contrário das formigas, que por serem estéreis precisam de trabalhar para a mãe com um forte sentido de espécie, o facto de os humanos terem autonomia reprodutiva faz com que tendam a colocar os seus interesses genéticos à frente dos de uma colectividade de que não dependem directamente. Desprovido de sexo, “Alien” é, em última instância,  um filme sobre reprodução.

 

Em “Alien: Resurrection” (Alien 4), ao descobrir que a dedicada e caridosa rapariga interpretada por Winona Ryder é afinal um robot, Ellen Ripley (Sigourney Weaver) profere a frase que resume a lógica subjacente à saga: “No human being is that humane”.

 

publicado por Filipe Faria às 01:06

Dezembro 17 2009

Finalmente tenho alguns dias de férias. Depois de um período sem tempo para mais nada, posso finalmente respirar e actualizar-me em relação à actualidade informativa. Já reparei que o nosso mundo continua igual, isto é: os casos de corrupção governamental continuam, o nosso défice orçamental continua a derrapar até aos limites da insustentabilidade, as reforças liberais necessárias não são feitas, a imprensa portuguesa continua a apresentar o aquecimento global como uma religião inquestionável, e por aí fora. Porém, há algo de novo no horizonte. Já se sabia que o socialismo se gaba do seu progressismo militante, mas agora faz questão de o mostrar na Assembleia da República. Sofia Cabral, deputada do PS, levou um generoso decote para representar o povo em mais uma sessão parlamentar. Nestes momentos, dou por mim a concordar com J. J. Rousseau: de facto, a vontade geral não pode ser representada, visto que o representante nunca representa o povo mas sim ele mesmo. Neste caso concreto, ao nível da sua configuração genética, aquela senhora não representa (infelizmente) uma boa parte das mulheres portuguesas. Rousseau, tinhas razão, só a democracia directa é verdadeiramente democrática.

 

Claro que já se encontram debates acesos sobre a legitimidade do decote da generosa socialista (isto é um pleonasmo, claro, porque todos os socialistas partilham e são generosos). Do lado socialista (no caso do Daniel Oliveira será mais comunista new wave), o decote é excelente e todas as mulheres deviam usar tais decotes em todas as circunstâncias, mesmo que com isso alienem a atenção dos intervenientes masculinos na sua profissão. Do lado da direita monárquica, através do Rodrigo Moita de Deus, a resposta vai no sentido de que se não tivermos qualquer consideração pelo efeito dos nossos actos no contexto em que interagimos, podemos cair no ridículo de se ir para o parlamento de tanga dissertar sobre o défice orçamental de Estado, que, por coincidência, já foi ligado ao facto de o país estar vestido com tal indumentária.

 

Este debate faz-me lembrar um estudo na área da psicologia comportamental a que assisti num documentário da BBC. Este estudo procurava aferir o efeito da imagem dos elementos do sexo oposto nos homens e nas mulheres. Foram colocados vários homens a verem vários telejornais. No primeiro telejornal o apresentador era um homem e no segundo a apresentadora era uma jovem decotada que apresentava índices de fertilidade elevados. Sem surpresa, no final do teste, os homens que tinham visto o telejornal apresentado pelo apresentador masculino sabiam falar sobre as notícias que tinham visto com um bom nível de detalhe. Por outro lado, os que viram o telejornal com a jovem apresentadora destapada, não só não conseguiram dominar os detalhes, como muitos deles nem se lembravam com exactidão dos temas abordados. Os mesmo homens trocaram de posições, viram os telejornais contrários e o efeito foi o mesmo. Já no caso das mulheres, verificou-se que não havia diferença entre o telejornal ser apresentado por um homem ou por uma mulher (decotada ou não), visto que apresentaram o mesmo nível de reconhecimento dos temas e notícias abordadas.

 

Desta forma, voltamos ao clássico problema da universalidade que não consegue ser resolvida, nem ao nível filosófico, nem ao nível prático. Gostamos, dentro de determinados limites, da ideia de igualdade, mas posteriormente, perante situações de “zero sum game”, há quem não resista em puxar a corda para o seu lado até partir. Se todos reagimos de forma diferente aos mesmo estímulos, mas não conseguimos deixar de reagir, então só o bom senso, o compromisso e a aceitação dessas mesmas reacções nos pode ajudar a resolver, ou a mitigar, problemas que não são, de todo, de carácter exclusivamente pessoal. Por outra palavras, eu não posso esperar fazer tudo o que quero em público sem esperar colher consequências desses mesmos actos. A única maneira de tal não acontecer (em teoria) seria ter um Estado que impedisse os humanos de reagir a estímulos, coisa que certamente a extrema esquerda não se importaria, mas que instauraria, mais do que o totalitarismo, o zombismo.

