O REPLICADOR

Agosto 03 2011

Em primeiro lugar gostava de lamentar o pouco movimento que o Replicador experienciou nos últimos tempos. Adiante para o importante.


Pairam campanhas pelo ar para “dar sangue”. O slogan do regime mais habitual é, “dê sangue ou não haverá o suficiente para si quando precisar”. Os paladinos do mesmo regime chamam-lhe “uma prova de altruísmo, apenas superada pelos dadores de medula”, os cépticos dizem “tácticas de medo”. Aí os paladinos dizem que os meios justificam os fins. Os cépticos vão-se embora e a conversa acaba. Pretendo advogar a introdução do mercado no negócio do sangue.

 

O sangue é um bem escasso, simplificando, na sua forma utilizável (saquinhos habitualmente de 500 ml) não existe o suficiente para todas as pessoas disporem à vontade deste recurso. O que o sistema de saúde do regime fez foi aplicar regras em que só a partir de um certo nível de necessidade é que o utente do sistema nacional de doença tem direito a que lhe façam uma transfusão. Do lado da produção dos saquinhos, aposta-se na boa vontade das pessoas. Afinal de contas produzir sangue é muito fácil, basta comer e ser saudável, geralmente uma boa parte da população preenche estes pré-requisitos sem sequer trabalhar conscientemente para isso. Uns minutos no banco de sangue e já está, por vezes até oferecem bolos ou, como nos EUA, cerveja, como bonificação por ser bom samaritano.

 

E ficam todos de olhos arregalados quando não há gente suficiente a dar sangue. Que egoístas… é preciso ter vergonha!

 

Vamos fazer agora um exercício e pensar noutro bem escasso: batatas. As batatas são muito simples de produzir. Basta um terreno com um mínimo de manutenção e produzem-se batatas. Deixemos então os senhores do regime ir buscá-las às várias propriedades por Portugal para colmatar uma necessidade que é uma praga ainda maior que a do sangue – a necessidade permanente de nos alimentarmos.

Qualquer um acha este exemplo acima descabido, mas quais são as verdadeiras diferenças do caso do sangue? É verdade que a batata exige algum trabalho, plantar, mas o sangue também, exige boa alimentação e ainda por cima exige irmos ao banco de sangue que não é omnipresente. Também no caso do sangue temos um inconveniente em darmos o nosso, a perda de hemoglobina é indiferente para as actividades do dia-a-dia mas certamente um ciclista ou um maratonista recusam-se (estes chegam a treinar em grandes altitudes de modo a que o corpo a produza em maior quantidade). Chegamos à conclusão que o nosso sangue é útil e quando o damos saímos momentaneamente prejudicados.

 

Mas agora no caso contrário, apliquemos o mercado ao líquido vermelho que todos querem. Se o sangue fosse pago, seríamos compensados por dá-lo, é verdade que não podemos ganhar a maratona mas talvez ajude na prestação da casa. Como as batatas, há uma vantagem na facilidade da produção de sangue, quanto mais pessoas se fossem oferecer para dar sangue, mais cairia o preço, pelo menos enquanto não se assinar na EU uma política de sangue comum. A questão da qualidade já hoje é assegurada com vários testes, não há necessidade de pensar nela, a não ser pelo número de amostras que se teria, muito maior, de modo a que os padrões podiam até subir.

Do lado do consumidor, este tem mais sangue e de melhor qualidade, por um preço, claro. Mas ele pode ter dado sangue anteriormente, logo pode pagar com o que poupou. O resultado seria na pior das opções nulo e na melhor, uma vantagem económica.

 

As objecções:

O sangue não deve ser pago porque é desumano/não custa nada/não é eticamente correcto. É uma necessidade, como há a necessidade de penicilina, anti-hipertensores ou proteínas. A economia baseia-se em interacções para colmatar as necessidades de todos, inicialmente as mais básicas e evoluindo para as mais fúteis como iPads ou anéis que brilham na discoteca. A caridade é bonita mas em todos os casos beneficia de um mercado que aumente os recursos, facilitando a primeira. Era mais bonito que cada um ajudasse o próximo apenas porque sim mas por alguma razão não foi assim que evoluímos.

Os pobres vão deixar de ter acesso. Não necessariamente, por duas razões: mercado não exclui caridade (até ajuda por baixar os preços e aumentar a quantidade de bens disponíveis) e, tal como o regime gosta de subsidiar medicamentos, também pode subsidiar o sangue, taxando mais o contribuinte e dizendo que é “para o bem maior”, “para o desenvolvimento”, “pela saúde pública”, ou outro slogan que as agências de marketing possam pensar.

 

Não me tomo por um homem burro nem como o génio que vai revolucionar a história. Mas uma análise baseada no mercado livre do problema da escassez do sangue leva a estas conclusões e não é preciso muito para lá chegar nem para ver as vantagens.

Num país que não impusesse restrições éticas quanto à propriedade do corpo esta questão não se punha, as pessoas vendiam e o estado não tinha nada a ver com o assunto. Para os grandes órgãos como corações ou fígados não é linear que a escassez gritante fosse resolvida mas pelo menos no caso do sangue, tão fácil de transformar em bem de consumo e com matéria-prima tão abundante, a solução passar pelo mercado é tão óbvia que só os fundamentalistas religiosos e os socialistas é que são capazes de a ignorar.

publicado por João Rodrigo às 20:38

Junho 30 2011


 

“Credit expansion can bring about a temporary boom. But such a fictitious prosperity must end in a general depression of trade, a slump.” – Ludwig Von Mises

 

            Dentro das teorias explicativas do ciclo económico tem vindo a sobressair uma estrela ascendente, a teoria do ciclo económico austríaco. Primeiramente estatuída por Ludwig Von Mises[1] nos primórdios do século XX, esta teoria tem vindo a ser trabalhada pelos grandes nomes da escola tais como o prémio Nobel Friedrich Hayek[2],  Murray Rothbard[3] e, mais recentemente, o académico espanhol Huerta de Soto[4].

 

            Perante as crescentes dúvidas quanto às capacidades dos bancos centrais, nomeadamente a reserva federal, serem capazes de prever, processar e resolver as crises sistémicas esta construção teórica tem vindo a aumentar de importância na interpretação do fenómeno dos ciclos económicos. Não só o número de publicações associadas à mesma tem aumentado, sendo de frisar o best seller do New York Times “Meltdown”, como a atenção pública a esta abordagem tornou-se mais notória.

 

           Os membros mais proeminentes da escola austríaca como Thomas Woods e Robert Murphy, membros do Mises Institute, têm assim embarcado em discussões com economistas neo-keynesianos proeminentes, nomeadamente Paul Krugman, sobre a interpretação dos acontecimentos da crise actual.

