O REPLICADOR

Março 13 2010

O Rui escreveu um texto, baseado nas ideias de filósofos como Rothbard, Mises, Hoppe e Locke, onde procurou mostrar que o direito natural e a ética libertária justificam-se com a natureza humana por si só, não precisando de emanação divinas para tal. A razão é assim suficiente para decifrar a acção humana colando-a a uma ética humana que é reconhecida através de apreensões a priori.

 

Esta lógica dedutiva é fortíssima, principalmente porque ao se aceitar os seus axiomas teremos necessariamente de aceitar as suas conclusões; ou seja, se eu aceitar que todos os gatos são amarelos e eu tiver um gato, tenho de reconhecer que o meu gato é amarelo (felizmente não tenho gato nenhum e não preciso de o verificar empiricamente). O que está aqui demonstrado é uma ética criada e reconhecida pela Razão que dispensa testes empíricos pois é dedutivamente passível de ser validada. A Razão descodifica o axioma da acção e o axioma da argumentação, ambos extremamente sólidos, mas até que ponto é a origem da ética? Até que ponto esta construção racionalista não pode coexistir e ser produto de uma razão subjugada às paixões que constrói regras de conduta sociais para permitir uma vivência em conjunto? Uma pergunta mais complicada seria: porque é que numa ética tão clara como esta observamos e reconhecemos uma permanente violação da mesma?

 

Ao ler o axioma da argumentação que postula que existe o reconhecimento racional do “meu” e do “teu” quando se entra em argumentação sinto que este reconhecimento é bem mais emocional do que racional, visto que em última instância, a amoralidade permitirá um simples atropelamento físico (pela violência) sem qualquer argumentação visto ela não ser necessária em determinadas circunstâncias mais extremas (talvez por isso fiquemos chocados quando nos filmes alguém mata outro a sangue frio sem uma palavra, uma justificação ou um argumento). Dir-me-ás que tal não correspondia à ética em causa, ao que me parece que essa ética só vai corresponder quando a razão não colidir com a emoção. Faz-me lembrar um filme do Woody Allen (já não sei qual) em que ao lhe dizerem que ele tinha de escrever um texto satírico brilhante a desmascarar os nazis ele responde: “no, no, that won’t do, but a baseball bat goes straight to the point”.

 

Porém, a ética pode ser criada e o Rui pode ter “criado” essa ética de conduta; mas, não sendo empiricamente verificável, existe alguma razão para que toda essa construção racionalista não seja produto de uma motivação emocional primária mesmo que seja fortemente lógica? Tenho dificuldades em encontrar uma. 

 

PS:  Fiz algumas perguntas sobre o anarco-capitalismo ao Rui nos últimos 2 comentários que gostava (se possível) ver respondidas (sobre a imigração e a revolução não violenta). Gostava no entanto de fazer mais uma: numa sociedade anarco-capitalista onde os indivíduos misturam o trabalho com a natureza e adquirem propriedade, como fazer com que existam estradas e ruas para as pessoas se deslocarem? Todos podem adquirir terrenos que não permita a existência das mesmas (e eu gostava de poder sair de casa, apesar de nem sair muito). Considerando que o negócio era possível, calculo que as estradas e ruas seriam privadas, compradas por alguém e pagas por todos os que quisessem sair de casa e as usassem, certo? Mas as estradas não permitem concorrência, pelo menos aquela que servir a minha porta de casa, o que significaria que quem fosse dono da estrada poderia pedir o preço que quisesse para me permitir sair de casa.

publicado por Filipe Faria às 21:31

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