O REPLICADOR

Fevereiro 01 2010

Este texto é uma resposta ao comentário da "Katherine" no texto "O Verdadeiro Contrato Social".

 

Cara Katherine,

 

Como o seu comentário abordou várias questões interessantes, tentarei responder-lhe por pontos:

 

1-    Devo dizer-lhe que concordo com quase tudo o que escreveu. Grande parte do que disse está presente em qualquer livro de Sociobiologia ou, como mais recentemente é conhecida, de Psicologia Evolutiva. É inegável que nós somos produtos dos nossos genes e do meio ambiente, e que o meio ambiente exerce pressão evolutiva ao determinar os mais bem adaptados ao contexto (repercutindo-se na selecção natural). Estamos plenamente de acordo e nada do que escrevi no texto invalida estas premissas.

 

2-    Estamos também de acordo no que diz respeito às tendências. De facto, tendências não significam que qualquer individuo de um determinado grupo (seja ele étnico ou de género) tenha de corresponder à tendência. Porém, estava-se a comentar o falhanço “MÉDIO” dos rapazes no ensino e do sucesso “MÉDIO” das raparigas (como se sabe, há alguns bons alunos e algumas más alunas) e quando se desenvolvem medidas políticas baseadas em teorias educativas traça-se sempre uma média para os seres humanos. São essas medidas que são criticadas no texto (ou satirizadas, neste caso). Como é fácil de verificar, nunca escrevi em qualquer lado que qualquer mulher é mais X que do que qualquer homem por causa da tendência verificada nos seus respectivos grupos.

 

 

3-    As características que herdamos da evolução humana estão presentes nos dias de hoje. Tal como referiu,  a agressividade “testosteronada” dos pontapés e murros não está adaptada ao contexto urbano contemporâneo onde a agressividade é mais frutífera ao nível da psicologia social. Podemos dizer que as mulheres são igualmente agressivas, mas não de uma forma física, usam sim outros métodos de agressão que por serem mais indirectos adaptam-se melhor (em teoria) às exigências da sociedade actual. Mas mais uma vez, estamos sempre a falar de médias, não de indivíduos em concreto.

 

4-    Já na última parte estamos em desacordo. Penso que tal se deve ao facto de ter interpretado erroneamente a intenção das minhas palavras. Eu nunca advoguei a aceitação da indisciplina e da agressividade para efeitos de valorização pessoal e académica, muito pelo contrário. O que eu advogo é que cada escola deve ter a liberdade para escolher os critérios com que vai preparar os seus alunos para que seja possível lidar com determinadas “inadaptações” de forma flexível sem modelos de educação impostos de cima (segundo o modelo “one size fits all”). O barómetro de evolução social, mérito e sucesso será medido na sociedade em si e não no ministério da educação. Ademais, eu não advogo o reforçar das características inadaptadas dos rapazes, a educação é, apesar das suas limitações, um factor importante no desenvolvimento pessoal, mas oponho-me a palavras como “moldar” porque facilmente caem nas engenharias sociais à luz do comportamentalismo. Por outras palavras, se me perguntar se um rapaz deve ser repreendido quando parte uma janela numa escola, obviamente que a resposta é sim. Mas o bom senso trata disso, não precisamos de instruções superiores para tal.

 

5-    Por fim, tal como o João Rodrigo já referiu, eu nunca advoguei que deviam existir direitos diferentes devido à diferença de capacidades. Muito pelo contrário, bato-me constantemente pela maximização da ausência de discricionariedade legal. As leis que definem o Estado de Direito são humanas e não grupais. Contudo, isto não me impede de constatar evidências empíricas das tendências dos vários grupos. Da mesma forma, tal não me faz pedir para que se perdoe os homens ou se obrigue as mulheres a trabalharem nas lides domésticas. Cada indivíduo deve escolher a forma de vida que melhor entender, independentemente de escolher um estilo “desigualitário” ou politicamente incorrecto (como o que referiu). Num cenário extremo (e irreal), se todos os homens se recusassem a fazer trabalhos domésticos, algumas mulheres viveriam com eles na mesma e outras prefeririam ficar sozinhas. O que importa é que, na vida privada, cada indivíduo tome as suas decisões e não exerça coerção sobre o próximo. Por fim, não me parece que nos devamos preocupar em demasia em fazer com que os homens ganhem flexibilidade adaptativa. Os humanos chegaram até aos dias de hoje atravessando milénios precisamente porque a selecção natural foi trazendo essa mesma flexibilidade adaptativa (não consta que tenham existido pedagogos estatais com cursos de sociologia e psicologia a “flexibilizarem os indivíduos”). 

