O REPLICADOR

Agosto 26 2009

“Behavioral Science is not for Sissies”

Steven Pinker

 

Estamos perante constantes desenvolvimentos nas áreas da Psicologia, da Neurociência ou da Genética Comportamental. Nos dias de hoje, quem trabalha nas áreas da ciências comportamentais não pode esperar uma vida fácil: explorar cientificamente o comportamento do ser humano é uma actividade que irá sempre sofrer resistências por parte do animal político que é o homem. Desta forma, quem apresenta novos dados na área do comportamento humano está sujeito a ser atacado de forma inexorável pelos que zelam pelo “status quo” actual.

 

Vivemos repletos de crenças pois encontramos nelas bases de sustentação para o nosso dia-a-dia. Consequentemente, trememos quando os dados empíricos as abanam. Tal como Steven Pinker advoga no seu livro clássico “The Blank Slate”, as 3 grandes doutrinas que dominam a nossa vida em sociedade são: a doutrina da “Tábua Rasa”, a do “Bom Selvagem” e a do “Ghost in the Machine” (o fantasma na máquina). Juntas, elas formam a santíssima trindade contemporânea:

 

1- A doutrina da “Tábua Rasa” é a que postula que nascemos todos iguais e sem capacidades inatas (inteligência, comportamento, temperamento, etc). É assim a educação e a cultura que nos moldam por completo, definindo por inteiro aquilo em que nos tornamos. É uma doutrina especialmente acarinhada no modelo de ensino das ciências sociais onde o ênfase dado ao factor “cultura” é totalitário em relação a quaisquer outros factores.

 

2- A doutrina do “Bom Selvagem” é postulada por Rousseau: defende que o homem nasce bom e que apenas se torna mau devido à sociedade e às desigualdades sociais.

 

3- Por último, a doutrina do “Ghost in the Machine” revela a separação “descartesiana” do corpo e da mente, dando à mente um estatuto imaterial a que normalmente chamamos de “alma”. Esta última doutrina acredita que a alma vive no corpo e que depois do corpo biológico morrer ela continuará a existir mesmo sem a presença deste. É assim uma doutrina de índole religiosa.

 

À medida que novas descobertas nestas áreas cientificas vão destruindo estes modelos sociais vigentes as vozes de oposição fazem-se sentir.

 

Quem contesta ferozmente a destruição da “Tábua Rasa” é a esquerda política: se a ideia, generalizada, de que somos tábuas rasas for destruída por novas descobertas científicas que enfatizam o papel estruturante dos genes nas capacidades comportamentais dos seres humanos, então, por certo, a legitimidade para a esquerda alegar que basta dar condições às pessoas para que elas cheguem todas aos mesmos resultados cai imediatamente pela base. As pessoas, independentemente das condições que tenham, pelo simples facto de não terem todas as mesmas capacidades, nunca chegarão aos mesmos sucessos. Da mesma forma, a ideia de que os que têm capacidades favoráveis ao contexto precisam de entregar os rendimentos provenientes das suas capacidades para os que não as têm pode começar perigosamente a parecer uma forma de escravidão. No fundo, o que o fim do mito da “Tábua Rasa” faz é colocar um fim à lógica esquerdista de construtivismo social como modelo de desenvolvimento, porque uma parte considerável do ser humano é inata e não social. A mensagem que a esquerda abomina é a seguinte: “mexam à vontade através do construtivismo social mas saibam que não podem mudar o fundamental da natureza humana que é fortemente influenciado pelos genes”. Por outras palavras, adaptando a este caso as famosas palavras de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: a esquerda quer mudar tudo para que tudo fique igual. Com a destruição do mito da tábua rasa por parte das ciências comportamentais, grande parte do discurso esquerdista fica fragilizado.