 

            A perspectiva austríaca trata a questão como uma dinâmica criada pela extensão do crédito através de criação de moeda bancária, empréstimos dos bancos centrais ou taxas de juro artificialmente baixas. Basicamente qualquer medida que incremente a quantidade de dinheiro fiduciário disponível para crédito. A tese de que os ciclos são “naturais” ao capitalismo é rapidamente descartada. Os economistas da escola austríaca consideram que sendo o capitalismo um processo permanente de selecção, através da competição, dos actores económicos uma falha sistémica é altamente improvável. É como se os melhores  médicos deste mundo falhassem todos as operações no mesmo ano. Consequentemente centram-se nas distorções na informação económica como base explicativa.

 

            O processo começa, como referi, com a inserção de “dinheiro novo” nos bancos, através da acção do respectivo banco central. Isto afecta primeiramente as taxas de juro que, para os austríacos, são uma variável dependente, não independente. A taxa de juro, considerações por parte dos empreendedores quanto a cada empréstimo específico à parte, corresponde à diferença na valorização dos bens presentes contra os bens futuros por parte dos agentes económicos.

 

            Se queremos consumir mais prontamente, restringimos as nossas poupanças, aumentamos a compra de bens de consumo e, consequentemente, o capital para empréstimo começa a escassear, o que causa um aumento das taxas de juro. Isso, e o aumento do consumo, sinaliza aos empreendedores que devem apostar em empreendimentos a curto prazo, menos custosos e, provavelmente, menos produtivos; que estão mais perto, temporalmente, da fase de consumo. O que interessa, perante a alta do consumo, é por os bens no mercado, não produzir ou comprar bens de capital. Processos mais demorados que poderiam incluir, por exemplo, nova maquinaria, novos espaços, treino de pessoal etc, são descartados pois os fundos escasseiam.

 

           Por outro lado, se restringimos as nossas compras e pouparmos mais, baixam os preços dos bens de consumo, durando mais tempo o nosso stock disponível. Isto aumenta os fundos para empréstimo e, por isso, as taxas de juro baixam e a procura de bens de capital aumenta. A baixa nos preços dos bens de consumo resultam assim numa transferência de factores de produção para a produção de bens de capital. O facto de estarem mais fundos disponíveis dá margem de manobra aos empreendedores para investirem em processos mais produtivos e custosos, muitos deles mais afastados temporalmente do consumo, por exemplo a produção de bens de capital, matérias primas, automóveis ou imóveis.

 

            Estas orientações têm em conta as preferências do consumidor, uma sociedade que poupa mais terá mais recursos no futuro, pois o seu PIB potencial aumenta mais rapidamente. Os consumidores têm os recursos postos de parte para comprar estes bens mais caros, porque assim orientaram as suas preferências entre o passado e o futuro. Se somos mais “consumistas” a curto prazo, a economia desenvolve-se menos, derivado de menos fundos disponíveis para investimento, logo os processos de produção não são genericamente tão complexos, centram-se em bens menos dependentes de largos investimentos e, por isso, o factor capital não se vê tão desenvolvido, significando um PIB potencial mais baixo.

            Quando esta complexa instituição da economia de mercado se vê alterada pelo Estado todo este processo se descoordena tendo consequências graves para a estrutura económica. Estas consequências têm de ver com a não neutralidade do dinheiro, ou seja, os acrescentos à massa monetária têm canais de entrada na economia específicos e, logo, não afectam todos os preços ao mesmo tempo. Se a afectação se desse simultaneamente não existiria um boom para começar.

 

            Basicamente, a baixa nas taxas de juro inicia o mesmo processo que um aumento na poupança e, no entanto, não se dando uma baixa no consumo não liberta os recursos dedicados à produção de bens de consumo presentes para os novos investimentos. Os preços, derivados da expansão monetária, ficam distorcidos e a produção torna-se cada vez menos dependente do consumidor e mais da irresponsável abundância de capital, criando uma estrutura artificial. Investimentos que a uma taxa de juro definida pelo mercado não seriam executados são prontamente iniciados, e a economia entra numa fase de expansão.

 

            Toda a gente pede mais dinheiro emprestado, o crédito para empresários e consumidores alarga-se e existe um optimismo florescente com as altas de preço. Os salários aumentam perante a pressão dos investimentos, arrastando os bens de consumo, que acompanham a alta. Isto adicionado à expansão creditícia vai significar que a produção de bens de capital vai escassear, concentrando-se os disponíveis à volta da bolha emergente, daí os usos valorizados pelos consumidores sofrerem. Os preços dos bens de consumo, sobre pressão da procura acrescida,  não permitem a criação de bens de capital suficientes para a expansão exponencial do investimento.

 

            Existem dois fins possíveis para este processo, ou entramos num processo hiperinflacionário no qual as poupanças se vêm convertidas em bens e a moeda perde qualquer valor, ou, a determinado ponto, existe uma contracção no crédito disponível que causa o fim da torrente e rebenta a bolha que entretanto se criou. Os empresários, quando começaram os seus investimentos, tomaram em conta os preços aos quais estavam habituados e calcularam os seus empreendimentos com base nos mesmos. Quando os preços dos factores de produção começam a subir haverá, certamente, algum desconforto mas como os preços dos bens de consumo continuam a aumentar o mesmo é descartado. O que é um investimento sustentável ou não é indiscernível. Todos, devido às leis da concorrência, se sentem impelidos a investir sob pena de os seus competidores levarem a melhor. Tristemente, sem as poupanças adequadas é impossível criar os meios para garantir a rentabilidade da maior parte dos investimentos executados. Quando a taxa de juro finalmente sobe a escassez real é revelada, e enquanto aqueles que colectaram os seus lucros ficaram a ganhar, os outros, ainda longe da rentabilização dos seus investimentos, ficam sem os fundos necessários e uma crise instala-se.  Não havia, simplesmente, recursos para completar os projectos aos níveis de preço previstos.

 

            Quando se dá este choque temos uma economia estruturada à volta de uma bolha (em 2008 devido aos encorajamentos institucionais foi imobiliária) na qual recursos escassos foram desperdiçados repetidamente resultando na perda de capital não convertível e entregando o tecido económico a um profundo reajustamento. A não utilização de recursos durante esta fase de reestruturação resulta, obviamente, numa redução da qualidade de vida. Novas poupanças terão de ser criadas para compensar o capital destruído e os cidadãos, perdidos no caos, sofrerão economicamente com as mudanças no mercado laboral. Toda a riqueza aparente se destroça.