 

PS: A drive sexual é EM MÉDIA diferente entre os 2 sexos devido à estratégia evolutiva espécie. Nem é preciso ler livros como o “Selfish Gene” para saber isso, basta tentar perceber porque é que a mais velha profissão do mundo é essencialmente feminina.

 

publicado por Filipe Faria às 00:20

Janeiro 31 2010

 

 

E na Universidade também.

publicado por Filipe Faria às 04:22

Janeiro 29 2010

Um artigo do jornal “Público” revela o facto de as mulheres terem em média mais sucesso académico do que os homens e de que se está a formar uma nova classe baixa constituída por rapazes que fracassaram na escola. Nada de novo. O que também não é novo são as explicações dadas por sociólogos e pedagogos que se baseiam, em larga medida, na famigerada teoria da tábua rasa que considera que temos todas as mesmas características e que as diferenças apresentadas são apenas resultados da educação e da cultura. Este excerto do artigo é elucidativo:

 

“Especialista em assuntos de Educação, o sociólogo francês Christian Baudelot defende que, antes de mais, aquilo que é pedido pela escola é a interiorização das suas regras, mas que estereótipos sociais ainda dominantes valorizam nos rapazes o desafio, a violência e o uso da força - um verdadeiro "arsenal antiescolar". As raparigas, pelo contrário, são socializadas na família em moldes que facilitam a adaptação às exigências escolares: mais responsabilidade, mais autonomia, mais trabalho. "Trata-se de um conjunto de competências que as torna menos permeáveis à indisciplina", observa Teresa Seabra. No ano passado, em Espanha, 80 por cento dos alunos com problemas disciplinares eram do sexo masculino.”

 

Desta forma, como acreditam que tudo se resolve pela educação, desenvolvem constantemente engenharias sociais para igualizarem o inigualável cometendo cada vez mais erros ao não permitirem que cada elemento seja livre para escolher o seu caminho segundo as suas características inatas e os seus instintos.

 

É muito claro que há diferenças genéticas entre rapazes e raparigas (eu pelo menos olho sempre para esses sinais distintivos nas fêmeas): os traços físicos, a força, a impulsividade, a drive sexual,  a agressividade que está ligada aos níveis de testosterona (superiores nos homens), etc etc. Contudo, os nossos amigos das pedagogias acham que tudo se deve à educação e à pressão social, como se os meninos e meninas não tivessem instintos próprios para reagirem ao contexto que as rodeia. Para estes educadores as pessoas são meros balões que voam para o lado que sopra o vento, ou seja, retiram da equação qualquer noção de livre arbítrio ou de responsabilidade pessoal.

 

 

 

 

Assim sendo, acreditando nestes pedagogos adeptos da teoria da tábua rasa, todas as tendências que separam os 2 sexos só se podem explicar por acordos sociais que os homens fizeram entre si e por acordos sociais que as mulheres fizeram igualmente para criar a tal “pressão social” e os tais “estereótipos”. Vamos esquecer os contratos sociais de Rousseau ou Hobbes ou Locke, este é “o verdadeiro contrato social” para estes pedagogos. Aqui ficam algumas das premissas acordadas:

 

  • Os homens acordaram entre si morrer em média mais cedo enquanto que as mulheres preferiram acordar morrer mais tarde. Os homens até acordaram terem taxas de suicídio bastante superiores às das mulheres (esse radicais contratuais).

 

  • Os homens acordaram terem (em média) mais força, maior drive sexual, mais comportamentos de risco e serem menos organizados do que as mulheres, elas acordaram o contrário porque queriam parecer melhor em vestidos.

 

  • Os homens concordaram em ser maus na escola porque os pais lhes diziam para serem viris e não para serem bons alunos (alguém acredita nisto?). Já as mulheres concordaram em ser boas alunas porque os pais lhes disseram para elas serem bem comportadas e boas estudantes (e não é que elas obedeceram).

 

  • Uma das premissas acordadas por unanimidade entre os homens é o facto de geralmente fazerem pouco trabalho doméstico (visitem a casa de um solteiro médio e provavelmente vão encontrar no frigorífico sandes azuis de bolor feitas em 1996). Por outro lado, as mulheres acordaram que o trabalho doméstico precisa de ser feito por uma questão de necessidade e mesmo quando não o apreciam particularmente tendem a fazê-lo com competência.

 

  • Eles acordaram em ter uma capacidade de movimentação espacial superior e elas acordaram ter uma inferior porque acharam que bastava terem melhores capacidades comunicativas (e seios) para dominarem os movimentos dos machos. 

