O REPLICADOR

Março 04 2010

Hoje é dia de greve geral da função pública. Querem melhores salários, naturalmente. Ao contrário dos trabalhadores do sector privado, cujos ordenados estão genericamente sujeitos à lei da procura e da oferta e onde a única forma de melhorar a sua condição de vida é serem mais produtivos, os trabalhadores da função pública dependem do protesto e da chantagem para conseguirem melhores vencimentos. A razão é muito simples, o dinheiro que estes grevistas pedem não vem de Marte, vem directamente dos trabalhadores do sector privado, esses mesmos que não se podem dar ao luxo de usar o simples protesto para aumentarem os seus ordenados.

 

Posto isto, dizem-me imediatamente que os trabalhadores da função pública não têm outro remédio senão protestar, visto os seus ordenados dependerem directamente da coerção fiscal sobre os contribuintes do sector privado. Certo. Porém, não creio que tal seja uma fatalidade. Se os trabalhadores da função pública rejeitassem a dependência do Estado não tinham aceitado trabalhar para o Estado; quando o fizeram, sabiam que assinavam a sua “declaração de dependência”. Neste sentido, se ninguém quisesse ser dependente, a máquina de Estado teria muitas dificuldades em crescer desmesuradamente como se tem verificado pelo menos desde o 25 de Abril. Se tal acontece é porque há regalias na função pública que não existem no sector privado. Mas essas regalias pagam-se caro, e esse preço chama-se dependência.

 

Imaginemos que, tal como na obra de Ayn Rand “Atlas Shrugged”, não só os indivíduos mais produtivos da sociedade mas também todo o sector privado entrava em greve como protesto contra a extorsão fiscal abusiva a que estão sujeitos por parte do Estado. Qual seria a reacção da função pública? Mais uma greve a protestar contra o facto de os produtores de riqueza do país estarem de greve?

 

 


Janeiro 12 2010

They both met on that critical night, but they were not alone. Each one of them had a group of allies and diplomats who they called friends; moreover, it was becoming clear that this night would set the beginning of something decisive for the future of both parties. In the same way, like at every crucial moment, weapons were properly prepared before they met. Something similar to a nuclear arsenal had been built for a long time now and it is safe to say that the two of them had some of the most destructive weapons that exist in our contemporary world; still, they were prepared to act as if they were just having a casual meeting, one in which mere details would be discussed. It did not take long for the negotiations to begin. First, they exchanged everlasting smiles. Afterwards, they used their best arguments in order to be convincing. Did they come to an agreement? No, but it is not certain that this possibility actually existed. Obviously, their goal was not to reach an agreement, it was to show each other that they were powerful enough to counter attack in any circumstance. They knew that peace would not come in any sustainable treaty. As a consequence, the only way to have peace — ­and to deal with uncertainty — was to promote the idea of psychological passive-aggressiveness. In other words, without actually expressing it, they said to each other: do not attack me and I will not attack you, because we both know the price to pay.

 

The meeting took place in a neutral area in which neither of them could feel at home. Apart from what they wanted to convey, many more topics were mentioned: politics, culture, art, and even some (apparently) pointless facts about show business. It is safe to say that all the important messages had to be read between the lines. Some call it hypocrisy; yet, when playing the game, most people call it diplomacy. In that room where they stood, nothing was clear, anything could happen, but she was certain that he was someone who could make a difference in her life, while he saw her as someone exciting who made him rethink the concept of love. What love? What does it mean? Would they act on it? Ready or not, they knew what it meant. It meant war.

 

publicado por Filipe Faria às 19:20

Dezembro 25 2009

I wrote for love.
Then I wrote for money.
With someone like me
it's the same thing.

 

- 1975 - Leonard Cohen

 

 

Retirado de "Book of Longing"

 

 

publicado por Filipe Faria às 01:24

Setembro 26 2009

A lista dos 100 melhores livros de não-ficção organizada pela revista americana National Review.

Um excelente guia literário para todos os que não se revêem em ideias socialistas, mas também para os que se revêem...