 

            A reacção do Estado perante esta realidade é, normalmente, a menos apropriada. Tenta reparar os estragos derivados das baixas taxas de juro… com taxas de juro ainda mais baixas. Os bancos envolvidos em investimentos demasiado arriscados são resgatados pelo governo, criando uma lógica de irresponsabilidade. Pedidos de resgate aos quais se seguem os de muitas mais indústrias, apanhadas na reconversão. Assim, os usos não produtivos de recursos são sustentados pelo contribuinte em nome da ameaça do risco sistémico, mais, são usados para manter uma estrutura económica pouco apropriada aos seus desejos. Os empreendimentos que são viáveis vêm-se privados de recursos atrasando a recuperação e as “empresas zombie” mantêm um enorme peso morto sobre a economia.

 

            A herança com a qual ficamos é “mais regulação”, significando provavelmente empecilhos desnecessários ao mercado livre, uma dívida crescente, e uma classe empreendedora irresponsável e dependente do Estado, o qual subverte permanentemente o saudável funcionamento da economia. Já para não esquecer, a nova bolha, vicissitude da solução apresentada ao problema. Tal como a bolha dot com deu o ónus à criação da bolha imobiliária, esta bolha, se não mudarmos de políticas, dará origem a uma outra. Com consequências cumulativas para o bem estar humano, representando crises económicas e sociais cada vez mais insustentáveis.

 

            A principal solução a tomar para não repetir os erros do passado é, como refere o congressista Ron Paul, candidato libertário às primárias republicanas, parar com a artificialização das taxas de juro e com os incentivos políticos na economia. A melhor maneira de garantir uma acumulação de capital crescente e logo uma economia mais rica e eficiente remete para poupanças e preços de mercado reais, garantidos por uma massa monetária estável.



[1] Ludwig Von Mises (1881-1973) foi o principal responsável pela revitalização da escola austríaca de economia após o advento do Keynesianismo. No que toca ao tratamento da temática dos ciclos económicos é necessário referir as seguintes obras: “The Theory of Money and Credit” (1912), no qual inicia a teorização, e a sua obra prima “Human Action: A Treatise on Economics” (1949) onde apresenta uma versão mais sucinta, madura e enquadrada da sua teoria.

[2] Friedrich Hayek (1899-1992) foi prémio Nobel da economia. Produziu um vário espólio de escritos sobre filosofia política, economia política e teoria económica. A sua principal obra é o livro “Road to Serfdoom”, uma fantástica obra que relaciona o estatismo e o atacar das liberdades económicas como caminho para o fim das liberdades civis.

[3] Murray Rothbard (1926-1995) foi um autor e economista da escola austríaca e o fundador do anarco-capitalismo moderno. Seguindo os passos do seu mentor Ludwig Von Mises, um utilitarista, chegou a conclusões bastante diferentes, defendendo a existência de uma lei natural.

[4] Huerta de Soto (1956-) é professor catedrático de economia na Universidade Juan Carlos I em Madrid, colaborador do Mises Institute e da Mont Pelerin Society. É um dos principais expoentes europeus da escola austríaca de economia.

publicado por Diogo Santos às 04:18

Junho 02 2011

Escrevo este texto de forma a ser uma referência para todos aqueles que ainda me apoquentam com ideias de que a crise económica foi causada pelas políticas neoliberais. Espero no futuro poder enviar para aqui todos os que violarem algum dos sacramentos abaixo expostos. Não é uma exposição extensa de todos os argumentos errados que são ditos no dia-a-dia corrente nem mesmo uma explicação integra da escola austríaca para a crise que culminou em 2008 pela primeira vez (porque a bolha continua e há de voltar a rebentar).

 

1-      O que são os neoliberais?

Eu também não sei esta resposta e não há hipótese de ser esclarecido entretanto. Neoliberal é o termo dado à pessoa que promove o crescimento do sector bancário em detrimento do cidadão. É aquele que renega os interesses do indivíduo para os pôr no “mercado”, mercado esse que é constituído pela soma sinérgica da ganância de cada empresário.

Claro que liberal não é nada disto. Um liberal deseja acima de tudo a liberdade do indivíduo, tanto quanto a responsabilidade pelas suas acções e o seu direito à propriedade e inviolação desta. Isto é válido falemos do homem mais pobre do mundo ou do George Soros.

Para motivos de facilitação do discurso tomemos os liberais clássicos (como eu) por neoliberais, ou seja, faça-se essa confusão com o intuito de dar um mínimo de validade aos argumentos bacocos habituais.

 

2-      A culpa da crise é dos neoliberais!

Não e a razão é muito simples: os neoliberais não estavam lá sequer. Há duas versões habituais que apontam as culpas, ou para a reserva federal (como o caso de Krugman) ou para os banqueiros e especuladores (o caso dos políticos e cineastas).

No caso da reserva federal, a resposta para que a culpa não seja nossa é muito simples: não há um liberal que apoie a existência da reserva federal. A FED é um órgão com capacidade de emitir moeda (os liberais apoiam o ouro como moeda, não havendo nunca possibilidade de emitir ouro a partir do ar) e de emprestar essa moeda fiduciária a taxas de juro que pode alterar a seu prazer. Para um liberal, isso é inadmissível. A moeda tem que ser sempre acoplada a produção e sofrer alterações mínimas e esperáveis. No caso do dólar, euro e afins, cada vez que é imprimida mais uma nota esta vai diluir o valor de todas as outras, aumentando os preços. Mas quem recebe a nota primeiro ainda compra com os preços antigos. Isto prejudica tanto os empresários que não têm uma plataforma estável para calcular as despesas reais quanto as pessoas sujeitas a ordenados fixos (como os idosos na reforma) que passam a poder comprar menos com o rendimento fixo que têm.

No caso dos banqueiros e especuladores, este dedo difama os empréstimos maus que foram feitos, os chamados sub-prime, e que depois minaram todo o sistema. Os empréstimos sub-prime foram feitos em primeiro lugar porque a FED baixou a taxa de juro o suficiente para não haver risco para os bancos se meterem nestas aventuras. O governo americano chegou mesmo a encorajar os bancos a emprestar àqueles que não podiam pagar. Esses empréstimos sub-prime, tanto de bancos como de fundos de investimento, foram agregados e cortados e vários pacotes, os pacotes dos que recebiam primeiro e os pacotes dos que recebiam por último. Esses pacotes receberam classificações diferentes pelas agências de rating e assim os fundos de reforma e outros fundos mais conservadores que se preocupam principalmente com a segurança dos investimentos, seguiram a opinião das agências e compraram os primeiros, que tinham classificação AAA. Estamos a falar de empréstimos de pessoas que não tinham capacidade de pagar mas que ainda assim conseguiram a melhor classificação.

