O REPLICADOR

Março 26 2010

publicado por Filipe Faria às 19:08

Março 14 2010

 

 

 

Ao assistir ao XXXII congresso do PSD neste fim de semana confirmei o que já sabia: que o partido social democrata é um partido social democrata. Se parece redundância a um incauto, já não o é para muitos que consideram que o partido social democrata pode ser algo mais (ou algo menos) que um partido social democrata. Parece que a imprensa não sabe, mas a social democracia é uma corrente (ligeiramente mais moderada) do socialismo, tal como uma pueril busca na wikipedia documenta:

 

“Social democracy is a political ideology of the political left and centre-left  on the classic political spectrum that emerged from the socialist movement in the late 19th century, but continues to exert influence worldwide.”

 

“The goal of social democracy is to reform capitalism through parliamentary and democratic processes in order to achieve a welfare state, government regulation of the market, and various state sponsored programs to ameliorate and remove the inequities and injustices inflicted by the capitalist market system.”

 

“Social democrats advocate capitalist mixed economies, such as Third way positions and the social market economy.”

 

Em média, a acção e o discurso do PSD em nada fogem destas ideias. Contudo, constato que há uma grande esperança de vários liberais em vários candidatos do PSD, apesar de eu não conseguir objectivamente perceber porquê (com base nos discursos dos candidatos).

 

Encontro liberais que apoiam Paulo Rangel, mesmo quando ele dá um discurso no congresso em que quando tem de dizer “economia de mercado” diz “economia de mercado social”; e mesmo quando tem o apoio de Alberto João Jardim que profere que o PSD não é um partido de direita mas sim um partido que “rejeita os endeusamentos do mercado” (declaração que recebeu uma chuva de aplausos dos membros do partido presentes). O apoiante de Paulo Rangel foi mais longe, disse mesmo que era um keynesiano convicto. Pergunto-me como é que um discurso feito no partido socialista poderia ser muito diferente deste.

 

Outros há que apoiam Pedro Passos Coelho que simplesmente não apresenta ideias. Diz coisas como “há empresas públicas boas e más e há empresas privadas más e boas”, ou seja, a justificar desde já qualquer ausência de rumo nas suas políticas com o “pragmatismo” do costume que termina invariavelmente na social democracia costumeira. Porém, ele é o único candidato que consegue dizer algumas coisas liberais, como quando diz que é preciso parar de tentar resolver todos os problemas indo ao bolso do contribuinte; mas por outro lado defende os funcionário públicos e as suas greves para afrontar Sócrates. Temo que se o liberalismo tem pouca expressão política em Portugal, estes soundbites liberais, que são depois desmascarados por tomadas de posição contrárias, serão prejudiciais para a imagem do liberalismo, basta que a opinião pública tome PPC como um arauto liberal, como alguns comentadores já parecem tomar. Assim, junto da opinião main-stream, certamente que as consequências negativas dos actos de PPC não vão ter a social democracia como culpada mas sim o próprio liberalismo (que, perante estes sinais, dificilmente estará presente).

 

Quanto a Aguiar Branco, limitou-se a dizer que queria unir o partido e a atacar adversários, o que, convenhamos, dá a entender que com ele iríamos ter uma continuidade social democrata clássica.

 

Tal como a Elisabete  Joaquim escreveu, é verdade que não se debateram ideias e todas estas análises se baseiam na forma como os candidatos usaram as palavras e os focos dos seus discursos. Qualquer conclusão tirada de um congresso como este terá de estar baseado na leitura das entrelinhas e, como tal, será fortemente subjectiva. Assim sendo, este fenómeno leva-me a concluir que os apoios dos liberais a estes candidatos se baseiam na esperança de que, se o PSD chegar ao poder, o candidato vencedor irá liberalizar o país sem o dar a entender anteriormente. Infelizmente, apoiar um candidato não devia ser como jogar ao totoloto, muito menos num partido cuja matriz é social democrata, que rejeita ser de direita, que tem um passado estatizante,  e, que (como foi muito aplaudido) “rejeita endeusamentos do mercado”.

 

Esperarei para ver, mas, What are the odds?

 

publicado por Filipe Faria às 20:52

Março 01 2010

O Consenso Português

 

O Insurgente fez 5 anos de existência. Várias personalidades escreveram textos para lembrar esse facto e, naturalmente, para congratular o colectivo. De todos os textos, o que captou mais a minha atenção foi o que foi escrito por José Manuel Fernandes (ex-director do jornal “Público”). JMF lembra como F.A. Hayek foi importante para a vitória ideológica e eleitoral de Margaret Thatcher em 1979, assim como lembrou as vitórias de Thatcher e o seu legado sob forma de “Thatcherism”. Ademais, JMF lembra ainda como o Insurgente tem um papel importante no quebrar do consenso estatista e social-democrata vigente, onde da esquerda à direita, todos acreditam que é o Estado que deve keynesianamente comandar a economia, e consequentemente, a vida dos seus cidadãos.