 

No fundo estes pedagogos são contratualistas que pregam uma reformulação deste “verdadeiro contrato social” de forma a que homens e mulheres acordem as mesmas coisas no sentido de obterem uma massa igualitária. É isso que estão a tentar. Porém, como o ser humano não é uma tábua rasa preenchido pelas suas políticas educativas e como ainda estamos longe de conhecer com exactidão os fenótipos das milhões de combinações de genes humanos, seria bom que admitissem a sua ausência de conhecimento e dessem liberdade de escolha para cada um escolher o seu caminho escolar e profissional.

 

Em média, homens e mulheres têm tendências comportamentais diferentes que se manifestam desde bebés (quando a influência da educação é ínfima), mas todos terão capacidades que podem ser optimizadas por eles mesmos numa sociedade pluralista e descentralizada.

 

PS: Outros textos sobre o assunto : Educação em Portugal: A Crença na Tábua Rasa, Steven Pinker: Acerca da Tábua Rasa

 


Novembro 14 2009

"Para quê educação se vamos ser todos soldados da Babilónia? Não é conhecimento que se quer mas dinheiro.
Lê: http://www.presseurop.eu/pt/content/arti

cle/137651-lyon-ano-zero-viva-autogestao "
Corina

 

Concordo com a auto-gestão das escolas no sentido em que quem monta uma escola tem a liberdade para definir as linhas orientadoras do processo de ensino. A liberdade de escolha passa precisamente pela liberdade de seguir por vias diferentes não impostas pelo Estado nas suas famosas soluções “one size fits it all”. Contudo, não concordo com estas ideias inspiradas nas ideias anarquistas de Bakunin e de outros similares. O fim da avaliação e das notas, a instauração da auto-avaliação por parte dos alunos e, a longo prazo, o fim de quaisquer regras que mostrem o mínimo de autoridade não são boas soluções e passo a explicar porquê: as instituições de ensino devem ter a liberdade de escolherem os seus métodos mas não se podem desligar de uma importante função da escola, que é a preparação para a vida em sociedade no mercado de trabalho. Nesse mercado o princípio não é a auto-avaliação e temos de estar constantemente a provar a validade do nosso trabalho a outros; ou seja, o ensino não pode ser um espaço onde só temos monólogos do género: “este trabalho está muito bom porque o meu EU diz-me que está”. Dito isto, concordo que, para além da liberdade de escolha no ensino e dos conhecimentos a apreender, devíamos ter métodos que estimulassem a geração de ideias e a criatividade (factores que neste ensino público massificado são cada vez mais esquecidos).

publicado por Filipe Faria às 11:31

Novembro 11 2009

A "Neutralidade" - Por Bruno Alves

 

"Ora, aqui chegamos ao verdadeiro problema: a tal "Escola Pública". É o seu carácter de escola forçosamente laica que coloca um problema aqueles que não querem que os filhos tenham uma educação "laica". O leitor dirá que esses têm uma alternativa, colocá-los numa escola católica privada. O problema está em que nem todos têm dinheiro para isso, e mesmo aqueles que têm são forçados, através dos impostos, a pagar as tais escolas laicas, ou seja, são obrigados a promover uma convicção que não partilham. Se o Estado se preocupasse menos em "dar uma educação" às crianças, e passasse a garantir que nenhuma criança deixaria de ir à escola por falta de meios, dando-lhe esses meios mas deixando aos seus pais toda a liberdade de escolherem a escola a que querem dar esse dinheiro (ou seja, as escolas deixariam de ser financiadas directamente pelo Estado), o problema dos "símbolos religiosos" e da "laicidade" (e muitos outros problemas, diga-se de passagem) seriam resolvidos."

publicado por Filipe Faria às 21:51

Novembro 04 2009

It is widely known that not everyone holds the same concept of education. From my perspective, education is mainly a tool that allows people to take full advantage of their innate potential. With this in mind, it is important to assess the power of education; therefore, the following question becomes the focus of this reflection: can education transform a person into someone completely different? The answer is yes and no, but to understand why, we must investigate the topic of human nature.

 

Steven Pinker, the famous American evolutionary psychologist, presents human nature as a mix of nature and nurture. He criticizes the theory of the blank slate (based on nurture only), which presents humans as having no genetic predisposition. In the same way, he advocates that human behavior is composed of 50% of genes (nature) and 50% of social context (nurture). As a result, half of what we are is already predetermined; thus, we cannot change it unless we manipulate our genetics, which is not easy to do these days. So we are left with the other 50% of nurture that we can use to change people and in which education plays an important role. This brings us back to the question posed in the beginning: can education transform a person into someone completely different? If we consider that humans are blank slates, then the answer is yes, a person can be fully transformed by education; on the other hand, if we consider the full picture by taking into account both nature and nurture, then the answer is no, education can only partially change a person and the innate part of humans cannot be changed by those means. As I see it, education is needed to provide opportunities for all, not to provide equal — or even similar — results, but to allow people to get the best out of themselves. Consequently, I see education as an opportunity and not as an end.