Obviamente que isto tinha que falhar. A culpa foi de quem? Dos especuladores? E que tal da reserva federal e das agências de rating? E as agências de rating não são sequer empresas privadas inquestionáveis, existe uma profunda intimidade entre estas e o governo americano, já que são mencionadas em leis que as tornam tanto imprescindíveis como insubstituíveis.

 

3-      A culpa é das agências de rating que “davam AAA a todos os títulos manhosos de hipotecas e imobiliário que alimentaram a bolha de especulação nos EUA, porque era isso que a grande finança queria, para ganhar mais e distribuir mais dividendos”.

Sim, não, por onde hei-de começar? A grande finança não existe, existem accionistas. E os accionistas não gostam de perder dinheiro. As agências de rating respondem ao governo dos EUA, não aos accionistas das empresas. E estes últimos fizeram o que fizeram (emprestar a torto e a direito) porque a outra hipótese era continuar a ver a FED a imprimir dinheiro enquanto eles ficavam de fora a ver os seus rendimentos a serem desvalorizados por decreto. As taxas de juro baixíssimas da FED significaram que quem “fosse no barco” teria altíssimos lucros e quem não fosse veria prejuízo pela desvalorização de capital. Assim a escolha foi muito fácil.

 

4-      A solução é gastar mais e salvar as estruturas (bailout)!

Não, obviamente que não. Graças a todos os empréstimos de dinheiro inexistente, existem muitos factores de produção que estão mal alocados, isto é, que não suprem uma necessidade dos consumidores. Estes investimentos têm que cair para que os seus factores sejam libertados para os investimentos que satisfaçam as necessidades das pessoas. E os bens têm que ser reequilibrados, isto é, os preços têm que ser reavaliados consoante a verdadeira procura e não a procura fruto do “expansionismo” da FED. Só quando os bens estiverem devidamente alocados e os preços reajustados à realidade económica actual se pode dizer que a economia tenha resumido a sua funcionalidade normal.

Gastar mais dinheiro significa perpetuar o desajuste, o mesmo são os bailouts. O desajuste entre o consumo e a produção mantem-se, os factores de produção estão mal alocados e a dívida destes países keynesianos e monetaristas tende a subir. O buraco continua-se a cavar até as pessoas se aperceberem. E na mesma comparação, quanto mais cedo se parar de cavar e começar a sair do buraco, melhor.

 

5-      A solução da crise é regular os mercados para que tal não aconteça!

É proibido copiar música e todos o fazem. Era proibido o aborto e também se abortava. É proibido roubar e há assaltos todos os dias, em Portugal a maioria nunca chega a tribunal. As regulações não funcionam e aumentam o gasto de recursos, quanto mais não seja em fiscalização. E foram por exemplo as regulações dos bancos impostas nos EUA que deram a origem aos fundos de investimento, pelo Krugman chamadas de “Instituições bancárias sombra”. Estas caiam fora da regulamentação e faziam o que queriam.

Além de que as regulações são feitas por políticos que a) não antevêem as necessidades futuras de mercado porque ninguém consegue; b) são tendenciosos para as empresas já instaladas, impedindo novas empresas de se juntarem e efectivamente criando monopólios; c) são ou têm capacidade ou tendência para serem corruptos.

Quando foi a última vez que mandaram um papel para o chão apesar de ser proibido?

 

6-      A dívida externa é um facto e a culpa dela aumentar é das agências de rating!

Como disse em 2, as agências de rating têm os seus problemas de falta de isolamento, têm uma ligação demasiado acentuada com os governos para se acreditar nelas. Mas a verdade é que muitos bacocos acreditam e como tal os outros também têm que estar à escuta para poderem antever as tendências de mercado.

A dívida externa é um facto mas não devia ser. Não faz o mínimo sentido um governo ter o poder de endividar os habitantes do seu país, exceptuando talvez um caso de calamidade nacional. Porquê? Esqueçamos a obrigação moral de não pedir dinheiro emprestado pelos outros e voltemo-nos para a conspurcação política que essa capacidade produz. Um governo de 4 anos tem todo o incentivo em pedir dinheiro emprestado enquanto pode para “mostrar obra”. Finda a governação vêm os impostos decorrentes do pagamento da dívida e esse antigo governo pode agora culpar o novo pela descida na qualidade de vida. Foi isto o que se passou em Portugal, durante anos se viveu acima das capacidades, endividando os trabalhadores futuros. Não se aceitaram os problemas da crise de 2008, apenas se cresceu a dívida com a fé de que se saltássemos esse período que tudo estaria bem. Não está, obviamente, porque continuamos com os problemas estruturais e agora somados a uma dívida que entre sector público e empresas públicas ascende a mais de 125% do PIB.

Espera-se que um país pague mais do que o que produz num ano? Se neste momento deixássemos de comer e gastar qualquer dinheiro apenas para mandar tudo para fora e pagar as dívidas, nem em Setembro de 2012 estávamos safos. As agências de rating mantiveram o nosso rating alto demasiado tempo. Neste momento, com toda a perda de credibilidade, vêem-se forçadas a baixar os ratings finalmente. Independentemente de as agências terem feito bem ou mal, a culpa da dívida é sempre nossa por termos pedido emprestado demasiado e durante demasiado tempo.

 

7-      Deixar os mercados â mercê vai levar a desemprego massivo!

Sim, momentâneo. Mas vai libertar esses desempregados e os recursos mal usados da empresa onde trabalhavam para que outras possam pegar neles. Estes novos empregados podem produzir algo de interesse e efectivamente aumentar a qualidade de vida geral. Perceba-se que emprego arranja-se facilmente, podemos pôr metade dos desempregados a cavar um buraco e a outra metade a tapá-lo. O problema é que a sociedade não fica mais rica por isso, fica mais pobre na medida em que os trabalhadores estão a gastar energia para nada. Por curiosidade, lembremo-nos da diferença entre a crise económica de 1920 que durou 1 ano sem o estado fazer nada e a crise de 1930 que, com intervenção estatal, se arrastou até…bem, até à 2ª guerra, não?

 

8-      Mas e os pobres?

Lembremo-nos do ónus que é a pobreza neste país. Decerto que um verdadeiro pobre prefere estar a ganhar menos que o salário mínimo e trabalhar para fazer a sociedade melhor e mais produtiva do que estar desempregado porque nenhum empregador tem trabalho que lhe possa oferecer que não dê prejuízo se lhe pagar o salário mínimo (mais subsídios de férias, natal, saúde, e todas as outras obrigações). Se continuarmos a política de redistribuição, minando todo o tecido produtivo, os pobres serão todos os que não têm cunhas no estado.

 

9-      E os direitos de Abril?

