O REPLICADOR

Janeiro 29 2010

Um artigo do jornal “Público” revela o facto de as mulheres terem em média mais sucesso académico do que os homens e de que se está a formar uma nova classe baixa constituída por rapazes que fracassaram na escola. Nada de novo. O que também não é novo são as explicações dadas por sociólogos e pedagogos que se baseiam, em larga medida, na famigerada teoria da tábua rasa que considera que temos todas as mesmas características e que as diferenças apresentadas são apenas resultados da educação e da cultura. Este excerto do artigo é elucidativo:

 

“Especialista em assuntos de Educação, o sociólogo francês Christian Baudelot defende que, antes de mais, aquilo que é pedido pela escola é a interiorização das suas regras, mas que estereótipos sociais ainda dominantes valorizam nos rapazes o desafio, a violência e o uso da força - um verdadeiro "arsenal antiescolar". As raparigas, pelo contrário, são socializadas na família em moldes que facilitam a adaptação às exigências escolares: mais responsabilidade, mais autonomia, mais trabalho. "Trata-se de um conjunto de competências que as torna menos permeáveis à indisciplina", observa Teresa Seabra. No ano passado, em Espanha, 80 por cento dos alunos com problemas disciplinares eram do sexo masculino.”

 

Desta forma, como acreditam que tudo se resolve pela educação, desenvolvem constantemente engenharias sociais para igualizarem o inigualável cometendo cada vez mais erros ao não permitirem que cada elemento seja livre para escolher o seu caminho segundo as suas características inatas e os seus instintos.

 

É muito claro que há diferenças genéticas entre rapazes e raparigas (eu pelo menos olho sempre para esses sinais distintivos nas fêmeas): os traços físicos, a força, a impulsividade, a drive sexual,  a agressividade que está ligada aos níveis de testosterona (superiores nos homens), etc etc. Contudo, os nossos amigos das pedagogias acham que tudo se deve à educação e à pressão social, como se os meninos e meninas não tivessem instintos próprios para reagirem ao contexto que as rodeia. Para estes educadores as pessoas são meros balões que voam para o lado que sopra o vento, ou seja, retiram da equação qualquer noção de livre arbítrio ou de responsabilidade pessoal.

 

 

 

 

Assim sendo, acreditando nestes pedagogos adeptos da teoria da tábua rasa, todas as tendências que separam os 2 sexos só se podem explicar por acordos sociais que os homens fizeram entre si e por acordos sociais que as mulheres fizeram igualmente para criar a tal “pressão social” e os tais “estereótipos”. Vamos esquecer os contratos sociais de Rousseau ou Hobbes ou Locke, este é “o verdadeiro contrato social” para estes pedagogos. Aqui ficam algumas das premissas acordadas:

 

  • Os homens acordaram entre si morrer em média mais cedo enquanto que as mulheres preferiram acordar morrer mais tarde. Os homens até acordaram terem taxas de suicídio bastante superiores às das mulheres (esse radicais contratuais).

 

  • Os homens acordaram terem (em média) mais força, maior drive sexual, mais comportamentos de risco e serem menos organizados do que as mulheres, elas acordaram o contrário porque queriam parecer melhor em vestidos.

 

  • Os homens concordaram em ser maus na escola porque os pais lhes diziam para serem viris e não para serem bons alunos (alguém acredita nisto?). Já as mulheres concordaram em ser boas alunas porque os pais lhes disseram para elas serem bem comportadas e boas estudantes (e não é que elas obedeceram).

 

  • Uma das premissas acordadas por unanimidade entre os homens é o facto de geralmente fazerem pouco trabalho doméstico (visitem a casa de um solteiro médio e provavelmente vão encontrar no frigorífico sandes azuis de bolor feitas em 1996). Por outro lado, as mulheres acordaram que o trabalho doméstico precisa de ser feito por uma questão de necessidade e mesmo quando não o apreciam particularmente tendem a fazê-lo com competência.

 

  • Eles acordaram em ter uma capacidade de movimentação espacial superior e elas acordaram ter uma inferior porque acharam que bastava terem melhores capacidades comunicativas (e seios) para dominarem os movimentos dos machos. 

 

No fundo estes pedagogos são contratualistas que pregam uma reformulação deste “verdadeiro contrato social” de forma a que homens e mulheres acordem as mesmas coisas no sentido de obterem uma massa igualitária. É isso que estão a tentar. Porém, como o ser humano não é uma tábua rasa preenchido pelas suas políticas educativas e como ainda estamos longe de conhecer com exactidão os fenótipos das milhões de combinações de genes humanos, seria bom que admitissem a sua ausência de conhecimento e dessem liberdade de escolha para cada um escolher o seu caminho escolar e profissional.

 

Em média, homens e mulheres têm tendências comportamentais diferentes que se manifestam desde bebés (quando a influência da educação é ínfima), mas todos terão capacidades que podem ser optimizadas por eles mesmos numa sociedade pluralista e descentralizada.