 

Higher education is as important as any other type of education; still, it should not be seen as the ultimate goal of every human being. Moreover, it is safe to say that not everyone likes to deal with intellectuality. Some people prefer to take short professional courses and they should not be regarded as inferior in any way. It is quite clear, society needs all sorts of activities to fill the needs of the market. In a society in which most people choose to get higher education, the plumber will earn more money ­— and be more useful — than a doctor or a lawyer. In the end, the law of supply and demand is always the one that decides what is more valuable, regardless of what we may choose. In the end, maybe higher education is a path that should not be considered as higher, but just as another way of life.

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 21:09

Outubro 18 2009

Num país profundamente enraizado no seu adubo socialista pronunciar a palavra elite é provavelmente mais mal visto que vender o fígado da mãe no mercado negro ou violar crianças de 10 anos. Ainda me lembro com nostalgia da minha professora primária a ensinar-nos que éramos todos iguais. Todos iguais, sim… e não. Devemos nascer todos iguais? Sim, sem sombra de dúvida, todos devem nascer idênticos aos olhos do mundo e com as mesmas oportunidades. Isso não acontece hoje, e não cairia muito em erro ao dizer que nunca aconteceu em tempo algum, em parte alguma. Faz parte de nós, o ser humano gosta muito de rotular tudo e mais alguma coisa, facilita-lhe bastante a vida. Só podemos lutar contra o nosso inato, uma batalha perdida mas com bastante mérito.


Mas isto deve ser assim durante toda a existência do indivíduo? O empresário é igual ao padeiro? Sim, claro! E de modo algum por outro lado. A partir do momento em que ganhamos uma consciência, se for suposto um nível mais ou menos semelhante nas oportunidades oferecidas ao empresário e ao padeiro, cada um seguiu o caminho que escolheu. E aí são diferentes, os caminhos que traçamos definem-nos. Ambos têm mérito, o empresário gosta de pão de manhã e o padeiro gosta de pertencer ao conglomerado panificador do empresário que lhe confere benefícios vários. E até este ponto o conceito de uma elite não tem utilidade alguma. Continuemos no entanto.


A vida pressupõe trabalho, palavra empregada a vários níveis: o amor dá trabalho, ser educado dar trabalho, tomar as decisões acertadas dá muito trabalho. É impressionante a quantidade de areia que precisamos de tirar da frente dos olhos para encontrar o nosso objectivo! Falo por experiência própria e não me parece que esteja sozinho no assunto. E é aqui que entra a definição de elite, o grupo excepcional de pessoas com objectivos mais ou menos imutáveis e sem medo de trabalhar para os atingir. A elite não escolhe o caminho de menos resistência, não altera os objectivos quando vê uma montanha no meio. A elite constrói um túnel, a elite pesquisa, a elite aprende e não descansa (muito). De certa forma o trabalho faz parte do objectivo da elite, sem este ela sente-se “pobre”, pobre de espírito, claro. A elite não tem que ser um grupo mínimo de indivíduos, infelizmente é.


A elite não nasce necessariamente rica, não nasce necessariamente de uma família influente, culta, educada. Muitos filhos de famílias ricas ou com status não são mais que meninos estragados de mimos. E muitas crianças que se depararam com enormes adversidades para subir na vida hoje não podem olhar para baixo de tão alto que chegaram!


E a elite é pequena em parte por culpa de uma sociedade que faz da palavra tabu. “Ser grande” nesta sociedade poluída é vestir-se como os outros, ser mediano em ideias como os outros, almejar uma casa com piscina, um jipe e nada mais. “Ser grande” é não trabalhar muito, deixar isso para os paspalhos. É numa sociedade corrupta económica e socialmente que surge um grupo exemplar, chamem-lhe o que quiserem chamar, chamem-lhes cavalos ou burros porque vos levam no dorso para não abrirem mais o buraco onde vivem com o peso dos vossos rabos gordos.

publicado por João Rodrigo às 17:37

Outubro 17 2009

Pedro Passos Coelho escreveu no “I” que deve existir maior liberdade de escolha nas escolas portuguesas e que os pais dos alunos devem ter uma participação maior na formação dos seus filhos. A ideia é boa, enfatiza a liberdade de escolha, mas o texto em si é vago, aponta o caminho sem explanar a sua efectivação. Como PPC é um político, não podemos ficar surpreendidos. Contudo, o que é sintomático é observar que os comentários feitos ao texto revelam que a liberdade de escolha é má em si mesma e que o resultado dessa liberdade é a desigualdade.