Nenhum direito é mais importante que o direito à liberdade e propriedade. Ponto final. Os direitos de Abril são invenções do socialismo que para ganharem o favor da maioria da população, concordam em expropriar os ricos, ou seja aqueles que por proporcionarem às pessoas aquilo que elas queriam conseguiram acumular riqueza, para dar aos pobres sem qualquer discriminação meritocrática. A igualdade de Abril não é igualdade de direitos, é igualdade de resultados.

 

 


Maio 21 2011

 

 

 

Qual é o problema do liberalismo? Todos os liberais sabem qual é, todos conjecturam sobre a solução mas muito poucos fazem algo por isso.

 

Na língua inglesa roubaram-nos a palavra liberal. Hoje quem vai a uma livraria pode comprar “a consciência de um liberal” por Paul Krugman e, com um pouco de sorte, percebe que não era nada daquilo que procurava. Nos EUA os liberais são os democratas, aqueles que promovem educação gratuita e saúde gratuita, ou pelo menos é assim que os americanos compram as palavras porque esses serviços saem à custa do empobrecimento geral (não falo estatisticamente, tanto os ricos empobrecem quanto os pobres). O liberal, dito libertário, está dentro do partido republicano, onde o chamam de conservador e o confundem, como seria de esperar, com senhores anafados veteranos de guerra, católicos ou derivados, que não querem direitos para ninguém que não se transforme numa lagosta no verão.

 

Mas não há problema, arranjou-se uma palavrinha fantástica para nos distinguir: neoliberal. Os portugueses já ouviram esta palavra proferida em todo o espectro político português (começando na direita de esquerda PSD, passando pela esquerda de esquerda PS, até à esquerda dos unicórnios cor-de-rosa BE e PCP, passando pelo senhor dos submarinos do PP, ou como todos querem lembrá-lo), mais ou menos da mesma forma que se falaria de um leproso na idade média. Os neoliberais são supostamente empresários vis e violadores de extrema-direita que querem banir os direitos de todas as pessoas, tirar a saúde e a educação dos doentes e das crianças e escravizar todos os pobres ao (recorrendo a um dos termos do Jerónimo de Sousa que mais me enternece) “Grande Capital”.

 

Sim, curiosamente segundo a opinião geral, ser liberal é ser neoliberal, ser neoliberal é ser fascista. O que faz todo o sentido porque nós como liberais queremos abolir a maioria das funções de estado (senão todas) e como tal seremos os grandes ditadores totalitários que tudo controlam… errrr… esperem, se calhar não pensaram bem nisto.

 

Pronto, o problema está diagnosticado: os políticos profissionais (incluindo aqui todas as criaturas que trabalham para a máquina de marketing estatal, comentadores, promotores de privilégios especiais e os tão enganados sindicatos) conseguiram convencer a opinião geral de que os liberais são contra o alargamento dos direitos sociais (tenho tanto medo de dizer esta palavra mas que fique explícito que me refiro ao casamento homossexual, aborto e outras questões que são na realidade leis que neste momento restringem os tais direitos) e que querem retirar as regalias do estado social (nesta parte estão certos),sendo que sem elas todos nós iremos ficar mais pobres, doentes e sem emprego (nesta parte não).

 

A solução? Mises escreveu que a grande arma do liberal é a caneta e a argumentação. Que a missão do liberal é a de elucidar os desinformados e iludidos pela “máquina”.

… estamos lixados…

Como é que vamos competir com discursos aborrecidos contra os slogans apelativos, videoclips coloridos e filmes que jorram continuamente de todos os poros da sociedade cheios de mensagens anti-liberais? Mises escreveu muitos livros bonitos, até vou com a cara dele, parece um avô muito simpático, mas nesta ele meteu o pé na poça, encharcou-se todo e pegou uma pneumonia multi-resistente ao liberalismo.

 

Há quem já tome uma nova abordagem, o “econstories” já fez muito pela nossa causa com dois videoclips que deram a conhecer as falácias de Keynes a mais pessoas que Hazlitt (embora provavelmente nenhum dos dois as tenha convencido todas). E como este há muitos mais exemplos.

 

Está no entanto na hora de ter uma nova abordagem ao liberalismo e infelizmente esta é uma abordagem que prima pelo ataque: a promoção do roubo como moralmente reprovável. Provavelmente todos os não liberais falharam na compreensão desta frase enquanto os outros a entenderam perfeitamente. Mas todos os dias quando vamos pôr gasolina dizemos que fomos roubados. Cada vez que pagamos IRS, imposto de circulação, IVA, IRC, PEC, foi um assalto.

 

Impostos são UM ROUBO.

 

Não interessa a quem, o imposto é um roubo, independentemente do que se vai fazer com o dinheiro. O detentor dos bens não consente de livre vontade e o estado utiliza a sua máquina repressora para expropriá-lo. É mais justo que o governo taxe o milionário numa fatia exorbitante do seu lucro do que quando cobra ao pobre pela fruta que comprou que teve que passar pela alfândega (supostamente para proteger os produtores portugueses) e IVA, saindo ao dobro do preço? Não, é errado em ambos os casos.

 

E, para quem já não se lembra, ROUBAR É MAU.

 

E se o governo quer redistribuir o que for, que cada um tenha o poder de decidir se quer voluntariamente entrar neste esquema ponzi (que curiosamente é proibido por lei, que irónico).

 

Está na hora de desmascarar os socialistas como os ladrões que são. Eles não advogam direitos para ninguém, advogam o direito do estado poder fazer com as pessoas o que quiser, dando-lhes através da democracia a impressão de que são elas a mandar. Para isso não basta o poder da palavra, apenas a verdade. Mas a verdade não tem que ser transmitida apenas em textos como este. A verdade está por exemplo no Robin dos Bosques, que não roubava aos ricos para dar aos pobres mas que roubava os impostos de volta aos homens e mulheres que haviam sido assaltados. A verdade está em slogans, em letras garrafais nas paredes das finanças, “este dinheiro é nosso, devolvam-no”. A verdade está em clips do youtube, no “compro o que é melhor e mais barato”, no “estou farto deste assalto, vou fugir para Singapura” e “Os sindicatos querem sugar o dinheiro aos trabalhadores privados que realmente trabalham para os públicos que só querem emprego”.

 

Vamos dizer a verdade e libertar as energias de Portugal deste socialismo.


Maio 16 2011

Às vezes ‘gosto’ de ir a jornais online portugueses ler os comentários a certas notícias, nomeadamente referentes à ‘economia’ do país com muitos nomes giros como IVA, taxas de tudo e mais alguma coisa, desemprego, subsídios, estado social, etc etc.