 

A esquerda tem igualmente na doutrina do “Bom Selvagem” uma das principais crenças que suporta a sua mundividência política. O homem nasce bom mas as desigualdades sociais e a competição em sociedade tornam-no mau. Com base nesta ideia defendem que a criminalidade é explicada com a pobreza (apesar de existirem muitos pobres honestos) e que o crime se combate com subsídios de reinserção em massa, assim como ajudas infindáveis aos pobres, e não com a coerção das forças policiais. Cada vez mais, os estudos empíricos confirmam que a evolução darwinista não se faz através da bondade do homem mas sim, como é possível aferir no mundo dos animais, de formas por vezes cruéis. Mas está o homem em linha com animais? Segundo inúmeros dados revelados por Steven Pinker em “The Blank Slate” a resposta é sim. É por esta via revelado que as tribos indígenas da América do Sul e Nova Guiné, que vivem em condições pré-civilizadas, mostram uma taxa de mortes de homens às mãos de outros infinitamente superior à da civilização ocidental do século XX e XXI (com as duas grandes guerras incluídas). Ao contrário da ideia idílica de que essas tribos vivem alegremente em paz com a natureza, o que é divulgado por estes estudos são práticas que vão desde o canibalismo a lutas até à morte pelo domínio das fêmeas. Idealizou-se os povos indígenas para condenar a expropriação das terras levada a cabo pelos colonos ocidentais, mas fazer deles os representantes do “Bom Selvagem” é, em si mesmo, um erro antropológico. Contudo,  a evolução não se faz nem exclusivamente de bondade nem exclusivamente de crueldade. Resumidamente, processa-se através de uma mistura de crueldade e altruísmo que, em última instância, são reveladores do interesse egoísta que move o indivíduo.

 

Por fim, as descobertas no campo da neurociência mostram evidências com efeitos dramáticos para a doutrina do “Ghost in the Machine”: o comportamento é controlado por circuitos no cérebro que seguem as leis da química. Concomitantemente, se alterações físicas no cérebro alteram o comportamento de uma pessoa, a noção de “alma” fica sem validade argumentativa. Desta vez, sem surpresa, os ataques não vêm da esquerda, mas sim da direita religiosa. A crença na bíblia por oposição ao evolucionismo tem gerado fervorosos debates nos Estados Unidos entre criacionistas e evolucionistas. Na Europa, devido a uma população comparativamente laicizada, este debate é pouco expressivo. Nos EUA não é anormal ouvir a direita religiosa explicar fenómenos como o massacre da escola secundária de Columbine (onde 2 adolescentes armados matam colegas indiscriminadamente) com a “educação evolucionista que ensina que os humanos são apenas macacos glorificados” tal como disse o republicano Tom Delay. Contudo, há também elementos da direita que apesar de concordarem com o evolucionismo acham que é bom que o povo mantenha a sua crença na religião para que o mundo deles não desabe. “Para quê roubar-lhes o sonho?” parecem dizer. Tal como o escritor de ciência Ronald Bailey observou: muitos conservadores não só concordam com Karl Marx quando ele escreveu que a religião é o ópio do povo como ainda acrescentam “graças a deus que assim é”.

 

Nesta luta observa-se um fenómeno curioso. Por vezes a esquerda e a direita conservadora religiosa aliam-se nesta luta anti-ciência comportamental. Muitos criacionistas usam citações de esquerdistas fervorosos (que abominam a religião) quando se trata de lutar contra as novas descobertas científicas. Quando há um inimigo comum, eles tornam-se amigos. Em Portugal, fiquei a saber, através de uma conferência sobre o Darwinismo na FCSH, que existe (pelo menos na altura existia) uma directiva do ministério da educação que advoga que o darwinismo não deve ser aprofundado no ensino público. Torna-se claro, esta aliança política de inimigo comum faz-se sentir também do ponto de vista institucional. 

 

Tal como os liberais são atacados tanto pelos socialistas como pelos conservadores religiosos, a ciência comportamental é também alvo dessas duas facções que temem que as novas descobertas coloquem em causa a sua legitimidade ideológica. Podem fazê-lo durante algum tempo, mas será impossível fazê-lo para todo o sempre. Chegaremos a um dia em que as evidências da ciência terão de ser equacionadas pelo pensamento político e aí novos argumentos terão de ser esgrimidos. O que fazer com este novo conhecimento e quais as suas implicações sociais são questões que irão definir o próximo passo da “coisa” política...