 

PS: Outros textos sobre o assunto : Educação em Portugal: A Crença na Tábua Rasa, Steven Pinker: Acerca da Tábua Rasa

 

publicado por Filipe Faria às 06:49

Há realmente uma tendência das pessoas do ramo da educação para encarar muitas questões à luz do comportamentalismo (focando mais a aprendizagem do que o inatismo). Contudo, nenhum profissional sério, nos dias que correm, tem somente a "aprendizagem" em conta. Já desde Piaget, pelo menos, que é defendida uma interacção entre factores ambientais e genéticos. Com os avanços na genética, então, considera-se cada vez mais que o processo de formação de um indivíduo é epigenético, pelo que as estruturas biológicas são condicionadas pelo ambiente. Sim, genes incluídos; não na sua existência no indivíduo (genótipo), mas no como e quando são activados ou não (fenótipo). Outra questão: quaisquer diferenças entre géneros, em especial as características mentais, são expressas em termos de probabilidades, existindo homens e mulheres em ambos os extremos de qualquer característica. Por exemplo, é facto que as mulheres são tendencialmente melhores em termos verbais do que os homens, mas se tiver uma mulher e um homem à sua frente o senhor não poderá afirmar que essa mulher é realmente melhor do que esse homem nessa característica. Se o fizer, estará errado muitas, muitas vezes. E é isto que é esquecido: que as diferenças são tendências de uma população muito abrangente e pouco pode ser dito de um dado indivíduo com base nelas. O que sucede é que mesmo quando existe uma base "biológica" para as diferenças das tendências entre homens e mulheres, tal é reforçado continuamente pelas pressões sociais e, também, pela selecção natural e reprodutiva. A agressividade directa dos homens foi continuamente reforçada durante milénios, ao passo que nas mulheres a que dava mais frutos era a indirecta (aproveito para lhe dizer que homens e mulheres são igualmente agressivos, apenas, tendencialmente, de formas diferentes). Isto para dizer que as tendências fenotípicas de cada género (de cada etnia, de cada população, etc...) são resultantes de um processo de adaptação ao ambiente e estão sujeitas ao mesmo. Como tal, por muito que, por exemplo, a agressividade "masculina" (refiro-me à pura agressividade do murro e pontapé, tão útil para os guerreiros e caçadores de outrora, mas tão negativa para aqueles e aquelas que não a conseguem controlar hoje em dia) fosse uma mais-valia no Paleolítico, hoje por sinal não está tão adaptada ao ambiente. Se não está, é inútil encolhermos os ombros e dizer "é biológico, é instintivo, coitadinhos, temos de perdoá-los!". O que é necessário é não reforçar as características desadaptadas (o que não está a acontecer com os rapazes, já que querem que se aceite a sua indisciplina, agressividade, etc, etc...), permitindo isto que tais características sejam moldadas num sentido positivo para o indivíduo e para a sociedade. Permita-me ainda dizer que o seu raciocínio é bastante semelhante ao dado pelos homens que fogem à igualdade de direitos e deveres de acordo com o género ("Nós somos todos instintivamente assim. Coitados de nós, temos de ser perdoados. Já uma mulher recusar-se a fazer a lida doméstica? Imperdoável!"). Espero que compreenda agora melhor onde estão as falhas neste raciocínio. Sem que esta desculpa caia por terra e os rapazes e homens dos dias de hoje ganhem a flexibilidade adaptativa que tão fulcral é para a evolução de qualquer espécie, vamos ter graves problemas no futuro. Ps.: A diferença de "drive" sexual é um grande mito, assim como existem muitos outros.
Katherine a 31 de Janeiro de 2010 às 22:02

Um comentário bastante interessante, no entanto penso que leu mal a perspectiva do meu colega. O que este defende é a sua perspectiva de interacção entre o ser biológico e o social, em detrimento da vanguarda de psicólogos dos "media". Se se deu ao trabalho de ler a notícia, como provavelmente o fez, pode constatar um excesso de ênfase no componente social e a mesma vitimização do indivíduo como pura consequência da sociedade em que vive.

Ignorar qualquer dos componentes que influenciam (mas não determinam) o indivíduo é, como tão cuidadosamente explicou, cair em erro. E é também claro que ao criticar um extremista se puxe um pouco mais ao outro extremo.

Permita-me dizer que a constatação acerca do possível machismo do autor, cito "Permita-me ainda dizer que o seu raciocínio é bastante semelhante ao dado pelos homens que fogem à igualdade de direitos e deveres de acordo com o género", denota uma fértil imaginação ou algum trauma prévio. Caso contrário eu estou muito cego e saltei por lapso a parte do texto em que este violou a tão preciosa igualdade de géneros. Atribuir igualdade de direitos é absolutamente diferente de atribuir igualdade de capacidades, é claro que não se deve julgar uma pessoa por género mas não será razoável evitar que uma mulher de saltos não trabalhe um martelo pneumático ou um homem com a barba por fazer maquilhe uma celebridade.

Por fim agradeço à sua participação com este elaborado comentário e espero ler mais destes, com uma perspectiva mais amigável em relação aos autores que não estão aqui a cuspir na cruz :)
João Rodrigo a 31 de Janeiro de 2010 às 22:28

Cara Katherine,

Como o seu comentário abordou várias questões interessantes, tentarei responder-lhe por pontos no próximo post do blog. Obrigado.

Filipe Faria a 1 de Fevereiro de 2010 às 00:20

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