O REPLICADOR

Julho 16 2009

- Então até amanhã ok? – Disse-me o Pedro perto das 11h20. Apressei-me a descer as escadas do metro de Roma, sabia que cada minuto contava. O meu pai continuava estranhamente impaciente que eu chegasse a casa, para mais havia um longo caminho a percorrer. Aquela hora os metros chegam com espaçamento de cerca de 15 minutos, perder um podia significar ter de esperar mais meia hora por um comboio. Passei o passe com celeridade pela entrada e orientei-me facilmente na direcção adequada.

Já na plataforma tratei de tomar consciência do que faria a seguir. Era necessário criar uma desculpa plausível para o atraso. Achei que combinar o “perder um comboio” com umas convenientes obras atrasadas na linha seria o mais adequado para um percalço de cerca de 50 minutos. Alegadamente tinha de estar à meia-noite em casa. Esta hora pode talvez parecer ridícula. Porém o facto é que os meus problemas vestibulares têm estado a fazer-se sentir com mais intensidade ultimamente, realidade acentuada pelo cansaço causado pelos exames.

Estava assim eu à espera do metro, procurando analisar o quão mal me encontrava. Tinha estado algum tempo à frente do computador o que também não era abonatório para a minha situação. Parei, e senti o cenário inclinar-se ligeiramente. Para a esquerda, e depois para a direita. Não era nada a que já não estivesse habituado. Sentei-me então num dos bancos, recostando-me na parede. Tinha deixado todos os meus livros em casa do Pedro, não tinha mala e não me apetecia carregar durante mais de uma hora pela rede de transportes públicos numerosos calhamaços. Comigo trazia simplesmente a minha bolsa, que faz vezes de carteira, e um livro de Haruki Murakami, o “South of the Border, West of the Sun”, baptizado com o nome da famosa música de Nat King Cole.

Já havia bastante tempo que não pegava num livro destes, ultimamente parecia que só via partidos políticos à frente. A descrição pausada da existência de uma cidade de província japonesa executada na perfeição por Murakami contrastava absolutamente com o encadear sucessivo das tipologias de partido. Não me encontrando tão abalado quanto isso decidi arriscar ler, sem tomar consciência do quão esotérico era mergulhar num tal livro.
Quando o metro chegou estava já imerso no livro, com relativamente poucas pessoas no interior do mesmo sentei-me distraidamente num banco e deixei-me levar. Faltavam numerosas estações para chegar à baixa e podia estar à vontade. Vagarosamente a própria carruagem foi-se tornando num fundo baço. Em primeiro plano apareciam campos de arroz, depois um comboio veloz. Após a sua chegada contemplei calmamente um bar de jazz nas ruas de Aoyama, percorrido por estes e aqueles. O protagonista, que até tinha um pouco a ver comigo, enlaçou-me na sua perspectiva de forma semi-definitva e assim, acompanhei-o no seu crescendo como personagem.

Quando ouvi a voz, difusa certamente, a anunciar a chegada à Baixa-Chiado não acordei do meu transe, simplesmente dei forma ao acto mecânico de mudar de linha, algo que já fiz seguramente umas boas centenas de vezes. Saí, desloquei-me em frente para esperar pelo próximo metro, isto sem tirar os olhos do livro. Agora estava a ouvir a chuva a bater nas ruas incansáveis de Shibuya, os pequenos cafés e as nuances de uma tarde em Tokyo ocupavam a minha imaginação. Começava a sentir saudades. Saudades do chão limpo, das pessoas bem cuidadas e corteses, dos edifícios infindáveis e da luz da noite.

Dei por mim a suspirar ligeiramente, já a caminho da estação do Rossio fui obrigado a sair daquele mundo. Fi-lo sem problemas, a minha memória serviu de ponte. Encostei-me assim aos limites das escadas rolantes deixando-as levarem-me vagarosamente até ao meu destino. Sabia que, apesar do desconforto físico que sentia, poderia voltar para o livro dentro de pouco tempo. Olhei para o relógio, tinha doze minutos até ao comboio. A estação estava ainda com pouco movimento, banhada pela quietude da noite. Tendo consciência que a situação cedo mudaria, aproveitei para caminhar um pouco pela calçada. Pus o livro debaixo do braço e ocupei-me a ouvir os meus próprios espaços contemplando a nobreza daquele local.