 

Este é um pensamento típico português que explica grande parte do nosso atraso. Quando alguém fala em liberdade de escolha, em vez de se ouvir perguntas no sentido de tentar alargar a escolha e a qualidade de serviços para todos, ouvimos comentários que na essência revelam o seguinte: “eu não me importo de viver na miséria se toda a gente também viver, porque o que realmente me chateia é que alguém faça uma melhor escolha que eu”. Os políticos percebem esta tendência, instigam-na, e fazem-lhes a vontade criando sistemas rígidos que não atendem às reais necessidades das pessoas. Neste caso específico da educação, a nivelação é feita por baixo, destruindo uma função vital da escola: ser um instrumento de mobilidade social.

 

Pelo menos nos últimos 35 anos, estas vozes têm contribuído para a destruição da igualdade de oportunidades em Portugal. Têm tanto medo de fazer más escolhas que não querem que os outros tenham a oportunidade de as ter. Parece incrível mas os nossos dirigentes ouvem-nas e aceitam que o nosso sistema opere numa institucionalização da inveja. Desta forma nunca se irão criar oportunidades neste país e continuaremos a ter uma anormal fuga de cérebros, porque ter oportunidades para chegar a onde todos vão chegar, independentemente do que façam, não é oportunidade nenhuma, é um bilhete para lado nenhum.

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 20:38

Setembro 06 2009

O seguinte excerto foi retirado da caixa de comentários do post "A Escola como Infantário":

 

"Há 40 anos, Adérito Sousa Nunes descrevia Portugal como uma "sociedade dualista", nomeadamente para caracterizar a separação entre o fosso tradicional que existe entre a maioria dos portugueses da modernidade da pequena minoria privilegiada. Hoje, muita coisa não mudou..."
Corina

 

Se antes essa minoria privilegiada era aquela que podia ir à escola, hoje essa minoria é aquela que tem dinheiro suficiente para não precisar de frequentar a educação facilitista portuguesa. Numa sociedade onde a educação já não interessa porque o mérito e a exigência acabaram, só resta o poder do dinheiro (de quem já o tem) para vingar socialmente.

 

Como é costume, os efeitos das medidas socialistas têm um resultado perverso porque ignoram constantemente uma premissa muito básica: quando se busca a igualdade sem olhar a meios destrói-se qualquer possibilidade de liberdade.

 

publicado por Filipe Faria às 04:04

Setembro 03 2009

José Sócrates terminou o debate de ontem com Paulo Portas a olhar directamente para a câmara e a insinuar, tal como um pai da nação, que ia providenciar o 12º ano a todos os jovens. Nas entrelinhas estava escrito “independentemente de estarem instruídos ou não”.

 

Este primeiro ministro considera que a escola é simplesmente uma instituição de inclusão e não uma instituição de mobilidade social. A escola tem, de facto, uma função inclusiva, mas não é a única função da escola: esta serve igualmente como factor de mobilidade social para os elementos mais desfavorecidos da sociedade que precisam de uma escola meritocrática para poderem ter uma oportunidade de se destacar e assim atingirem melhores condições de vida. No modelo facilitista que é proposto pelos socialistas, a escola passa a ser uma espécie de infantário onde os pais depositam os filhos para os irem buscar depois dos 18 anos. Os filhos irão continuar exactamente como estavam na hora da entrada, apenas mais velhos e sem terem tido oportunidades de mostrar as suas capacidades. Não nos devemos admirar, em Portugal a esquerda anda há muito tempo a tentar transformar o país num grande infantário onde o estado paternalista paga o jardim de infância mas não dá oportunidades a ninguém.

 

Já que a política económica do PSD em pouco se distingue da do PS, seria interessante que o PSD mostrasse alguma diferença em relação aos socialistas na forma como olha para a educação, para as oportunidades e para o mérito. Algo que iremos descobrir em breve se Manuela Ferreira Leite constituir governo.

 

 

publicado por Filipe Faria às 02:07

Junho 16 2009

Numa reportagem televisiva, vejo um estudante que acabou de fazer um exame do 12º ano a dizer que o exame foi previsivelmente fácil. Acrescentou que já esperava que assim fosse porque estamos em ano de eleições.