 

O Consenso Britânico

 

Para os que acham impossível qualquer mudança de paradigma em Portugal, vale a pena analisar o caso britânico. Depois da II guerra mundial, o consenso social-democrata keynesiano chegou a Inglaterra. Até à chegada de Margaret Thatcher em 1979, quer o partido trabalhista, quer o partido conservador, concordaram com o projecto socializante de Clement Attlee, o líder do partido trabalhista que lançou o Welfare State britânico. Esta era do consenso pós guerra britânico culminou com uma economia com crescimento quase nulo, estagflação, desemprego alto, défice público e, por fim, com a intervenção do FMI. Nessa altura a Grã-Bretanha era apelidada de “Sick Man of Europe”. Em seguida, Margaret Thatcher trouxe o liberalismo para o Reino Unido, através do monetarismo de Milton Friedman e da inspiração na fleuma literária de F.A. Hayek. Tudo mudou, o Reino Unido voltou a ser competitivo e ganhou influência no mundo, ajudando, com Ronald Reagan, a demolir o muro de Berlim, declarando triunfantemente a vitalidade da economia de mercado livre. Seguidamente, gerou-se um novo consenso: o new labour de Tony Blair já não era socialista e abraçava com bom grado o legado económico de Margaret Thatcher. O próprio Peter Mandelson, uma das figuras mais importantes do New Labour, declarou: “We are all thatcheristes now”. Talvez tivesse exagerado, o New Labour não era “Thatcherite”, mas tinha certamente deixado de ser socialista.

 

Novo Consenso

 

Durante as felicitações ao aniversariante, muitos alegaram que Portugal precisa de romper o consenso social democrata, destacando o papel positivo do Insurgente neste processo. Na minha óptica, não seria preciso apenas uma Margaret Thatcher, seria preciso um novo consenso onde a direita portuguesa fosse liberal e a esquerda fosse, no mínimo, liberal social, e onde o socialismo fosse uma memória do passado. Nada disto parece real nos tempos que correm; porém, a motivação de elementos como os do Insurgente dão-nos a ilusão de que em Portugal existe de facto debate de ideias fundamentais. Não existe, mas ao perpetuarem a noção de que poderá existir, eles trazem uma visão corajosa e optimista do futuro.

 

Parabéns (atrasados) Insurgente.

 


Dezembro 28 2009

Joseph Stiglitz, prémio nobel da economia, produz uma literatura extensa a advogar que o FMI e as demais instituições de Bretton Woods prejudicam os países em vias de desenvolvimento por estarem comprometidos com ideologias neo-liberais.

 

Neste ensaio abordo o caso de Stiglitz e procuro aferir se as instituições de Bretton Woods são realmente agentes do liberalismo económico ou se, ao contrário do que Stiglitz alega, são iliberais na sua essência.

 

 “O que Stiglitz parece sugerir é que o mundo desenvolvido deve funcionar como “Welfare State” dos países em desenvolvimento, num sistema de redistribuição de riqueza a uma escala internacional, independentemente da ineficiência desse mesmo “Welfare”, ou seja, mesmo que as verbas entregues aos Estados dos países em vias de desenvolvimento sirvam todos os propósitos de “Razão de Estado” menos ajudar a prosperidade económica dos povos.”

 

PS: Obrigado ao Thierry por me ter emprestado o livro "Globalização: A grande desilusão" de Joseph Stiglitz.

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 02:54

Novembro 09 2009

Existe hoje em dia uma aceitação geral da presença do Estado em todos os ramos da sociedade. Se excluirmos os socialismos que não reconhecem o capitalismo como sistema viável, podemos chegar à seguinte conclusão: desde que Keynes lançou a ideia de que a estabilidade económica e a consequente prosperidade dependem do controlo estatal, as pessoas ficaram seduzidas com a ideia de que o Estado pode ser o grande gerador de riqueza. Antes de Keynes, a instabilidade dos mercados era vista como parte da vida económica, e as economias dependiam, em maior ou menor grau, do engenho dos seus povos para progredirem. O keynesianismo tornou-se assim o sonho de qualquer político: poder gastar o dinheiro do contribuinte em larga escala, e desta vez por razões cientificamente nobres.