 

Contudo, como não estou no parlamento, como não tenho de ouvir o socialismo da senhora deputada Sofia Cabral, como acho que a ineficiência do parlamento não pode piorar muito mais, só lhe posso agradecer pela sua generosidade. Convenhamos que é de admirar entusiasticamente a primeira socialista que não precisou de roubar a alguém para ser generosa com os outros. Bem haja esta senhora. 

publicado por Filipe Faria às 16:53

Novembro 07 2009

 

 

publicado por Filipe Faria às 13:30

Outubro 31 2009

 

http://fora.tv/2009/08/18/David_Cameron_in_Conversation_with_Nassim_Taleb

 

"Mother nature does not like the David Ricardo concept (one country specializes in wine, and another one specializes in something else) . What if suddenly people stop drinking wine?"

Nassim Taleb

publicado por Filipe Faria às 21:06

Setembro 23 2009

Your free market is perfectly natural,

Or do you think that I’m some kind of dummy,

It’s the ideal way to order the world,

Fuck the morals, does it make any money? *

 

Jarvis Cocker

 

A ironia do vocalista dos Pulp é usada ao serviço da luta anti-liberal/anti-mercado. Não deixa de ser igualmente irónico que Jarvis pertence ao país europeu que mais música pop produz e que cuja estrutura liberal mais oportunidades dá aos artistas para que possam usar a sua criatividade como forma de sustentação financeira e de ascensão social.

 

O que ele parece ignorar nesta reivindicação é que a tal “moral” que diz que o mundo esquece é uma moral pluralista que, não só não gera consenso, como não é compatível com as diversas sensibilidades humanas. Já o dinheiro, com a sua conotação vil, é um mediador neutro: vale o mesmo para todos e cada um coloca a sua individualidade no significado que lhe quer dar. Esse significado traduz-se em escolhas e estilos de vida pessoais. Tentemos trocar morais entre nós e obteremos discórdia; tentemos trocar dinheiro e, dentro dos limites do “vive e deixa viver”, obteremos a possibilidade de colocar a nossa moral individual nos resultados obtidos.

 

 

 

 

 

* Cunts are still running the world

 

publicado por Filipe Faria às 20:21

Setembro 20 2009

Astuta como sempre, a Andreia comentou o post “A Razão de “Lord of the Flies” levantando uma questão pertinente: se o móbil do ser humano não é a racionalidade e este acaba sempre por trazer ao de cima o “animal” que há dentro dele, como é que eu posso (solitariamente) defender o liberalismo e a escolha do indivíduo nas conversas das esplanada da FCSH? Por outras palavras: se o ser humano tem um “mau selvagem” dentro dele, há outro remédio senão ter o Leviathan hobbesiano a impedir, através da coerção, que ele transgrida as regras de civilidade? Estas perguntas indicam a sugestão de que quem tem uma visão menos idílica da Razão humana deve logicamente optar por uma ideologia conservadora de autoritarismo e ordem onde o governante controla todos os comportamentos irracionais/animalescos do Homem. Defender o liberalismo faz assim pouco sentido.

 

Sento-me na cadeira (geralmente suja) da esplanada, tento fugir ao sol e tento lembrar-me de tudo o que já li sobre o assunto. Chego à conclusão que é melhor usar o improviso porque a Razão está inibida pela minha fraca memória. É este o problema da Razão: há sempre algo que falha pelo caminho até se chegar até ela (mesmo que Kant, numa atitude de “motivational coaching”, nos “prometa” que um dia chegamos lá).