 

Chego mais uma vez à conclusão que o bom português se encontra extremamente dependente do seu compincha Estado, um português desorientado que tem de fazer contas à vida porque lhe tiram o rendimento social de inserção, um português invejoso dos ‘grandes ricos’, um português cego, que insiste votar naquele que lhe garante o dinheiro fácil que lhe cai nos bolsos ao fim do mês. Acima de tudo um português que aplica o que experiencia na sua pele e/ou do que ouviu falar o vizinho, achando que sabe tudo o que há para saber, disparando postas de pescada a uma velocidade estonteante. Aliás os mais ‘perigosos’ são precisamente aqueles que por lerem um livro de uma ideologia qualquer assumem logo que são uns iluminados.


Ora nisto o político se quer ser eleito tem que obrigatoriamente adoçar as suas palavras, usar uma retórica muitas vezes inflamada cheia de gritos e acusações a outros políticos (porque passar a batata quente é muito fácil). Não existe um único político a meu ver que ofereça a verdade como ela é; estamos todos num pardieiro com bosta até à cintura, e todos oferecem uma mansão de 17 quartos e piscina.


Só posso conjecturar mas possivelmente se houvesse neste momento um político português com ideias liberais a sério (não aquele liberal que pensa que Keynes se encaixa nesta categoria) que se dedicasse exclusivamente a dizer a verdade, a defender a propriedade, a propor a abolição do estado social, dos impostos, da intervenção do estado nos mercados, etc etc, não teria êxito nenhum. Não é isso que as pessoas querem ouvir, e em boa verdade todos querem uma realidade segura, estável e não uma em que tenham que fazer sacrifícios e assumir riscos. Muitos desejam um ‘nanny state’ e o liberalismo é precisamente o contrário; é aquele que nos incita a sermos empreendedores e autónomos, os senhores do nosso destino, dito de uma maneira mais poética.

 

Entretanto lá continuamos com esta palhaçada a que chamam eleições, onde os candidatos são extremamente simpáticos, distribuem beijinhos e abraços, fazem promessas fantasiosas como aumentar o salário mínimo nacional e acabar com a recessão entre outras propostas igualmente sonantes ao ouvido do eleitor.


 A sério Portugal? Vamos continuar a insistir sempre nos mesmos cavalos?


Abril 30 2010

Por muito surpreendente que seja, desta vez eu e o Daniel Oliveira temos a mesma opinião num ponto base importante: a prioridade de Portugal deve ser, acima de tudo o crescimento económico. No seu texto para o jornal “O Expresso” que podem ler no seguinte link http://aeiou.expresso.pt/e-o-crescimento-estupido=f579597 Daniel Oliveira critica o excesso de concentração do governo na dívida pública sendo que a mesma é unicamente um problema galopante devido a um crescimento baixo estrutural.

 

Chegando a este ponto, e menosprezando as referencias a economistas que me agradam pouco (como Paul Krugman) as minhas sobrancelhas levantaram-se no que parecia um opinar economicamente viável e minimamente coerente por parte do normalmente insano discurso económico do autor. De facto, países com dívidas maiores que a nossa não são, como diz  Daniel Oliveira, tão pressionados como nós. No entanto não se trata de uma conspiração “especulativa” contra Portugal mas sim do facto que dados como o baixo crescimento económico, um código laboral rígido e um estado pesadíssimo oferecerem poucos possibilidades de resolução do problema.

 

Daniel Oliveira esquece-se que o mercado, os preços, e tudo o que é economico se projecta no futuro de maneira prospectiva. Com a nossa dívida passa-se o mesmo, o mundo económico olha para o que será de Portugal, não contam só indicadores económicos actuais. Esta falha de avaliação torna-se mais óbvia, e mais preocupante, com a tendência geral da esquerda portuguesa a esquecer o longo prazo e a apresentar soluções que levam à estatização contínua, à redução do poder decisório da sociedade civil e ao sacrifício do crescimento futuro. Acima de tudo, esquecem-se que em economia não há almoços grátis. Tudo se paga.

 

Assim, na defesa do dever do Estado promover o crescimento, apresenta sem hesitar o investimento público e os seus efeitos multiplicadores como a forma mais adequada. Esta visão, aparentemente simples e correcta no curto prazo, apresenta numerosas deficiências as quais Daniel não conhece ou então, sobre as quais, escolhe não dizer uma palavra. Ainda para mais, acrescenta, depois desta solução unívoca, pseudo-remédio universal, que “crescer com menos investimento (suponho que público) é uma ilusão.

 

Os investimentos públicos normalmente são apresentados e planificados por uma de três razões: a primeira é uma necessidade estrutural da actividade económica, ou seja, os produtores, os consumidores ou ambos têm vantagens pela estruturação da actividade económica. Por exemplo, não se pode explorar uma mina ou abastecer uma cidade sem vias de acesso. Aqui o investimento justifica-se pela sua utilidade que transcende o seu significado económico imediato. Ou seja, exprime-se pela viabilização de actividade privada no futuro. Mais duvidosas e questionáveis são as duas outras razões, uma delas a defendida por Daniel Oliveira. A obra pública como “método de criação de emprego” ou como maneira de “criar riqueza que de outra maneira não seria produzida”.

 

Relegamos neste texto a primeira para que o mesmo não seja demasiado extenso. Centremo-nos nas razões de Daniel Oliveira.

Não havendo espaço para baixar impostos e logo para a expansão do consumo privado só há então, na sua visão, essa maneira de estimular o crescimento e daí advém a capacitação do país para pagar a sua dívida externa. Antes de apresentar alternativas (as quais o autor nega desde logo existirem) vamos analisar a curto e longo prazo as consequências desta actuação.


O Governo português, pressionado pelos mercados internacionais devido à sua dívida e baixo crescimento, começa um projecto nacional de obras públicas (talvez ao estilo do plano E em Espanha). Assim a dívida pública, a qual foi secundarizada, dispara mais uma vez já que o governo não procurando controla-la leva ao aumento do custo de financiamento (que recordo está hoje nos 5.6%). O deficit de Estado com os crescentes gastos também aumenta consideravelmente. Os juros vão ficar cada vez mais caros e o dinheiro necessário para o serviço da dívida vai ser cada vez mais.

Em troca criaram-se diversos projectos que diminuíram o desemprego até determinado ponto e levaram, talvez, ao país estar melhor suprido de infrastruturas e afins (depende da natureza dos mesmos). Os salários pagos aos trabalhadores vão levar a um aumento no consumo privado e logo a uma expansão da actividade económica.