Se dúvidas houvesse, esta é apenas mais uma prova de que os alunos têm perfeita consciência que o governo (através do sistema de educação) não ensina, não educa,  nem qualifica … apenas dá diplomas.

publicado por Filipe Faria às 15:42

Junho 10 2009

Há umas semanas, critiquei a decisão do governo socialista de tornar o 12º ano obrigatório. Como consequência, recebi inúmeras respostas antagónicas de alguém que acha que tal medida, apesar da assunção da sua artificialidade, é benéfica para a sociedade, apresentando a França como o paradigma de um país extremamente produtivo apesar de ter uma educação artificial.

Constitucionalmente falando, a França é um país socialista. Portugal também. Não só a constituição portuguesa de 1976 foi baseada na constituição francesa, como a estruturação política é semelhante. O nosso amor pela autoridade e pelo centralismo estatal assim quis que se escolhesse o modelo francês em vez de um modelo mais liberal britânico. Consequentemente, somos uma sucursal francesa com pouca ambição geoestratégica, ao contrário de França.

A França adoptou já o 12º ano obrigatório, como seria de esperar. O delator dos meus argumentos advoga que a França é, com a ajuda de tão eficaz medida, um dos países mais produtivos do mundo, onde os trabalhadores mais produzem por hora de trabalho. Aceitando a premissa como verdadeira, posso desde já dizer que tal resultado não se deve à educação,  mas sim à engenharia governamental: com a instituição de salários mínimos e da rigidez laboral, as empresas francesas fazem com que as empresas fiquem apenas com os elementos produtivos, não contratando facilmente e assim deixando os elementos menos produtivos no desemprego.

Como tal, não é de surpreender que Paul Krugman, economista keynesiano, venha apresentar dados da OCDE que mostram que a produção por hora de cada trabalhador em França é ligeiramente maior do que nos EUA. Torna-se lógico, quando só se empregam os elementos mais produtivo, é natural que a média de produção por trabalhador seja maior. Porém, tal gera mais desemprego: em França, tal como na Europa em geral, não só há mais desemprego do que nos EUA desde dos anos 80 (reformas liberais Reagan), como o tipo de desemprego é de longo prazo, ao contrário dos EUA que apresenta, essencialmente, desemprego de curto prazo. Isto leva a que o crescimento do PIB potencial seja diminuto pois, segundo a lei de Okun, uma economia com desemprego elevado está a desperdiçar recursos, desviando-se assim da sua optimização. Adicionalmente, como resultado, teremos os custos de segurança social que o desemprego de longo prazo gera, suportados inevitavelmente por todos os que trabalham, diminuindo o poder de compra da sociedade por comparação com o poder de compra passível de ser atingido.

Mas é então a sociedade Francesa competitiva quando consideramos o resultado final observado? 

A resposta é um claro não. Segundo o
World Competitiveness scoreboard de 2009 a França surge em 28º lugar no ranking dos países mais competitivos considerados, atrás de países como a Malásia ou o Quatar. Com todo o potencial que a França apresenta, esta não consegue ser competitiva como um todo, ficando inclusive muito atrás da sua vizinha Alemanha (13º lugar).
Mas será que há, pelo menos, liberdade económica em França, como seria de esperar de um país ocidental que é produto de uma democracia liberal?
Mais uma vez a resposta é não. Desta vez com um resultado ainda pior que Portugal: segundo o
Index de Liberdade Económica de 2009, a França é apenas o 64º país economicamente mais livre do mundo. O incentivo ao empreendedorismo e à inovação tem um carácter diminuto na pátria de Sartre.

Dizem-me então que não há problema porque a França oferece “qualidade de vida”: o sistema de saúde é um dos melhores, os serviços públicos também, etc...
Será discutível afirmar estes factos dessa forma categórica. De qualquer forma, essa é a parte alegórica da questão, mas esconde a factura que tem de ser pagar. Não devia ser surpresa para ninguém, mas essa equidade não é de facto equitativa (passe o pleonasmo): os impostos são dos mais altos da EU; a burocracia francesa é kafkiana; a liberdade de escolha do indivíduo é diminuta quando opta por seguir um rumo não burocrático; paga impostos para benefícios de outrem sem nunca saber a quem o dinheiro está realmente a ser entregue; o parasitismo da segurança social é elevado e inclusivamente produz uma cidade de Paris com uma das mais altas taxas de criminalidade da Europa; o estado consome e gasta 54% da produção de riqueza anual (cada francês, num ano, entrega mais de metade do que se ganha ao estado); o estado é enorme e intervém como actor em múltiplos negócios da sociedade civil diminuindo o incentivo ao investimento; as leis laborais são rígidas e não permitem a fácil troca e procura flexível de melhores empregos (Portugal é ainda pior); o estado francês quase não consegue atrair investimento estrangeiro devido a uma variedade de regulações e restrições, assim como aos impostos altos.