 

Ora, comecemos então. Os liberais clássicos advogam um mercado livre fundado na assunção de que os indivíduos são racionais, auto interessados e metódicos na persecução dos seus objectivos. Assim sendo, quem não acredita na Razão pode ser um liberal clássico? Pode. Porque este indivíduo racional de que se fala usa essencialmente a tal razão de David Hume (que consiste em ser apenas um meio para atingir os fins das emoções e dos desígnios dos sentimentos de cada um). Neste caso, o indivíduo ser racional não significa necessariamente que ele seja movido por interesses racionais, significa apenas ele usa a racionalidade para os seus fins pessoais. O mercado funciona não porque as pessoas desejam racionalmente tornar a sociedade mais rica mas porque através do seu auto interesse vão trocar bens e serviços entre si de forma a maximizarem as suas pretensões. Como resultado, por vias deste processo, a sociedade gera riqueza para todos os intervenientes. A soma de todas estas trocas é a essência da “mão invisível” de Adam Smith, que representa, tal como disse Milton Friedman: "the possibility of cooperation without coercion."

 

E é precisamente a possibilidade de cooperação sem coerção que faz com que um Leviathan que tudo controla seja em grande parte desnecessário. Porém, o principal objectivo do Leviathan hobbesiano é manter a paz e a ordem, visto que se constatou que os humanos facilmente cometem atropelos às liberdades dos outros e como tal precisamos de um regulador que puna esses atropelos. Nesta fase encontramos a principal questão: o que deve o governante regular? Segundo John Locke (cuja filosofia está na base do liberalismo clássico), as pessoas chegam à conclusão que precisam de um contrato social criador de um soberano que proteja os indivíduos dos atropelos selvagens do estado de natureza. Neste ponto Locke concorda com Hobbes. Contudo, este soberano deve apenas regular a propriedade privada, o que inclui, não só os bens materiais de cada indivíduo, mas também a sua integridade física e os frutos do seu trabalho. O mercado não pode funcionar se eu puder entrar num stand de automóveis e sair de lá com um carro sem o pagar. A mesma coisa para a integridade física: é difícil usufruir das vantagens do mercado se alguém me matar entretanto. Desta forma, um liberal clássico advoga geralmente um estado mínimo com funções protectoras, mas também com checks and balances que impeçam o abuso de poder e que permitam destituir o governante quando este envereda por caminhos que levam à tirania e ao incumprimento das suas funções previamente acordadas. Se essas funções forem estendidas a outros campos podemos cair estado paternalista (para usar a expressão de Tocqueville) ou até no totalitarismo governamental que a extrema protecção do Leviathan propicia. Por outro lado, é preciso realçar que o liberalismo não termina no atomismo. Particularmente, fomenta o associativismo livre onde cada um pode entrar e sair de uma associação livremente mediante a sua vontade (No “Lord of the Flies “ os pais e amigos do Piggy iriam associar-se para o proteger).

 

Desconfiar da bondade racional da natureza humana faz parte da noção liberal da aversão à concentração de poder numa só entidade. Temos boas razões para acreditar que os homens que desejam ter todo o poder na mão para controlarem a população são normalmente homens com características que os pré-dispõem a passar por cima das liberdades dos outros para atingirem determinados desígnios sociais construtivistas (este argumento está bem desenvolvido em “The Road To Serfom” de Friedrich Hayek).

 

E sim, para responder à pergunta da Andreia sobre o comportamento do homem e a influência genética: acredito que as diferenças de personalidade dos homens e mulheres são fortemente influenciadas pelos genes. Não será lógico achar que a tendência para a agressividade, para a timidez, para a extroversão, para a liderança, ou para outras, provém apenas da socialização. Parafraseando o Steven Pinker: todos aqueles que têm mais do que um filho sabem que eles têm temperamentos diferentes desde muito cedo apesar de terem a mesma educação e contexto social. Se algumas destas características forem consideradas “selvagens”, tal apenas significa que encontramos uma categoria social para as encaixar, fazendo com que cada um de nós seja designado de mais ou menos selvagem consoante as nossas características.

 

Em suma, apesar de acreditar que o mercado é a melhor forma de criar e distribuir riqueza, um liberal clássico não coloca o foco central na igualdade material mas sim na igualdade perante a lei. E a lei existe porque vivemos na cidade dos homens e não na cidade de deus.

 

 Podemos levar a questão da associação mais longe e perguntar se a existência do Estado faz sentido e se não estaríamos melhor com pequenas organizações voluntárias postuladas por Murray Rothbard e pela sua corrente anarco-capitalista. Ao fim ao cabo os Estados são organizações armadas sem nenhum Leviathan superior (ONU??) a mandar deles e o mundo continua. Mas isso seria feito noutra sessão de esplanada porque toda a gente já abandonou a nossa mesa e ficámos só nós os dois. Ademais, temo que a Andreia já tenha adormecido...

