O REPLICADOR

Maio 23 2011

 

 

 http://www.ionline.pt/conteudo/125008-jovens-do-rossio-negociar-divida-ja

 

Vai-se tornando comum o comentário à notícia mas esta foi simplesmente irresistível. A geração à rasca tem-me dado muito com que trabalhar e voltaram a exceder-se.

 

É muito fácil bater nos jovens mas pelos vistos é necessário, não vão os casalinhos apaixonados deixar de ter outro espaço para a marmelada. A geração à rasca tomou o Rossio com novas manifestações que, segundo os dirigentes que não são dirigentes, porque o movimento não tem lideres, são absolutamente espectaculares já que há gente a falar em público com megafones que nunca antes o havia feito. Eu diria que estavam melhor calados mas depois chamavam-me fascista.

 

Quanto à lengalenga, é a do costume mas com um "twist". Agora já não querem mobilizar só os jovens para uma causa sem causa (a não ser que levantar Portugal meramente com barulho seja uma causa), desejam que se forme uma comissão de avaliação da dívida, distinguindo a parte dita "verdadeira" da dívida da parte que "é dívida odiosa, causada pela especulação". Como pelos vistos se fez na Islândia que tem sido divinificada nos últimos tempos.

 

A sério... leiam um livro de economia... façam uma tarde de raciocínio... até o Krugman percebe isto, acho.

 

Não existe dívida odiosa, existe dívida. A dívida não nos foi imposta, o estado é que pediu o dinheiro emprestado em nosso nome. E sim, os juros foram aumentando à medida que os especuladores perdiam a fé na capacidade de pagamento de Portugal. É de estranhar?

 

Há um assunto bastante importante que deve também ser comentado. A especulação. Esta é vista por muitos como um organismo de destabilização do mercado que sobe os preços, seja por pressão emotiva, seja por acção intencional - por exemplo pelos movimentos enormes que os hedge-funds são capazes. Os especuladores são incompreendidos porque, afinal de contas, estão a fazer dinheiro ao tirar produtos do mercado e aumentar os preços deles. Mas como o Hazlitt disse umas quinhentas vezes no "Economics in one lesson", as pessoas não estão a ver o assunto em profundidade.

 

O especulador tem uma função reguladora na mão invisível que é imprescindível ao bom funcionamento do mercado numa perspectiva de longo prazo. A economia evoluiu o suficiente para ultrapassar a fase do "guardar os cereais e sementes no celeiro para não morrer no inverno" mas isso não quer dizer que não seja necessário. Esse é o objectivo não intencional dos especuladores. Estes tentam obter o máximo de informação sobre determinados produtos, objectivando (com umas quantas contas matemáticas, magia negra e muita sorte) se o preço dos produtos irá aumentar ou não no futuro. Lembremos que este aumento reflecte habitualmente uma escassez. Os especuladores compram o produto agora a um preço mais baixo para vender mais tarde com este mais alto. E normalmente é aqui que o bom político pára e faz as suas observações superficiais na tentativa de captar votos através do ódio. Mas a história continua. Se realmente houver uma escassez futura do produto então o especulador obtém lucro. Ao mesmo tempo, saliente-se, é aliviada a mesma escassez com a introdução desses produtos no mercado.

 

Ou seja, o especulador tem uma função de restringir o consumo de modo a que não haja carência de todo (escassez "como no tempo dos nossos avós", em que simplesmente se esgota o produto).

 

E com o preço mais caro em tempo de abundância auxilia-se o mesmo facto já que se reduz o consumo, mantendo os stocks de reserva maiores.

 

E se não houver escassez? Então o especulador só aumentou os preços? Não. Se o produto não sofrer uma quebra ou ruptura, o especulador vai perder dinheiro, tal como é saudável numa economia sem regulações, e terá que pôr o produto no mercado, baixando o valor deste. Assim, num caso sem problemas, a flutuação de preços da responsabilidade do especulador é compensada no futuro em que a sua aposta caia por terra.

 

Há depois o problema dos "instrumentos avançados de especulação", como por exemplo os futuros. Os futuros não passam de instrumentos que reduzem o risco comportado pelos especuladores mas ao mesmo tempo reduzem a sua margem de lucro. O sistema é o mesmo, o da compra e da venda.

 

Finalmente o problema que muitos pensam ser o mais importante: a pressão enorme causada pelos hedge-funds, fundos de investimento tão massivos que conseguem descaracterizar as "verdades" do mercado. Um caso foi o "black-wednesday" de 1992 em que George Soros mobilizou dinheiro suficiente para a pressão no Reino Unido ser suficiente de modo a que estes não tivessem solução senão permitir que a libra voltasse a flutuar. Se removermos a intervenção estatal do UK na moeda, então o Soros não teria feito 1.1 biliões de dólares nesse dia.

 

As firmas demasiado grandes, além do facto de habitualmente serem criadas por alguma intervenção estatal que permite que estas cresçam, são um risco para e economia e humanidade? Sim, é possível. Do mesmo modo que qualquer outro poder é. Mas isso não é razão para o povo entregar as rédeas aos governos para estes as conterem. Eliminamos um leviatã para criar outro. E ficamos eternamente contentes porque temos a ilusão de que a democracia controla o governo. Com a diferença que os gigantes do mercado vivem para nos servir melhor ou pior e se não gostamos deles podemos abandoná-los e ir ao shopping do lado.

 

Como uma das activistas do movimento geração à rasca admitiu: "Quando os mecanismos democráticos não funcionam, cabe ao povo fazê-lo, para que exista justiça social", que eu leio "o povo é quem mais ordena mas não através da democracia".

 

 

Para quem quer ler mais sobre o tema da especulação como organismo benéfico, leiam este excerto do livro de Walter Block "Defending the undefendable"

 

http://mises.org/daily/4466  

 

 

 

PS: aparentemente a Raquel Freire diz que Portugal "acumula uma dívida que não se sabe de onde vem". Não se preocupem que se eu a vir na rua explico-lhe. Sou eu a ser um bom samaritano como é costume.

publicado por João Rodrigo às 12:15

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