O comboio pouca gente tinha dentro, e dei por mim numa carruagem praticamente sozinho. Abri então de novo a obra de Murakami e encontrei-me mais uma vez no meu já conhecido bar de jazz em Aoyama. Mais uma vez o cenário esbateu-se e eu só conseguia ouvir a música que vinha do livro. Imaginava as paredes escuras, mas com classe, do local, os cocktails criativos e mais, as pessoas que os bebiam. Os dois personagens principais haviam-se encontrado passado alguns meses. Sentia-se alguma coisa de especial na já por si atmosfera única do bar. As mãos finas da personagem feminina acendiam um cigarro, olhando de forma sincera mas contida nos olhos do seu equivalente masculino. Ela pedia-lhe que ele a levasse a um certo rio, o rio no qual ela destilaria a sua existência. Desafiava-o a percorrer talvez o seu ser e a perceber o que significou o tempo em que estiveram separados. Ele, ponderando a situação, estava entre a sua vida agora estável e a memória de uma juventude nostálgica e até sonhada…

De repente senti-me puxado como num vórtice. Tudo desapareceu num dramático instante. Ao suspense sublime, às palavras ténues e pensadas, aos mundos feitos e refeitos daquele pequeno imaginário substituíram-se guinchos atrozes. O livro continuava nas minhas mãos, no entanto uma distância estridente para o mesmo havia nascido de forma bárbara. Quatro “indivíduos” vestidos de forma folclórica tinham entrado no comboio. Gritavam em plenos pulmões no seu dialecto, como se eu tivesse que ouvir uma qualquer verdade universal. A estes primeiros juntou-se um grupo de turistas da América latina, um deles com a cliché T-shirt do guerrilheiro/assassino Cheguevara (está mal escrito propositadamente já agora). Estes dando também azo aos seus dotes vocais. Tudo parecia um enorme zoológico, em que o barulho pouco civilizado daquelas pessoas se misturava livremente e impedia qualquer desfrutar mais cível. Fui forçado a consciencializar-me de tudo. Tinha umas boas doze paragens até casa, as quais seriam acompanhadas da berraria animalesca já referida. Como se não bastasse tinha de estar permanentemente a vigiar as minhas posses, não fosse algum xunga que por ali passasse achar-me “factor de diferenciação social” e executasse o subsequente processo de igualitarização económica. Da descrição da cidade de Kanazawa, com a sua beleza natural e solenes templos e castelos, tinha sido arrastado para um subúrbio lisboeta. Moldado à martelada pelo nosso tão omnipotente Estado, cioso do “bem comum”.

Lembrei-me de onde estava. Não, não era Aoyama, muito menos Kanazawa. Os meus olhos só viam vandalismo, decadência e discricionariedade. Uma atmosfera na qual a lei está em cheque a priori. Quando cheguei a Mem-Martins olhei rapidamente para o que me rodeava. Tinha de ser rápido a descer as escadas da estação não fosse “haver azar”, daí até casa ia pelo caminho mais longo. Era o mais seguro, já que nas ruas não existe nem comunidade, nem estado, nem nada convém procurar a via menos anárquica.

Os escritos desafiando a polícia e honrando o assalto e a destruição seguiam-se pelos muros podres. Nem o ar da noite conseguia aliviar aquele cheiro decadente a lixo humano que me perseguia, contra o qual o Estado não quer fazer nada. É preciso vergar, claro, o cidadão trabalhador, o estudante, o idoso àqueles que nada mais fazem do que persegui-los e parasitar a sua existência. A utopia e a demagogia fazem assim vítimas diariamente. E o Estado contínua alegremente a falar de multiculturalismo e de redistribuição de rendimentos. Palavras que soam sempre bonitas nos dias de hoje. Agora dar de quem a quem é que é uma questão que convém especificar menos. Não vá o povo perceber que se podia dar melhor qualidade de vida a um velhote no interior se se parasse de subsidiar as navalhas com que nos roubam.