O proteccionismo económico e cultural francês é assim uma realidade. O investimento estrangeiro está inclusivamente interdito ao campo do áudio-visual. Como consequência, vamos constatando que a importância da língua francesa vai progressivamente tornando-se mais diminuta, mantendo-se apenas com alguma importância institucional no âmbito da EU, mas até isso mudará quando se tornar institucionalmente evidente que a língua que a Europa fala é a língua internacional em que o Inglês se tornou.

Culturalmente, poucas coisas de qualidade vêm da actual França, a literatura já não produz o que produziu, a música idem, o cinema, apesar de forte internamente devido a fortes subsídios, continua a gerar poucos filmes exportáveis que sejam consumidos pelo grande público,  e, finalmente, as universidades franceses não constam na generalidade dos rankings das melhores e mais produtivas universidades mundiais. Tudo isto é sintomático da sociedade em que a França se tornou, uma sociedade onde o mérito é relegado para segundo plano no âmbito das decisões políticas.

Robert Nozick, filósofo americano, escreveu que pagar impostos para além do necessário para a vida em sociedade é uma nova forma de escravatura, pois tal consiste em fazer alguém trabalhar gratuitamente para os benefícios de outrem. É isto que o estado em causa faz, força determinados indivíduos a trabalharem para poder entregar, através da legitimidade estadual, o dinheiro destes a outros indivíduos; ou como diria Max Weber, usando o monopólio da violência legítima.

O estado francês obriga todas as pessoas a ficarem na escola até ao 12º ano. Os socialistas portugueses querem seguir-lhes o rasto. No fundo, é pouco relevante para os socialistas se os cidadãos estão bem ou mal formados, porque eles não tencionam entregar qualquer poder à sociedade civil. Esperam controlar a sociedade de cima, e para isso não precisam de uma população muito bem formada, pois esta não terá realmente liberdade para tomar grandes decisões por si só.

França tem, com certeza, os seus encantos. Este texto é uma resposta a quem usou as maravilhas francesas para justificar o facilitismo escolar. A pátria de Voltaire ou de Napoleão pode não ser, neste momento, o melhor sítio para formar os jovens; não obstante, é um excelente sítio para enveredar por uma vida especializada na caça ao subsídio, actividade que deve fazer parte da matéria artificial que é dada nas escolas francesas até ao, igualmente artificial, 12º ano.

 

 

 


publicado por Filipe Faria às 17:47

Maio 30 2009

O governo socialista quer tornar o 12º ano obrigatório para todos. A seu tempo, isto não ficará por aqui: um dia vai querer tornar a licenciatura obrigatória para todos, depois o mestrado, e assim consecutivamente, de maneira a formar os portugueses com uma educação artificial.

Quais os resultados desta política?

Uma diversidade de fenómenos que não caberia neste texto; porém, de momento, ficam patentes dois exemplos reveladores:

A)    A política da cunha vai proliferar. O empregador, na presença de milhares de trabalhadores com as mesmas qualificações, e na iminência de ter de fazer milhares de entrevistas, irá perguntar a um amigo (ainda mais facilmente do que agora) se conhece alguém de “confiança” para o lugar procurado. Como a grande maioria terá as mesmas qualificações provenientes do ensino facilitista, o amigo conhecerá sempre alguém para o lugar. Concomitantemente, estamos na presença de mais um duro golpe na meritocracia.


B)    Os melhores cérebros vão-se sentir obrigados a estudar bastantes mais anos para poderem ter qualificações superiores a todos os outros estudantes do ensino facilitista. Com isto vai-se fazer com que esses cérebros tenham inúmeras dificuldades em entrar mais cedo no mercado de trabalho. Uma sociedade que se vê privada dos seus melhores elementos no mercado de trabalho, porque os obriga a estudar ad eternum, não pode ter uma economia produtiva.

publicado por Filipe Faria às 01:14

Maio 28 2009

 

 

publicado por Filipe Faria às 01:20

Maio 09 2009

 

O actual governo socialista anunciou enternecidamente que não podia haver medida mais urgente do que obrigar toda a gente a ficar na escola até ao 12º ano. “É para o bem deles” dizem. A consequência torna-se evidente: será difícil encontrar palavras para analisar, de forma crítica, esta generosidade tão característica do pensamento de esquerda.