 

Fica a pergunta, tendo em conta este cenário, poder-se-ia supor uma resolução para o problema de baixo crescimento? Não. Para financiar estes variados projectos a única maneira de o fazer é através da cobrança de impostos ou da emissão de dívida. Se baseados na primeira, o “emprego criado” e a “riqueza criada” vêm directamente dos contribuintes o que vai levar a uma redução do consumo privado a qual vai levar à destruição de emprego devido à menor procura. A hipotética belíssima ponte levou à não produção de diversos bens na economia e deslocou inutilmente mão-de-obra a qual vai depois demorar a encontrar-se ocupada no sector privado, por outro lado pode provocar a inflação do preço de matérias primas ou do crédito prejudicando empresas normalmente eficientes criando assim subidas de preços e adicional destruição de emprego. No entanto até não seria tão mau se fosse “euro por euro”, ou seja que cada euro gasto na ponte fosse equivalente a um euro perdido no consumo privado. Só teria, então, existido uma “transferência de riqueza” mais ou menos equivalente. Não é assim tão simples, a tributação adicional vai levar a menores perspectivas quanto aos benefícios futuros da actividade económica e logo o investimento, a criação de emprego, a poupança e a produção vão sofrer estruturalmente. Vai haver menor produção e também menor poder aquisitivo. A sociedade empobreceu-se.

 

Mas e se a alternativa for o crédito? Pois bem, o crédito nada mais significa que espalhar as consequências faladas pelo tempo fora. Com custos adicionais, os juros que pagaremos pelo nosso descontrole e intervencionismo abusivo.

Daniel Oliveira está, no fim de contas, a propor medidas que sacrificarão o crescimento futuro e assim as perspectivas dos portugueses de melhorar a sua qualidade de vida. Os portugueses veriam garantida uma presença fiscal pesadíssima para conseguir pagar os juros dos abusos actuais prolongar-se por anos a fio. Os impostos a terem de ser aumentados para conseguir sustentar o nosso megalómano estado social e a dívida ao mesmo tempo. Ou seja, as vantagens de curto prazo são totalmente anuladas pelos danos irreparáveis no crescimento futuro, incomparavelmente superiores aos ganhos actuais com tal política. Um paliativo para um ou dois anos deste género não seria mais que adiar e agravar o problema.

 

O mais ridículo de tudo isto é que não seriam tomadas nenhumas medidas estruturais de forma a potenciar o crescimento de forma a dar continuidade a este estímulo já de si duvidoso. Seria só um folgo de ar fresco temporário com consequências gravíssimas para orçamentos e crescimento futuros. Tratamos HIV com Paracetamol. O aumento de consumo (que mesmo que fosse intenso não compensaria) vai esbarrar com a crescente burocracia estatal que regula a actividade económica, com os impostos altos que a asfixiam, com um código laboral que nada mais faz que impedir a criação de emprego, baixar a produção total entre outros.

 

A solução real é Portugal procurar promover a criação de riqueza tornando o nosso país mais atractivo. Como? Diminuir a burocracia, rever o código laboral, as leis de salário mínimo, as limitações efectivas à iniciativa empresarial, privatizar variadas empresas e procurar transferir competências várias à sociedade civil. Com a diminuição das funções do estado e o alterar das regulações referidas o aumento de actividade produtiva estrutural originada iria levar a um maior volume de produção, menos desemprego, diminuição dos preços reais e, a médio prazo,  seria possível baixar impostos e aumentar ainda mais criação de riqueza, a produtividade, os salários e assim a riqueza total. Ficando o país mais rico, os mercados mais calmos e a dívida controlada.


Diogo Santos



Março 24 2010

Um dia antes de eu ir à assembleia da república, vale a pena recordar as perguntas que o youth parliament do Reino Unido fez ao deputado (e eurodeputado) Daniel Hannan.

publicado por Filipe Faria às 22:13

Março 22 2010

publicado por Filipe Faria às 21:12

Março 12 2010

Em ciência política é comum tentar-se encontrar métodos para aferir a qualidade da democracia. Em boa parte destes métodos, a democracia encontra a sua plenitude quando as necessidades materiais das populações são satisfeitas pelo poder político, o que faz com que se encare o mercado como um elemento a ser domado por esse poder que foi investido da legitimidade democrática. Desta forma, numa democracia liberal, limitar o poder político democrático pode visto uma apologia do mercado como elemento democrático. Porém, a noção de que o mercado é um elemento que por si só é democrático raramente é aceite em teoria da democracia.  Contudo, o mercado é não só um elemento democrático como o é muito mais do que o poder político alguma vez poderá ser.

 

Hans-Hermann Hoppe, no seu texto “On the Impossibility of Limited Government and the Prospects for a Second American Revolution”, mostra como só o mercado poderá ser verdadeiramente democrático. Como o acesso livre a cargos públicos através do sufrágio promove o sucesso político, apenas os que foram dotados de capacidades sociais (social skills), capacidade oratória, carisma, boa aparência, capacidade de representar, etc, estão aptos para atingir esses cargos e obterem poder. Da mesma forma, como estas características são distribuídas pelos humanos de forma desigual, apenas muito poucos na realidade estarão preparados para atingir o poder político pela via democrática. Por contraste, o mercado incorpora todo o tipo de qualidades distribuídas pelo espectro humano. Todas as características humanas têm o seu espaço para a sua rentabilização no mercado, sejam elas a simpatia, a destreza física, a intelectualidade ou o humor politicamente incorrecto. Esta possibilidade de cada um pegar nas suas características e poder participar no mercado produzindo riqueza para si mesmo é a via mais democrática ao dispor do Homem, a via que não obriga ninguém a ser nada em específico e que acomoda todas as necessidades e disposições.

 

Em suma, a plenitude da democracia não se encontra no poder político mas sim na liberdade económica. Como é óbvio, eu voto todos os dias e não apenas de quatro em quatro anos.

 

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 23:01

Março 05 2010

Um interessante troca de ideias sobre esta questão (e não só) com Rui Botelho Rodrigues.

 

Updated

publicado por Filipe Faria às 23:12

Março 01 2010

O Consenso Português

 

O Insurgente fez 5 anos de existência. Várias personalidades escreveram textos para lembrar esse facto e, naturalmente, para congratular o colectivo. De todos os textos, o que captou mais a minha atenção foi o que foi escrito por José Manuel Fernandes (ex-director do jornal “Público”). JMF lembra como F.A. Hayek foi importante para a vitória ideológica e eleitoral de Margaret Thatcher em 1979, assim como lembrou as vitórias de Thatcher e o seu legado sob forma de “Thatcherism”. Ademais, JMF lembra ainda como o Insurgente tem um papel importante no quebrar do consenso estatista e social-democrata vigente, onde da esquerda à direita, todos acreditam que é o Estado que deve keynesianamente comandar a economia, e consequentemente, a vida dos seus cidadãos.