 

Em larga medida, o keynesianismo não cumpriu a sua função. Este visava o pleno emprego e o estímulo da procura. Porém, pelo menos desde os anos 70 que se verificou que o multiplicador keynesiano gerava desemprego e estagflação a longo prazo (estagnação económica e inflação). Afinal, tal como disse Keynes, a longo prazo estamos todos mortos, mas, curiosamente, parece que ainda existem alguns de nós que estão vivos e a pagar a factura dos excessos de endividamento que advêm das práticas dos seus discípulos.

 

John Maynard Keynes foi um grande economista. Contudo, o maior legado do senhor talvez não tenha sido tanto económico como foi psicológico. Lançou o mito junto dos povos de que o Estado pode intervir a todo o momento desresponsabilizando os cidadãos no processo económico. Sobre esta questão, vale a pena lembrar o que disse Friedrich Hayek: A liberdade é indissociável da responsabilidade pessoal. Concomitantemente, não conheço nenhum sistema de desenvolvimento social que se baseie na desresponsabilização do indivíduo. Da mesma forma, não conheço nenhum sistema minimamente sustentável que, para cumprir os objectivos a que se pressupõe, precisa de hipotecar o futuro das próximas gerações. Cada criança que nasce fá-lo já com uma avultada dívida perante os credores do Estado em que nasceu. Não é difícil de prever uma ruptura com este rumo a médio/longo prazo, resta saber em que direcção. No momento em que essa ruptura chegar, na linha das categorias revolucionárias de Barrington Moore, poderemos assistir a mais uma revolução liberal ou a uma revolução comunista/totalitária ou a uma fascista/autoritária. Match Point! Para que lado cairá a bola quando bater na rede?

 

Entre vários outros, a falta de respeito pela propriedade privada através da redistribuição em massa, os escândalos financeiros com dinheiros públicos, os chips electrónicos (primeiro inseridos nos carros depois na nossa cabeça), os "jobs for the boys", a demagogia dos subsídios, são apenas sinais de algo mais substancial. Nas sociais democracias europeias, a máquina do Estado e os recursos que este consome crescem visivelmente todos os anos sob o pretexto de se precisar de fazer face a crises. Desta forma, insufla tanto ou mais do que uma bolha especulativa e tal como esta última, um dia rebenta, certamente no dia em que as liberdades individuais rebentarem.

 

Estaremos a caminhar lentamente para os cenários totalitários preconizados por Orwell e Huxley? Se estamos, segundo uma lógica evolutiva acredito que essa será uma linha que será inevitavelmente interrompida. O cientista político Giovani Sartori definiu os eleitores como entidades que não agem mas sim que reagem. Similarmente, este consenso que se gerou à volta da social democracia será questionado quando o nível de endividamento e de autonomia pessoal chegar a nível inaceitáveis e fortes clivagens sociais começarem a surgir devido a novas fracturas sociais. Esperemos que quando se assumir em definitivo que o Estado social democrata falhou, as consequências não sejam desastrosas. Por outras palavras, tal como Nassim Talem postulou no seu livro “Black Swan”, que este não seja “Too big to fail”.

 

 

PS: Este texto foi uma resposta ao comentário de Daniel Marques no post do João Rodrigo chamado "A igualdade que fomenta desigualdade".

 

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 16:57

Outubro 29 2009

Nos anos noventa Margaret Thatcher votava a União Europeia à extinção, não por nenhum tipo de má vontade estrutural mas sim pela constante intrusão da crescente burocracia social democrata no mercado de trabalho  e na política económica no geral impedindo o singrar de um modelo económico liberal que conduzisse o continente a um futuro mais próspero e mais livre.


Por essa razão o Reino Unido foi colocando empecilhos  crescente à sua inclusão nesta estrutura, a qual iria dificultar a sua competitividade nos mercados americanos entre outros. A defesa de interesses sectários acompanhou o crescimento da burocracia europeia, duas realidades que se foram reforçando mutuamente.

Entretanto em Singapura Lee Yuan Kew, líder de Singapura, criava uma dinâmica economia de mercado, no Japão Koizumi privatizava as estruturas económicas pausadamente, o que levou a um ressurgimento económico, no Brasil Fernando Henrique Cardoso cortava com a retórica socialista e entregava-se ao crescimento económico.


A Europa no entanto parecia, e parece ainda talvez, imune. Entregue à sua retórica dos “direitos adquiridos” e da “terceira via” não consegue ver que se vota à estagnação da comparação quadrimestral de crescimentos irrisórios. E com isto, faz o pior serviço possível às suas populações. Sem crescimento não pode haver política mítica social.