Num país que, de forma crónica, intui que todos os seus males advêm da educação vigente ou da falta dela, é curioso perceber como a comunidade política não levantou objecções consideráveis a esta ideia. Por interesses eleitoralistas, ninguém se atreve a levantar questões politicamente incorrectas antes das eleições; porém, os políticos apenas se adaptaram ao pensamento veiculado pela sociedade civil: se algo correu mal no resultado social do homem, é porque a educação falhou.
Se tivermos mais educação vamos ter um homem melhor, certo? Considero que não. Na melhor das hipóteses, se tivermos uma educação de qualidade, temos mais probabilidades de ter um homem melhor. Concomitantemente,  até isso não se revela líquido, pelo menos ao nível da moral, visto que um homem mais culto não é necessariamente mais altruísta ou compassivo (lembro apenas que o regime do III Reich estava atestado de doutoramentos nas suas elites). No entanto, tal não nos deve desviar do rumo a seguir:  é imperativo que o ensino de qualidade, tal como a possibilidade de todos poderem dispor das oportunidades nesse mesmo ensino, seja o objectivo lógico a atingir. 

Não podemos confundir oportunidade com obrigação, como o directório socialista parece fazer. Ninguém está obrigado a ter sucesso na vida, seja por que via for, mas todos devem ter oportunidades para tal, promovendo-se o mérito, o esforço e a criatividade. O estado começa a gerar mais prejuízo do que benefício quando tenta determinar o resultado final do homem, influindo de forma determinante na sua liberdade de escolha. A liberdade passa por ser livre para acertar e livre para falhar, para falhar melhor ou para falhar pior.

Em Portugal, na prática, a escolaridade obrigatória de 9 anos não está de todo adquirida, há ainda uma taxa de abandono escolar acima dos 36% e o nível de preparação dos que terminam o 9º ano é, em média, bastante baixo. Se 36% dos alunos não quer estar na escola até ao 9º ano, apesar de todo o facilitismo educativo, como será quando eles forem obrigados a ficar lá até ao 12º ? Tornar-se-á claro, o facilitismo terá de crescer, o número de alunos por professor irá aumentar, o número de alunos que não estão interessados em aprender irá subir em flecha. Tudo isto acontecerá para prejuízo dos professores que querem ensinar e dos alunos que querem de facto aprender. Em última instância, serão as capacidades reais da população portuguesa que ficarão prejudicadas.

 Com esta indomável obsessão de  não deixar cair os alunos mais fracos, vários resultados se adivinham: quando um aluno com notas de 18 ou 19 precisar de assistência escolar para poder entrar nos cursos onde por vezes não se consegue entrar por uma décima, vai encontrar um professor ocupado no campo de batalha que será, por certo, a sala de aula, esse local povoado por entidades adolescentes forçadas ao exílio escolar. O mesmo se passará com os alunos médios, os professores terão pouca disponibilidade para eles. Afinal de contas, a normalidade é indiferença.

Em Inglaterra, o problema do facilitismo têm-se vindo a agudizar: a percentagem de alunos que passam nos exames do 12º ano anda perto dos 100%. É já preciso cometer uma proeza para se conseguir chumbar num desses exames. Há alunos que mal sabem falar inglês e conseguem tirar boas notas. Como consequência, as faculdades ingleses ponderam já obrigar os candidatos a fazerem exames dentro das faculdades, pois torna-se já impossível distinguir quem são os verdadeiros bons alunos de nota “A” (a nota mais alta no sistema de avaliação inglês). Isto mostra que a tentativa de igualizar todos os alunos apenas faz com que o processo de selecção aconteça noutro ponto para que o mérito possa imperar, se a triagem não for feita no secundário, será feita na licenciatura, no mestrado, no doutoramento ou eventualmente no local de trabalho. A grande desvantagem do processo é a que impede que os elementos com qualidade se possam distinguir mais cedo, produzindo uma massa igualitária que formará uma economia paralela do talento. O ensino de massas será sempre um ensino menos dedicado, menos adaptado e mais nivelado por baixo, por forma a poder acolher toda a gente, independentemente da capacidade, gosto ou motivação de cada indivíduo. Como resultado, obteremos resultados semelhantes aos dos países de leste que possuem o legado do ensino comunista: têm uma população com boa formação superior, mas sem capacidade para gerar riqueza para o país, ou seja, são populações artificialmente formadas/educadas que precisam do “know how” do investimento externo para se desenvolverem.

Estas reformas vanguardistas são a consequência imediata do pensamento dominante que deriva da tábua rasa. Este pensamento acredita que o homem é, à nascença, uma folha em branco, e que a educação o pode moldar de forma a que ele se torne naquilo que quisermos. Em contraposição, a história encarrega-se de mostrar a ausência de veracidade deste clássico “whishful thinking”: mesmo quando colocado nas mesmas condições educativas, os homens continuam a revelar resultados diferentes porque são essencialmente produtos da sua genética que, apesar de serem influenciados por elementos culturais, têm limites já estabelecidos pela hereditariedade.

publicado por Filipe Faria às 01:41

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