Nos histerismos programáticos aos quais vamos assistindo esquecemo-nos por vezes das liberdades mais básicas. A de ler um livro pacificamente num comboio, a de poder andar na rua sem olhar as sombras, a de poder deixar os nossos filhos nas escolas sem medo, a de ver o nosso espaço privado respeitado.

E agora que penso nisso, todo aquele chinfrim parecia-me bastante consequente com a verborreia odiosa do senhor Louçã. Quanto a mim? Prefiro Kanazawa.

 

publicado por Diogo Santos às 03:04

Junho 22 2009

Os princípios dos fins, como Robert Nozick lhes chama, aplicam princípios ahistóricos de distribuição a uma sequência temporal. Mas irão sempre existir informações históricas que dizem respeito a circunstâncias passadas de acções por parte de pessoas que criam diferentes direitos às coisas. Por exemplo, em regra, há uma razão para um prisioneiro estar numa prisão. Se a teoria de John Rawls for aceitável e verdadeira, toda a gente teria de concordar racionalmente em abandonar o contexto histórico para atingir o fim da igualdade, e que essa decisão seria moralmente aceitável.

No seguimento deste argumento de Nozick, é possível colocar a seguinte pergunta: Numa sociedade rawlsiana, onde ninguém tem culpa de ter nascido com mais ou menos talentos e todos devem ser compensados pela sua falta de virtude, deve um criminoso ser punido? Ou deve um criminoso ser encarado como alguém que teve azar na distribuição das virtudes e dessa forma não ser punido de todo, dando-lhe apenas mais oportunidades para que possa colmatar essa falha? Assim sendo, acabar-se-ia a punição (como conceito). 

Se Rawls considera que os humanos nascem com características inatas, deve-se então considerar teorias psicobiológicas que atribuem a tendência para a criminalidade e para a transgressão de regras a elementos biológicos, como a testosterona ou distúrbios neuronais e hormonais. Essa discussão já existe nos dias de hoje, mas qualquer justificação do crime através de explicações genéticas não é normalmente aceite, pois continuamos a acreditar no livre arbítrio, que nos indica que quando alguém comete um crime, não foi coagido pela sua genética a fazê-lo, e mesmo que o seja, continuamos a tratar a questão do crime como se não fosse, responsabilizando o indivíduo. Assim sendo, ou consideramos que as igualdades de oportunidades Rawlsianas eliminariam por completo a criminalidade, ou a questão mantém-se: devemos ou não punir criminosos numa sociedade onde ninguém deve pagar pela falta de virtudes inatas?

 

publicado por Filipe Faria às 23:20

Junho 10 2009

Torna-se caricato assistir a uma daquelas discussões entre os cruzadísticos defensores da bandalheira social sobre a criminalidade.
 
A determinado ponto há um que diz sempre: "Na sociedade actual é inevitável", seguidamente todos os outros expressam pesar e fazem esgares pesados de concordância. Como se a modernidade ou algum ente abstracto fosse culpado inalienável disto mesmo.
 
É nestas alturas que a minha japonofilia me acorre mais rapidamente e intensamente. A minha cidade favorita, Tokyo, vem-me imediatamente à cabeça. O meu amigo Tsubasa a marcar lugar numa mesa dum centro comercial com o seu portátil para irmos buscar comida a outro andar é o próximo "zoom" que me ocorre.
 
Pois é, esta singela cidade tem o crime a decrescer há 7 anos seguidos, e não, não existe um estado policial. Trata-se da capital da segunda maior economia mundial, uma cidade de 30 milhões de pessoas em que se cruzam várias formas de vida. E simplesmente todos os argumentos caiem na base.
 