 

 

publicado por Filipe Faria às 03:32

Setembro 18 2009

 O livro “Lord of the Flies” de William Golding é um clássico da literatura que sempre me fascinou. Documenta a vivência de um grupo de rapazes de bons colégios ingleses que são obrigados a viver numa ilha deserta devido ao despenhamento do avião onde viajavam. Sem adultos na ilha, eles são obrigados a organizarem-se para sobreviverem durante a estadia. Apesar da sua boa educação em Inglaterra, rapidamente perdem a civilidade, e a estadia transforma-se numa luta selvagem por poder e domínio estratégico onde acabam a matar-se por esses fins. Em suma, estes rapazes chegam como “gentlemen” mas terminam como selvagens.

 

 

Assim sendo, trata-se de um tratado da natureza humana não assumido. Lança ainda por terra 2 correntes de pensamento ainda bastante presentes na actualidade:

 

- A do “Bom Selvagem” de Rousseau (onde o homem nasce bom mas a sociedade e as suas desigualdades tornam-no mau) 

 

- A da “Tábua Rasa” (onde se acredita que o homem nasce sem pré-disposições inatas para nada e onde a educação/socialização o constrói por completo).

 

Naturalmente, nem os rapazes eram bons por natureza, nem a alta educação que receberam em Inglaterra impediu que estes se comportassem como selvagens. Toda a narrativa está repleta de alegorias neste sentido.

 

A alegoria que considero mais representativa é a que contempla a personagem Piggy:

 

Piggy era um rapaz obeso, com asma e com problemas de visão que o obrigavam a usar óculos, mas, por outro lado, era também inteligente, racional e civilizado. Ele acaba morto pelos actos selvagens dos outros rapazes enquanto tenta, de forma eloquente, mostrar as vantagens da ordem e da razão. Esta personagem representa a civilização que crê cegamente na Razão recusando-se a olhar para a natureza humana. Desta forma, ele tentou superar as suas insuficiências através da racionalidade argumentativa sem contar com a superioridade física de sobrevivência dos outros elementos. Esqueceu-se que a Razão é parte do homem, não é o homem. Já David Hume defendia que esta é um meio ao serviço das emoções. Em última instância, são os sentimentos que ditam os objectivos humanos.

 

E Piggy não era, como é óbvio, o verdadeiro nome do rapaz. O verdadeiro nome dele ninguém sabe qual é...

 

 

 


Setembro 08 2009

No seu livro clássico “The Road to Serfdom”, Friedrich Hayek mostra como o socialismo, apesar da sua filosofia internacionalista, é apenas e só nacionalista. Por outras palavras, o socialismo só é praticável num grupo limitado de pessoas e tem como premissa a aceitação da visão socialista por parte de toda a sociedade, esmagando assim qualquer tentativa de dissidência de eventuais elementos que vivam nesse grupo e que possam não concordar com a moral vigente. Embora se baseie na moral humanista, o socialismo só em teoria se preocupa com o estrangeiro, na prática (como se observou na Alemanha pré- nacional-socialismo e na Rússia comunista) este é violentamente nacionalista.

 

É relativamente fácil aferir esta ideia “auto-evidente”: qual o político socialista com ambições de poder que contempla uma redistribuição de riqueza equitativa por todos os povos do mundo? Nenhum. O que revela que não é uma moral humanitária igualitarista que move a acção socialista, mas sim uma vontade de poder que se manifesta através da promoção do pensamento único numa tribo geograficamente localizada. Tal como Hayek deixou escrito: “Todos eles consideram que o capital pertence à nação e não à humanidade... aquilo que os socialistas proclamam como deveres perante os membros de outros estados não estão eles preparados para conceder ao estrangeiro”.

 

Na prática, alguém imagina líderes da esquerda portuguesa como José Sócrates, ou outros mais utópicos como Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, a defenderem que não só os ricos precisam de entregar o seu dinheiro aos mais pobres, como também os mais pobres em Portugal devem entregar o seu dinheiro àqueles que, no resto do mundo, são ainda mais pobres do que eles? Certamente que não. Não só é uma ideia que carece de exequibilidade como faria com que não tivessem apoios (votos) de qualquer classe social, das mais altas até às mais baixas. Desta feita, qualquer moralismo igualitário internacionalista como fim a atingir é deitado por terra.