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 17:42

Agosto 10 2009

Tendo a concordar em larga medida com as análises políticas feitas por Henrique Raposo. Contudo, há um ponto onde parecemos estar em profundo desacordo: a forma como encaramos o papel da ciência. O Henrique já várias vezes mostrou a sua indignação perante o facto de a ciência se cruzar com a política, como se a política pudesse viver sem uma influência substancial da ciência. Depois de críticas a James Watson e de comentários cínicos sobre o "Deus Darwin”, ele escreve num texto do "Expresso" que o nazismo existiu porque os nazis julgavam-se dono da ciência da biologia e o comunismo soviético existiu porque os comunistas julgavam-se donos da ciência da história.

Na verdade, como ele sabe, nada disto é ciência: nunca a teoria da evolução mostrou que há raças superiores ou inferiores, mas sim indivíduos mais ou menos bem adaptados ao contexto onde vivem. É verdade que os membros da mesma família étnica tendem a ter características mais semelhantes entre eles do que com outras famílias éticas, mas daí a uma extrapolação que leva à superioridade racial vai um salto tão grande como da ciência para a moral religiosa. Mesmo que a teoria da evolução confirmasse que os alemães (para usar este caso concreto) estavam mais bem adaptados ao contexto do que qualquer outra raça, a decisão de eliminar directamente a raça menos adaptada seria sempre de carácter moral/político; por outras palavras, o que a ciência faz é verificar empiricamente os factos, o esclarecimento do real, e o que o político faz é usar esses factos de forma (i)moral para servir os interesses de uma determinada agenda. Em relação aos comunistas e à ciência da história, tal faz pouco ou nenhum sentido, porque a ideia de que caminhamos para o fim de história, onde o homem deixa de ser explorado pelo homem, não tinha, nem tem, qualquer prova empírica que o comprove. Estamos perante uma ideia de carácter literário e não de carácter científico, assim como a teoria da tábua rasa que a sustenta.

A influência da ciência na política é evidente em todos os domínios: só se pode organizar a sociedade sabendo qual é o actual potencial dela. É a ciência que informa o político sobre o que é possível delinear na vida da polis. A ciência informa o político da possibilidade de existirem métodos de cura para doenças que vão determinar a forma como vai organizar o sistema médico. A ciência informa o político das potencialidades tecnológicas de uma sociedade, o que vai determinar a forma como este vai estruturar as áreas preferenciais de desenvolvimento. A ciência informa o político da esperança média de vida de uma população o que ajuda a definir políticas de natalidade. E se considerarmos que nada disto é competência do estado e que queremos um estado libertário apenas dedicado à segurança, a ciência irá informar o político das suas potencialidades bélicas para que este esteja bem ciente delas na hora de tomar decisões securitárias, assim como geo-estratégicas.

Compreendo o medo dos liberais. E se um dia um cientista surgir com uma ideia empiricamente comprovada que, para que ela seja colocada em prática em toda a extensão, precise de um estado centralizado todo poderoso? Um leviatã de carácter deliberadamente científico levantar-se-ia, colocando a defesa da liberdade individual em risco, juntamente com os seus checks and balances. Pois bem, esse estado já existe e basta-lhe a retórica moral, nem precisa da ciência, chama-se socialismo. Se bem que, em última instância, todo o estado, independentemente da filosofia que o sustenta, se baseia em pressupostos morais como forma de legitimar o poder.

O princípio do Cisne Negro de Karl Popper diz-nos que mesmo que nunca tenhamos visto um cisne preto não quer dizer que ele não exista, e que todas as provas científicas são válidas até surgir uma prova em contrário. Uma ideia científica que não é passível de ser refutada não é digna de possuir o epíteto “científica”. Porém, no meu entender, isto não quer dizer que nenhuma descoberta científica deve ser desvalorizada, tal significa que a avaliação moral da utilização dessa descoberta deve pesar os prós e os contras da sua utilização sem esticar “a corda” ao limite. O cisne negro pode sempre surgir e, como tal, a aplicação de uma descoberta científica leva a hediondos resultado não previstos inicialmente. Não obstante, se se levar ao extremo a desconfiança do objecto científico, o progresso torna-se inexistente e o estado tornar-se-á o destruidor da inovação científica. Inovação: conceito que é caro a tantos liberais que sabem que é dele que depende a criação de riqueza e o bom funcionamento do mercado. Ao pararem este processo, este liberais estão de facto a ser conservadores, dando razão aqueles que os acusam de serem conservadores disfarçados.