O que eles chamam "inevitabilidade" eu chamo "laxismo social e estatal", o que eles chamam "consequências da sociedade moderna" eu chamo "consequências da desresponsabilização".

publicado por Diogo Santos às 14:45

Junho 09 2009

http://oreplicador.blogs.sapo.pt/tag/criminalidade

 

Porquê o aumento da criminalidade?
Miséria e Pobreza! Como grita a nossa auto denominada esquerda libertária! Pois… é falso, a questão é muito mais profunda do que isso. Quando numa “manifestação pacífica” (LOL) na Belavista os “míseros e pobres” exibem motas e carros de alta cilindrada, vestuário de marca e outros sinais externos de “sumptuosidade” é um pouco excessivo falar desse móbil como determinante comportamental (como se houvesse sequer determinantes comportamentais… mas adiante). Mesmo ignorando estas evidências e tratando tal questão como lateral ou circunstancial as incoerências continuam a cumular-se. O ser humano na sua génese possui uma característica particular chamada livre arbítrio. Em termos muito pragmáticos significa a capacidade de definição de acções livremente pelo mesmo. É nessa premissa que se baseiam noções como o direito ao voto e diversas liberdades políticas actuais, muitas delas aliás caras a essa esquerda que dá os berros histéricos com os quais comecei o texto. Para acções construtivas como o voto essas populações exercem livre arbítrio mas para o vandalismo, roubo e desacato já são “zombies” do determinismo… e há quem não ache isto contraditório.
Estando o behaviorismo refutado há pouco menos de 150 anos, salvo erro, é com segurança que digo que o meio tem um potencial condicionante mas não determinante. Se fosse determinante não existia nenhum tipo de mobilidade social já que os indivíduos eram escravos desumanizados sem mente vítimas do contexto. Monstros com nome de fenómenos sociais e sem qualquer tipo de autonomização. Na tentativa de desculpabilização barata da esquerda retiram através desse pressuposto qualquer característica que não seja a de bestas cegas e raivosas a esses indivíduos. A responsabilização dignifica o indivíduo e dá-lhe o móbil decisório, ou seja respeita ou seu espaço e expressão.
Não podemos continuar reféns destes dogmas deterministas e paternalistas no pensar e agir quanto a este fenómeno. A realidade remete para uma questão mais óbvia. Porque é que os criminosos se dão ao luxo de agirem como agem?

 

publicado por Diogo Santos às 00:36

Maio 25 2009

O Problema da responsabilização

         Como modo de apresentação dentro deste blogue fui desafiado a mandar a minha pedrada no charco, ou seja, escrever e divagar mas de uma forma séria e estrutural sobre uma questão que se tenha vindo a definir como fulcral e controversa na sociedade portuguesa. Das muitas questões que há a colocar decidi remeter para a questão da criminalidade nos chamados “bairros problemáticos”.

         As razões que me levaram a isto são diversas. Começando pelas de ordem política e social parece-me que se tornou tabu chamar as coisas pelos nomes, ou seja adereçar os criminosos como criminosos. Desde a instituição da corrente República que se instituiu uma lógica de desresponsabilização e branqueamento moral de determinados tipos de crimes por detrás de bandeiras aparentemente nobres mas que no fundo entregam o ser humano à menoridade.

         Em segundo lugar, e também derivado da primeira exposta, será coerente considerar que o estado vive numa repetitiva minimização da questão e assente na constante violação da ordem constitucional. Esquece-se que sem segurança é impossível defender a integridade do indivíduo e do seu trabalho, esquece-se que sem segurança não há estado de direito. Perante promessas vagas de resolução a longo prazo suspendemos direitos aos portugueses usando os recursos dos mesmos para uma reabilitação criminal que não passa de teórica.

         Em terceiro lugar é importante negar argumentos como “isto é sinal dos tempos”, “característica intrínseca da modernidade”, “resultado das disparidades sociais”, entre outros absurdos perfeitamente refutáveis para uma mente minimamente crítica que entrega a questão a um quase determinismo divinista e não à esfera da actuação de um estado, onde ela pertence.

         Decerto existem mais alguns pontos na forma preconceituosa que esta questão é adereçada que mereceriam ser estatuídos mas penso que os mesmos estarão em relação com os expostos na medida em que me sinto confortável partindo destes.

 

         O problema da criminalidade é de uma natureza complexa decerto e tem no seu tratamento uma carga ideológica fortíssima que impede uma resolução ou análise coerente. Como qualquer um pode denotar o problema só se tem vindo a agravar face ao laxismo sistemático a que foi entregue. Logo declaro desde aqui o pressuposto de esta se tratar de uma análise a mais desapaixonada possível baseada na análise lógica dos factos.

 

Continua...

 

publicado por Diogo Santos às 23:58

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