 

Tornou-se comum ouvir vozes da esquerda a proporem ajudas aos estrangeiros mais desfavorecidos. Paradoxalmente, essas mesmas vozes defendem medidas proteccionistas para proteger os trabalhadores nacionais contra o comércio internacional, impedindo assim a criação de riqueza em países mais pobres que desejam vender os seus produtos. A consequência é lógica: o que o socialismo propõe é, invariavelmente, uma política de esmola e não de auto suficiência. Este quer dar um ou outro peixe sem nunca ensinar a pescar. Por muito que custe a muita gente da esquerda, foi o liberalismo que retirou milhões de habitantes da pobreza através do comércio internacional, e quanto mais fechadas forem as economias mais pobreza existirá, mais esmolas existirão, e, para a felicidade de muitos, mais socialismo existirá.

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 20:40

Agosto 16 2009

Não é incomum, em debates políticos, observar a esquerda a salientar a hipocrisia desses “liberais” que passam a vida a clamar por menos intervenção estatal e depois, quando precisam, aceitam de bom grado essa mesma intervenção para que possam ser salvos com dinheiros públicos. Obviamente, esses “liberais” referidos são os famigerados empresários.

 

A assunção de que todos os empresários são liberais é tão falaciosa como a de achar que todos os socialistas querem a igualdade entre humanos, com a diferença substancial de que os empresários são mais sinceros nos seus intentos. O objectivo do empresário é, em última instância, a maximização do lucro. Por outro lado, o objectivo de um liberal é, em última instância, a manutenção da liberdade. 

 

A lógica manda acreditar que os empresários devem ser liberais, pois é a liberdade de acção económica que lhes permite atingir as suas pretensões. Assim é, na maioria dos casos. Contudo, existem “falhas de mercado” infligidas por sistemas políticos onde o estado ganha uma preponderância económica sobre o mercado que obriga vários empresários a pensarem duas vezes antes de rejeitarem a intervenção estatal. Em concomitância, em sociedades contemporâneas como a portuguesa, o sistema dominante não é um mercado livre. É sim, em larga medida, um mercado clientelista onde os agentes económicos não concorrem apenas entre si mas concorrem também pelos favores do estado. Desta forma, dentro deste modo de organização económico/político, um empresário pode ter muito a ganhar em não ser liberal.

 

Está largamente documentado pelo senso comum que um determinado apoio ao intervencionismo estatal gera benefícios financeiros para alguns elementos da classe que têm contactos privilegiados com os meandros políticos estatais. Há exemplos mais evidentes que outros: as construtoras que se aproveitam das grandes obras públicas é um dos mais claros. Porém, não estão sozinhas: as maiores empresas já implantadas firmemente no mercado não vêem com maus olhos determinadas cargas fiscais pesadas se isso significar eliminação da concorrência de empresas que as não puderem suportar. Adicionalmente, a protecção estatal de determinadas empresas de maior dimensão promove o lucro sem risco, o que para um empresário é viver no melhor dos dois mundos. E sim, em teoria, um empresário seria um liberal, mas na prática o que se verifica é uma adaptação darwinista ao contexto. Se só lhes dão ovos, eles fazem omeletes, porque tentar mudar todo o sistema que dá ovos afigura-se muito mais complicado. Neste caso, mudar a galinha estatizante.

 

Um liberal obedece a convicções ideológicas: este terá de ser, no campo institucional da acção social, um político comprometido com a defesa das liberdades individuais. Ele mover-se-á assim de forma a maximizar essas liberdades, estruturando um estado de direito que permita que cada indivíduo usufrua desse máximo de liberdade possível em sociedade.  Se a um empresário for oferecido dinheiro ou vantagens para que ele se torne num receptor do keynesianismo, ninguém está à espera que ele rejeite, mas um político liberal tem a obrigação moral de manter os desígnios que o trouxeram para a sua condição. Em suma, não colocando a corrupção em equação, os políticos liberais podem e devem manter o seu objectivo de manter a liberdade, mas não se pode esperar que um empresário rejeite legalmente dinheiro ou protecção estatal se esta lhe for vantajosa.

 

Quando observarmos um empresário a votar no partido socialista, não devemos ficar surpreendidos: faz mais sentido do que a célebre confusão que a esquerda faz entre liberais e empresários.

 

 

 


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