A ciência existe para tornar os elementos discutidos pelos agentes políticos o mais claros possível. A ciência é a actividade que visa “o que é” e não “o que deve ser”. Esta última é do campo político, informado devidamente pelo “o que é”.

O senhor que se segue será insuspeito para o Henrique Raposo ou para qualquer liberal contemporâneo. Concomitantemente, podemos ler este excerto de Friedrich Hayek onde ele não se coíbe de usar constatações cientificas para justificar as tuas ideias liberais:

“The boundless variety of human nature--the wide range of differences in individual capacities and potentialities--is one of the most distinctive facts about the human species. Its evolution has made it probably the most variable among all kinds of crea­tures. It has been well said that "biology, with variability as its cornerstone, confers on every human individual a unique set of attributes which give him a dignity he could not otherwise possess. Every newborn baby is an unknown quantity so far as potentiali­ties are concerned because there are many thousands of unknown interrelated genes and gene-patterns which contribute to his make­up. As a result of nature and nurture the newborn infant may be­come one of the greatest of men or women ever to have lived.” *

F. Hayek

 



* http://www.woldww.net/classes/General_Philosophy/Hayek-equality.htm
 

publicado por Filipe Faria às 20:26

Julho 19 2009

Segundo este artigo, praticar felação com regularidade pode diminuir significativamente o risco de cancro da mama.

 

"Women who perform the act of fellatio and swallow semen on a regular basis, one to two times a week, may reduce their risk of breast cancer by up to 40 percent, a North Carolina State University study found."

 

"In a study of over 15,000 women suspected of having performed regular fellatio and swallowed the ejaculatory fluid, over the past ten years, the researchers found that those actually having performed the act regularly, one to two times a week, had a lower occurrence of breast cancer than those who had not." 

 

"Only with regular occurrence will your chances be reduced, so I encourage all women out there to make fellatio an important part of their daily routine," said Dr. Helena Shifteer, one of the researchers at the University. "Since the emergence of the research, I try to fellate at least once every other night to reduce my chances."

 

"Almost every woman is, at some point, going to perform the act of fellatio, but it is the frequency at which this event occurs that makes the difference"

 

publicado por Alexandre Oliveira às 16:04

Julho 14 2009

Estudos baseados em milhões de mortes ocorridas em populações homogéneas revelam que as pessoas mais baixas, com corpos mais pequenos, têm taxas de mortalidade inferiores e menos doenças relacionadas com dietas, especialmente depois da meia idade. As pessoas mais baixas apresentam assim uma longevidade maior do que as pessoas mais altas.

Este fenómeno é verificado também nos animais: os animais mais pequenos tendem a viver mais tempo do que os maiores da mesma espécie. Esta tendência (correlação) pode igualmente ser observada nos homens e nas mulheres, sendo os homens, em média 8% mais altos do que as mulheres e, adicionalmente,  revelam uma esperança de vida 7.9% mais baixa do que a das mulheres.

Os autores destes estudos alegam que, com o desenvolvimento da engenharia social no campo da genética, irá ser possível para os pais aumentarem as alturas das suas crianças no futuro mais próximo. Contudo, alertam também para as implicações acima descritas.

Os paradigmas da selecção natural estão naturalmente a mudar. Em sociedades onde as elites são de índole cognitivo, a inteligência é a característica a seleccionar pelas mulheres. Ser alto, forte e gladiador vai perdendo o seu interesse numa sociedade onde o poder é de carácter  intelectual.

O mais provável é que daqui a uns tempos as pessoas estejam a perguntar aos geneticistas se é possível tornar o filho delas mais inteligente, em vez de lhes perguntarem se é possível tornar o seu filho mais alto e mais forte.

 

publicado por Filipe Faria às 00:35

Política, Filosofia, Ciência e Observações Descategorizadas
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