O REPLICADOR

Abril 16 2011

 

 

 

 

Num tempo de crise económica todos querem ajudar e graças a isso têm surgido incontáveis movimentos de compra de produtos nacionais para as pessoas, no tempo livre que têm das greves e dos manifestos, poderem esbanjar o seu dinheiro ganho arduamente, em 50% dos casos, a chular os trabalhadores dos campos de algodão (leia-se privados) por meio do estado.

 

Sendo libertário (que é sempre mais seguro que dizer liberal e ser confundido com democrata nos EUA), sou de todo a favor que as pessoas façam as escolhas dos produtos que lhes apetece, por mais estúpidas que sejam. E este é um dos casos; talvez seja melhor repeti-lo:

 

 

Comprar produtos nacionais só porque são nacionais é estúpido!

(à moda do Krugman que pensa que se deixar umas linhas de suspense antes de dizer uma bacorada faz dela mais verdadeira)

 

Os argumentos principais que os economistas de bancada utilizam para suportar esta acefalia são “mantém cá o dinheiro portanto Portugal fica mais rico” e “cria postos de trabalho porque estamos a incentivar a economia portuguesa”.  Como Hazlitt costumava escrever (umas 200 vezes no economics in one lesson) as pessoas esquecem-se das consequências invisíveis, aquelas que não estão logo à vista.

 

Quando compramos um produto não pelo seu preço ou pela sua qualidade mas pelo 560 no seu código de barras estamos a suportar uma empresa que não é competitiva. Essa empresa está a retirar recursos da humanidade (trabalhadores, espaço de fábrica, capital na forma de máquinas e outros produtos inacabados) e a transformá-los no bem de consumo que não é rentável. Isto tem uma consequência lógica, pela lei da oferta e procura todos os bens adquiridos pela empresa tendem a aumentar o seu preço e a serem desviados de empresas potencialmente mais produtivas para aquelas que simplesmente não são capazes. Este fenómeno não enriquece Portugal, empobrece a humanidade por inteiro, baixando o nível de bens ao dispor de cada indivíduo. Quanto ao dinheiro que supostamente fica em Portugal, precisamos de ver por onde passa este em cada caso:

 

Imaginemos o Hugo que decide comprar uns sapatos portugueses que são de pior qualidade e mais caros que os equivalentes, vá, coreanos. O Hugo não vai ter tanto dinheiro ao final do mês quanto tinha e portanto não vai passar pelo café da esquina e tomar um bom pequeno-almoço, em suma, ficou sem dinheiro, com uns sapatos desconfortáveis e o estômago vazio. O dinheiro que ele pagou à indústria do calçado serviu para cobrir despesas maiores e portanto o nível de investimento do capital que ele lá depositou será baixo e provavelmente inadequado já que falamos numa empresa que logo de início só sobrevive não por mérito próprio mas por campanhas de caridade mal direccionada. E o homem do café está a mais um passo de ficar sem emprego portanto qualquer posto de trabalho que se crie no calçado vai ser removido de outro local, estrangeiro (e os grandes nacionalistas dirão que vivem bem com isso sem saberem das consequências das exportações) e português.

 

Agora imaginemos que o Hugo comprou os sapatos espanhóis. Ele vai ter dinheiro no bolso que vai gastar no café (que costuma ser português) ou depositar no banco. Esse dinheiro no banco vai ajudar o capital dessa instituição e (numa economia libertária) baixaria os juros dos empréstimos o que geraria investimento em novos bens de capital. Na economia BCÉmica o dinheiro em banco é relativamente indiferente com a excepção que ao menos o Hugo ainda pode agarrar nele e investir ou consumir mais alguma coisa.

Quanto à empresa portuguesa de sapatos, vê-se forçada a baixar os preços tornando o processo do seu fabrico menos dispendioso (muitas vezes recorrendo ao empréstimo para adquirir nova maquinaria – capital – que o Hugo ajudou a financiar) ou a fechar as portas, disponibilizando os seus recursos para uma outra empresa os utilizar mais sabiamente.

É óbvio que o Hugo como indivíduo ficou a ganhar com este processo mas também ajudou na mobilização económica do país e do mundo, no movimento dos recursos para os pontos onde são mais rentáveis.

 

Compra nacionalista traduz-se em proteccionismo. E como tal podemos usar todos os argumentos habituais da mesma forma. O proteccionismo leva ao aumento dos preços e descida da qualidade de vida e é uma luta contra a alocação correcta do capital. Se Portugal não é um bom sítio para fabricar sapatos então importemos os sapatos e exportemos outros artigos que produzimos bem e barato para compensar essa exportação (porque afinal de contas não podemos levar nada sem deixar algo em troca, quanto mais não seja um título de dívida).

 

Agora se Portugal não consegue hoje ser competitivo em qualquer indústria então é necessário rever o que o faz assim. Talvez seja o facto de todo o capital estar investido em alcatrão… ou então que o estado social explore as empresas, deixando-as sem margem de manobra ou lucro, ou sequer um zero de défice em caixa no fim do ano.

 

publicado por João Rodrigo às 00:08

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