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 20:23

Setembro 18 2009

 O livro “Lord of the Flies” de William Golding é um clássico da literatura que sempre me fascinou. Documenta a vivência de um grupo de rapazes de bons colégios ingleses que são obrigados a viver numa ilha deserta devido ao despenhamento do avião onde viajavam. Sem adultos na ilha, eles são obrigados a organizarem-se para sobreviverem durante a estadia. Apesar da sua boa educação em Inglaterra, rapidamente perdem a civilidade, e a estadia transforma-se numa luta selvagem por poder e domínio estratégico onde acabam a matar-se por esses fins. Em suma, estes rapazes chegam como “gentlemen” mas terminam como selvagens.

 

 

Assim sendo, trata-se de um tratado da natureza humana não assumido. Lança ainda por terra 2 correntes de pensamento ainda bastante presentes na actualidade:

 

- A do “Bom Selvagem” de Rousseau (onde o homem nasce bom mas a sociedade e as suas desigualdades tornam-no mau) 

 

- A da “Tábua Rasa” (onde se acredita que o homem nasce sem pré-disposições inatas para nada e onde a educação/socialização o constrói por completo).

 

Naturalmente, nem os rapazes eram bons por natureza, nem a alta educação que receberam em Inglaterra impediu que estes se comportassem como selvagens. Toda a narrativa está repleta de alegorias neste sentido.

 

A alegoria que considero mais representativa é a que contempla a personagem Piggy:

 

Piggy era um rapaz obeso, com asma e com problemas de visão que o obrigavam a usar óculos, mas, por outro lado, era também inteligente, racional e civilizado. Ele acaba morto pelos actos selvagens dos outros rapazes enquanto tenta, de forma eloquente, mostrar as vantagens da ordem e da razão. Esta personagem representa a civilização que crê cegamente na Razão recusando-se a olhar para a natureza humana. Desta forma, ele tentou superar as suas insuficiências através da racionalidade argumentativa sem contar com a superioridade física de sobrevivência dos outros elementos. Esqueceu-se que a Razão é parte do homem, não é o homem. Já David Hume defendia que esta é um meio ao serviço das emoções. Em última instância, são os sentimentos que ditam os objectivos humanos.

 

E Piggy não era, como é óbvio, o verdadeiro nome do rapaz. O verdadeiro nome dele ninguém sabe qual é...

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 00:00

Agosto 19 2009

Adoro o Francisco Louçã. Adoro a forma como ele se indigna perante todas as imoralidades presentes na natureza humana. Como ele gosta dos homens, das mulheres, dos gays, das crianças, dos gatos e dos mosquitos. Apenas não gosta dos que lhe fazem oposição política; mas tem toda a razão para o fazer: afinal de contas, ele é o único homem sério no espectro político português.

 

Todos os outros estão na política em prol do seu ego, mas Francisco Louçã não, ele está acima dessas tendências humanas pecaminosas. Louçã não se ama a si mesmo, ama o mundo através de si mesmo. O seu ego é, no máximo dos máximos, um catalizador para esse amor.

 

Ninguém, nem o Papa, ama mais o mundo do que ele; e para o mostrar, em todas as eleições, ele vota no Bloco de Esquerda.

 

publicado por Filipe Faria às 19:44

Agosto 14 2009

Conheci um jovem “Cool”: possuía a graciosidade da simetria formal e a verborreia dos guerreiros contemporâneos. Ele queria pertencer a uma tribo cultural de excelência; como tal, caminhava sobranceiro  acima dos comuns mortais que ele via como presos a uma teia pecaminosa de vícios humanos. Ser retrógrado, dizia, era ser humano na sua forma tradicional. Mormente, dizia-se pós-conceptual. A vanguarda era sua propriedade independentemente do conceito abordado. Por fim, estatuía-se como indivíduo votando no bloco de esquerda: planificação de estado, economia dirigida e, claro está,  igualdade de rendimentos para todos, eram premissas que informavam uma convicção onde a dúvida era mero tradicionalismo arcaico.

Era notório que estava na presença de alguém exigente. Não aceitava produtos culturais contemporâneos pueris que apresentassem escassez de inovação. Como tal, consumia literatura, música, filmes, séries de televisão, humoristas e pop-arte vindos, na sua esmagadora maioria, de países anglo saxónicos que apresentam matrizes economicamente liberais.