 

O Consenso Britânico

 

Para os que acham impossível qualquer mudança de paradigma em Portugal, vale a pena analisar o caso britânico. Depois da II guerra mundial, o consenso social-democrata keynesiano chegou a Inglaterra. Até à chegada de Margaret Thatcher em 1979, quer o partido trabalhista, quer o partido conservador, concordaram com o projecto socializante de Clement Attlee, o líder do partido trabalhista que lançou o Welfare State britânico. Esta era do consenso pós guerra britânico culminou com uma economia com crescimento quase nulo, estagflação, desemprego alto, défice público e, por fim, com a intervenção do FMI. Nessa altura a Grã-Bretanha era apelidada de “Sick Man of Europe”. Em seguida, Margaret Thatcher trouxe o liberalismo para o Reino Unido, através do monetarismo de Milton Friedman e da inspiração na fleuma literária de F.A. Hayek. Tudo mudou, o Reino Unido voltou a ser competitivo e ganhou influência no mundo, ajudando, com Ronald Reagan, a demolir o muro de Berlim, declarando triunfantemente a vitalidade da economia de mercado livre. Seguidamente, gerou-se um novo consenso: o new labour de Tony Blair já não era socialista e abraçava com bom grado o legado económico de Margaret Thatcher. O próprio Peter Mandelson, uma das figuras mais importantes do New Labour, declarou: “We are all thatcheristes now”. Talvez tivesse exagerado, o New Labour não era “Thatcherite”, mas tinha certamente deixado de ser socialista.

 

Novo Consenso

 

Durante as felicitações ao aniversariante, muitos alegaram que Portugal precisa de romper o consenso social democrata, destacando o papel positivo do Insurgente neste processo. Na minha óptica, não seria preciso apenas uma Margaret Thatcher, seria preciso um novo consenso onde a direita portuguesa fosse liberal e a esquerda fosse, no mínimo, liberal social, e onde o socialismo fosse uma memória do passado. Nada disto parece real nos tempos que correm; porém, a motivação de elementos como os do Insurgente dão-nos a ilusão de que em Portugal existe de facto debate de ideias fundamentais. Não existe, mas ao perpetuarem a noção de que poderá existir, eles trazem uma visão corajosa e optimista do futuro.

 

Parabéns (atrasados) Insurgente.

 


Fevereiro 27 2010

Os liberais (no sentido clássico do termo) não conseguem uma verdadeira influência no sector político europeu há bastante tempo. Contudo, o centro direita sempre foi incorporando algumas ideias liberais nos seus programas. Hoje em dia, todos, da esquerda à direita, pregam o estatismo: se é grande, se controla, se monitoriza o mais ínfimo pormenor social e económico, então estamos no caminho certo. O estado “grande” tornou-se consensual e os políticos agradecem. Aproveitam assim para fortalecer as máquinas dos seus partidos com mais cargos à disposição.

No epicentro deste pensamento único está, naturalmente, a crise económica e a fobia popular adjacente. O povo pede para ser protegido pelo estado e o estado não se faz rogado, incrementando os seus tentáculos estatizantes.

Já todos conhecem o lobo mau, chama-se neoliberalismo selvagem (peço desculpa pela redundância mas é assim que se costuma dizer nas tabernas e nas associações de estudantes universitários), é contra ele que o estado deve lutar. Claro que este lobo mau que nos é vendido em todo o lado está pintado de forma a servir os interesses políticos do burgo europeu.

Dizem-nos que a culpa da crise é da desregulação dos mercados e da falta de intervenção estadual no sistema bancário. Esta versão simplificada vende mais jornais, mas na realidade oculta pormenores que não encaixam no puzzle: o que não é dito é que foi precisamente através da intervenção da reserva federal americana que os bancos começaram a correr riscos suicidas. Como? Para convencer os bancos a colocarem mais dinheiro no mercado, estes foram incentivados através da fixação artificial de taxas de juros ridiculamente baixas. De forma análoga, foi concedida a protecção sobre as reservas dos bancos de forma a que estes jogassem as suas reservas no mercado. A acção governamental foi determinante para que os bancos tivessem a liberdade de arriscarem na oferta de empréstimos de retorno impossível. Em condições normais de mercado onde a responsabilidade do risco recaísse apenas e só sobre os bancos, a ponderação seria outra. A protecção governamental oferecida aos bancos terminou com uma total ausência de freios. Ademais, é frequentemente omitido que este processo não começou com o famigerado George W. Bush. O fenómeno está em curso há vários mandatos e o presidente Bill Clinton, visto por muitos europeus como um modelo de virtude, não o inverteu.

Vivemos na era do pensamento único. Em Portugal, a direita nunca foi de facto liberal; porém, no momento, está moribunda pois não consegue apresentar qualquer proposta que se desvie do pensamento estatizante da esquerda. Enquanto ela se arrasta, nós vivemos sem pluralidade nem contra-freios direccionais. Como consequência, o estado gasta, aumenta a dívida pública, incrementa a dívida externa e hipoteca as gerações futuras que terão eventualmente que pagar a conta.

Segundo o
Jornal de Negócios, o peso do estado chegou pela primeira vez na história aos 50% do PIB nacional, o valor mais alto de sempre. Continuar a criticar-se o suposto liberalismo em que vivemos, quando o estado controla 50% da riqueza produzida no país, é a prova de que estamos a viver dentro de uma peça de teatro do absurdo. Logo agora que esse género artístico nem está na moda.

 

 

Publicado pela primeira vez em 8/3/2009 no "The Visitor"

publicado por Filipe Faria às 17:32

Fevereiro 22 2010

“If you bound the arms and legs of gold-medal swimmer Michael Phelps, weighed him down with chains, threw him in a pool and he sank, you wouldn't call it a ‘failure of swimming'. So, when markets have been weighted down by inept and excessive regulation, why call this a ‘failure of capitalism'?”

 

Peter Boettke

publicado por Filipe Faria às 00:20

Fevereiro 15 2010

Ninguém pode acusar Pina Manique de ser um liberal. No século XVIII, este intendente geral da polícia perseguiu a maçonaria para terminar com o que na altura se denominava de ideário liberal em Portugal. Era claramente um defensor do regime absolutista monárquico. Na economia era um intervencionista de Estado e um proteccionista. Contudo, conhecia a fórmula para gerar desenvolvimento. Quando quis desenvolver o Alentejo, sugeriu levar para essa zona inúmeras famílias e isentá-las do pagamento de impostos ou cobrar-lhes impostos reduzidos para que pudessem guardar os frutos do seu trabalho e tivessem incentivos para o investimento. De vez em quando, os planeadores do Estado têm estes desabafos...

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 11:56

Fevereiro 11 2010

 

 

publicado por Filipe Faria às 18:35

Política, Filosofia, Ciência e Observações Descategorizadas
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