No entanto nas eleições europeias deste ano existiram mudanças estruturais que trouxeram esperanças ao meu claudicante europeísmo. A esquerda socializante, face à crise económica, pensava que iria finalmente voltar à ribalta. O sistema capitalista estava descredibilizado e tinha-se auto infligido feridas profundas. Enganaram-se nos dois pontos, nem foram as feridas auto infligidas (obrigado Senhor Greenspan), nem descredibilizaram o sistema. Os povos europeus, parece-me, têm perfeita consciência que foi o comércio livre, o acesso ao crédito e o mercado que o trouxeram até à prosperidade que vive hoje. O que é de facto exigido é uma maior transparência e responsabilização económica. Não poderia estar mais de acordo.


As eleições europeias revelaram assim uma derrota esmagadora da retórica socialista, quer nos países onde era governo quer onde era oposição. França, Alemanha, Portugal, Reino Unido e muitos mais viram derrotas pesadas para este rumo maquinista que vinha a ser dado à união. Já terão passado os anos dos timoneiros socialistas na Europa.


A cereja no topo do bolo, e a confirmação desta minha última afirmação foram as eleições na Alemanha. Angela Merkel, das poucas líderes europeias não votadas à mediocridade, conseguiu livrar-se do empecilho do SPD para se juntar aos liberais e por a terceira maior economica do mundo “back on track”. Esta nova realidade poderá ainda ser complementada pela queda definitiva do “New Labour” em Inglaterra. O Bipartidarismo inglês poderá estar em vésperas de se transformar e assim, a grande questão será a França.


Conseguirá a França, pátria do socialismo democrático europeu, acompanhar os ventos de mudança ou persistirá num modelo económico anacrónico que prejudicaram quer a economia, quer a concertação europeia? O aparelho estatal é imenso, os sindicatos irresponsáveis e a estrutura social urbana semi-desfeita. Será preciso muita coragem para esta nação apanhar o comboio mediante o que tem sido a sua acção política tradicional.


Se não o fizer, o bipolarismo franco-alemão pode estar em causa e com ele a própria viabilidade da União Europeia. Agora, o governo Alemão terá muitas mais similaridades com o futuro estado de coisas em Inglaterra o que estimulará uma nova concertação, uma concertação centrada no mercado, no estado social mínimo e na livre iniciativa dos cidadãos primando a presença do estado pela regulação. Terão as instituições europeias a remodelação adequada ou estaremos já perante um pseudo-estado criado pelo socialismo que se auto-defenderá parasitando a sociedade e o futuro europeu? E a França? Acompanha?

publicado por Diogo Santos às 16:50

Outubro 27 2009

Cavaco Silva tirou um doutoramento em York. Na sua especialização, elaborou uma tese sobre o Keynesianismo. Um dos mais altos representantes da chamada “direita” portuguesa é assumidamente um keynesiano social democrata, sou seja, é economicamente de centro esquerda. Quando mais portugueses tirarem doutoramentos sobre o monetarismo de Milton Friedman, ou sobre a “Austrian business cycle theory”,  talvez possamos ter alternativas de direita neste país. Para já, obrigam-nos a votar sempre no mesmo candidato: o do centro esquerda, que em todas as eleições tem pelo menos duas caras, a do PS e do PSD.

 


PS: O espírito está presente nesta frase de Alberto João Jardim: ""aqueles rapazes de Chicago (liberais) têm umas ideias engraçadas, mas quando chega a hora das eleições ainda o velho keynesianismo é que conta."

 

 

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 22:34

Outubro 12 2009

Obama recebeu o prémio Nobel da Paz sem nada fazer para o merecer (quando a sua candidatura para o prémio foi aceite ele tinha acabado de se tornar presidente dos EUA). Bem se sabe, Obama surgiu cheio de promessas da ala mais à esquerda do partido democrata. Os escandinavos, que continuam piamente a acreditar que o futuro do mundo passa necessariamente pela emulação da sua social democracia, não abdicaram da oportunidade reforçar a legitimidade de Obama perante as “mudanças” socializantes que ele pretende implementar.

 

Os senhores da Escandinávia continuam a ver-se com o exemplo de virtude mundial e já fizeram de Obama o seu mandatário. A mensagem é clara: “Obama, nós não percebemos porque não conseguimos exportar condignamente o nosso modelo social para mais lado nenhum, mas tu és cá dos nossos, transforma os EUA numa social democracia idílica como a nossa e depois espalha-a pelo mundo”.

 

Neste momento há dois messias no mundo ocidental: o modelo escandinavo e Obama. Com este Nobel da Paz, sente-se a omnipotência desta união messiânica.

 

 Esta promoção crónica de esquerdismo através de prémios e honras, este prosilitismo, deixaria qualquer trotskista a sentir-se um amador no seu marketing da revolução permanente. Porém, nada disto tinha de ser assim: se em vez de promover esquerdismo a academia sueca promovesse a expansão de loiras escandinavas eu aderia facilmente à causa...

 

publicado por Filipe Faria às 23:20

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