 

publicado por Filipe Faria às 01:15

Julho 16 2009

- Então até amanhã ok? – Disse-me o Pedro perto das 11h20. Apressei-me a descer as escadas do metro de Roma, sabia que cada minuto contava. O meu pai continuava estranhamente impaciente que eu chegasse a casa, para mais havia um longo caminho a percorrer. Aquela hora os metros chegam com espaçamento de cerca de 15 minutos, perder um podia significar ter de esperar mais meia hora por um comboio. Passei o passe com celeridade pela entrada e orientei-me facilmente na direcção adequada.

Já na plataforma tratei de tomar consciência do que faria a seguir. Era necessário criar uma desculpa plausível para o atraso. Achei que combinar o “perder um comboio” com umas convenientes obras atrasadas na linha seria o mais adequado para um percalço de cerca de 50 minutos. Alegadamente tinha de estar à meia-noite em casa. Esta hora pode talvez parecer ridícula. Porém o facto é que os meus problemas vestibulares têm estado a fazer-se sentir com mais intensidade ultimamente, realidade acentuada pelo cansaço causado pelos exames.

Estava assim eu à espera do metro, procurando analisar o quão mal me encontrava. Tinha estado algum tempo à frente do computador o que também não era abonatório para a minha situação. Parei, e senti o cenário inclinar-se ligeiramente. Para a esquerda, e depois para a direita. Não era nada a que já não estivesse habituado. Sentei-me então num dos bancos, recostando-me na parede. Tinha deixado todos os meus livros em casa do Pedro, não tinha mala e não me apetecia carregar durante mais de uma hora pela rede de transportes públicos numerosos calhamaços. Comigo trazia simplesmente a minha bolsa, que faz vezes de carteira, e um livro de Haruki Murakami, o “South of the Border, West of the Sun”, baptizado com o nome da famosa música de Nat King Cole.

Já havia bastante tempo que não pegava num livro destes, ultimamente parecia que só via partidos políticos à frente. A descrição pausada da existência de uma cidade de província japonesa executada na perfeição por Murakami contrastava absolutamente com o encadear sucessivo das tipologias de partido. Não me encontrando tão abalado quanto isso decidi arriscar ler, sem tomar consciência do quão esotérico era mergulhar num tal livro.
Quando o metro chegou estava já imerso no livro, com relativamente poucas pessoas no interior do mesmo sentei-me distraidamente num banco e deixei-me levar. Faltavam numerosas estações para chegar à baixa e podia estar à vontade. Vagarosamente a própria carruagem foi-se tornando num fundo baço. Em primeiro plano apareciam campos de arroz, depois um comboio veloz. Após a sua chegada contemplei calmamente um bar de jazz nas ruas de Aoyama, percorrido por estes e aqueles. O protagonista, que até tinha um pouco a ver comigo, enlaçou-me na sua perspectiva de forma semi-definitva e assim, acompanhei-o no seu crescendo como personagem.

Quando ouvi a voz, difusa certamente, a anunciar a chegada à Baixa-Chiado não acordei do meu transe, simplesmente dei forma ao acto mecânico de mudar de linha, algo que já fiz seguramente umas boas centenas de vezes. Saí, desloquei-me em frente para esperar pelo próximo metro, isto sem tirar os olhos do livro. Agora estava a ouvir a chuva a bater nas ruas incansáveis de Shibuya, os pequenos cafés e as nuances de uma tarde em Tokyo ocupavam a minha imaginação. Começava a sentir saudades. Saudades do chão limpo, das pessoas bem cuidadas e corteses, dos edifícios infindáveis e da luz da noite.

Dei por mim a suspirar ligeiramente, já a caminho da estação do Rossio fui obrigado a sair daquele mundo. Fi-lo sem problemas, a minha memória serviu de ponte. Encostei-me assim aos limites das escadas rolantes deixando-as levarem-me vagarosamente até ao meu destino. Sabia que, apesar do desconforto físico que sentia, poderia voltar para o livro dentro de pouco tempo. Olhei para o relógio, tinha doze minutos até ao comboio. A estação estava ainda com pouco movimento, banhada pela quietude da noite. Tendo consciência que a situação cedo mudaria, aproveitei para caminhar um pouco pela calçada. Pus o livro debaixo do braço e ocupei-me a ouvir os meus próprios espaços contemplando a nobreza daquele local.

O comboio pouca gente tinha dentro, e dei por mim numa carruagem praticamente sozinho. Abri então de novo a obra de Murakami e encontrei-me mais uma vez no meu já conhecido bar de jazz em Aoyama. Mais uma vez o cenário esbateu-se e eu só conseguia ouvir a música que vinha do livro. Imaginava as paredes escuras, mas com classe, do local, os cocktails criativos e mais, as pessoas que os bebiam. Os dois personagens principais haviam-se encontrado passado alguns meses. Sentia-se alguma coisa de especial na já por si atmosfera única do bar. As mãos finas da personagem feminina acendiam um cigarro, olhando de forma sincera mas contida nos olhos do seu equivalente masculino. Ela pedia-lhe que ele a levasse a um certo rio, o rio no qual ela destilaria a sua existência. Desafiava-o a percorrer talvez o seu ser e a perceber o que significou o tempo em que estiveram separados. Ele, ponderando a situação, estava entre a sua vida agora estável e a memória de uma juventude nostálgica e até sonhada…

De repente senti-me puxado como num vórtice. Tudo desapareceu num dramático instante. Ao suspense sublime, às palavras ténues e pensadas, aos mundos feitos e refeitos daquele pequeno imaginário substituíram-se guinchos atrozes. O livro continuava nas minhas mãos, no entanto uma distância estridente para o mesmo havia nascido de forma bárbara. Quatro “indivíduos” vestidos de forma folclórica tinham entrado no comboio. Gritavam em plenos pulmões no seu dialecto, como se eu tivesse que ouvir uma qualquer verdade universal. A estes primeiros juntou-se um grupo de turistas da América latina, um deles com a cliché T-shirt do guerrilheiro/assassino Cheguevara (está mal escrito propositadamente já agora). Estes dando também azo aos seus dotes vocais. Tudo parecia um enorme zoológico, em que o barulho pouco civilizado daquelas pessoas se misturava livremente e impedia qualquer desfrutar mais cível. Fui forçado a consciencializar-me de tudo. Tinha umas boas doze paragens até casa, as quais seriam acompanhadas da berraria animalesca já referida. Como se não bastasse tinha de estar permanentemente a vigiar as minhas posses, não fosse algum xunga que por ali passasse achar-me “factor de diferenciação social” e executasse o subsequente processo de igualitarização económica. Da descrição da cidade de Kanazawa, com a sua beleza natural e solenes templos e castelos, tinha sido arrastado para um subúrbio lisboeta. Moldado à martelada pelo nosso tão omnipotente Estado, cioso do “bem comum”.

Lembrei-me de onde estava. Não, não era Aoyama, muito menos Kanazawa. Os meus olhos só viam vandalismo, decadência e discricionariedade. Uma atmosfera na qual a lei está em cheque a priori. Quando cheguei a Mem-Martins olhei rapidamente para o que me rodeava. Tinha de ser rápido a descer as escadas da estação não fosse “haver azar”, daí até casa ia pelo caminho mais longo. Era o mais seguro, já que nas ruas não existe nem comunidade, nem estado, nem nada convém procurar a via menos anárquica.

Os escritos desafiando a polícia e honrando o assalto e a destruição seguiam-se pelos muros podres. Nem o ar da noite conseguia aliviar aquele cheiro decadente a lixo humano que me perseguia, contra o qual o Estado não quer fazer nada. É preciso vergar, claro, o cidadão trabalhador, o estudante, o idoso àqueles que nada mais fazem do que persegui-los e parasitar a sua existência. A utopia e a demagogia fazem assim vítimas diariamente. E o Estado contínua alegremente a falar de multiculturalismo e de redistribuição de rendimentos. Palavras que soam sempre bonitas nos dias de hoje. Agora dar de quem a quem é que é uma questão que convém especificar menos. Não vá o povo perceber que se podia dar melhor qualidade de vida a um velhote no interior se se parasse de subsidiar as navalhas com que nos roubam.

Nos histerismos programáticos aos quais vamos assistindo esquecemo-nos por vezes das liberdades mais básicas. A de ler um livro pacificamente num comboio, a de poder andar na rua sem olhar as sombras, a de poder deixar os nossos filhos nas escolas sem medo, a de ver o nosso espaço privado respeitado.

E agora que penso nisso, todo aquele chinfrim parecia-me bastante consequente com a verborreia odiosa do senhor Louçã. Quanto a mim? Prefiro Kanazawa.

 

publicado por Diogo Santos às 03:04

Política, Filosofia, Ciência e Observações Descategorizadas
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