O REPLICADOR

Janeiro 23 2010

Há algum tempo estava na universidade a conversar amenamente com um colega e a comentar a abundância de estudantes do sexo feminino nessa instituição. Ele respondeu-me que esse facto se devia a estarmos numa universidade de ciências sociais que atrai essencialmente mulheres a uma média que supera os 80% em alguns cursos. Hesitei, perguntei-me o que estava ali a fazer, questionei por uns segundos os meus índices de testosterona, e respondi, não muito seguro, que ainda bem que assim é pois desta forma temos mais escolha e um melhor ambiente (pelo menos visual). Ficamos calados por instantes pois ambos sabíamos que elas estão lá geralmente para trabalhar em prol de boas notas e que mesmo que fossemos o Brad Pitt e o Jude Law (apesar de estarmos muito próximos) dificilmente teríamos alguma sorte, ou azar, mediante a perspectiva. Depois acrescentei que, actualmente, já mais de 60% dos alunos universitários são do sexo feminino e que mesmo nos cursos considerados “masculinos” como engenharia ou gestão as mulheres ganham visivelmente terreno. E mais, segundo o Instituto Nacional de Estatística, em Portugal, já no ano de 2004 as mulheres tiravam 2 vezes mais licenciaturas do que os homens. Ele pareceu-me assustado, mas como queria manter a conversa num tom satírico, disse que qualquer dia os socialistas vão querer quotas para os homens poderem entrar nas universidades visto que elas mostram ser mais metódicas e mais disciplinadas que eles, e, em média, isso revela-se nos resultados finais. Continuou dizendo que como os socialistas prezam mais a igualdade de resultados do que o mérito e a igualdade processual, estava à espera que mais ano menos ano surgissem esquerdistas a defender a presença dos homens nas universidades em detrimento das mulheres. Ambos rimos, sabendo-se que os socialistas são sempre uma boa fonte de humor, mas penso que nenhum de nós acreditava realmente nisso. Que ingénuos que fomos.

 

Na realidade, enquanto nós estávamos a ter aquela conversa cuja conclusão julgámos absurda, já os suecos tinham aprovado quotas para os homens no acesso ao ensino superior para combater a supremacia feminina nas universidades locais. Não nos devíamos surpreender, afinal de contas, como se sabe, os escandinavos são o modelo do mundo progressista social democrata. Para além de parecerem mais obcecados com a igualdade redistributiva do que com a liberdade individual, os escandinavos gostam de arriscar em prol dessa igualdade. Arriscaram no prémio Nobel da paz dado a Obama apenas pela sua aura messiânica e arriscaram igualmente na instauração de quotas para garantirem a igualdade de género nas faculdades ao aperceberem-se que as mulheres estão em muito maior percentagem nas universidades do que os homens.

No entanto, como era de calcular, a experiência não correu bem e gerou efeitos discriminatórios claramente injustos:

 

"The regulatory framework has caused inequality, writes Tobias Krantz. Last year it was almost exclusively women, 95 per cent, who got excluded because of their gender."

 

Depois de as mulheres que tinham mérito para entrarem nas universidades terem visto a sua entrada barrada devido ao sistema de quotas para homens, os seus protestos surtiram efeito e o ministro para o ensino superior sueco anunciou que vai terminar com o sistema de quotas considerando que estas geraram mais desigualdade do que igualdade. O mais intrigante desta história é saber como é que não se percebeu de início que este seria o inevitável desfecho, de tão óbvio que era. Naturalmente, a visão deve ter sido toldada pela indomável fúria progressista que visa a igualdade a qualquer custo, mesmo que para isso se passe por cima dos direitos naturais dos indivíduos, no fundo, um clássico da história humana.

 

As quotas, sejam elas para mulheres, homens, negros, brancos ou amarelos, são sempre uma discriminação positiva que vão em última instância prejudicar não só os elementos com mais mérito que vêem o acesso vedado por pessoas com menos mérito, mas também os próprios elementos que são positivamente discriminados, pois estes passam a ser vistos como elementos sem valor que subiram injustamente na sua posição social. Ademais, nenhum sistema pode ser optimizado se o critério principal não for o mérito e o liberdade de escolha.

 

A conversa com o meu colega findou no momento em ele foi socializar com umas colegas do sexo oposto. Mais tarde voltou algo indignado porque elas não pareciam especialmente receptivas. Como consequência, disse-me que se calhar umas quotas de mercado feminino só para ele não seria nada mal pensado, visto não gostar da concorrência masculina externa. Só os socialistas lhe poderiam resolver o problema. Quando o vi a clamar pelo senhor Sócrates lembrei-me do que significam realmente as quotas: privilégios legais sobre outros. 

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 03:54

De facto, poder-se-ia dizer que está tudo dito, e que é a vida que guarda todas as filosofias para que, ao analisá-la, construamos nós as nossas. Mas o problema é que, mesmo não havendo quotas para mulheres, continuam a haver quotas em Portugal, e bem terríveis. Os numerus clausus não são mais do que uma quota. Bom, pode-se dizer que num modelo económico tipo Friedman eles fazem todo o sentido. Fair enough. Mas, de facto, o problema não está aí, está mais a montante. O problema está em não haver mais lugares para que as pessoas que queiram ter uma cultura universitária tenham uma cultura universitária. Aliás, esta é uma das formas de perpetuar o elitismo que caracteriza a sociedade portuguesa desde há muito tempo. Só para terem um exemplo, as vagas para Biologia na Faculdade de Ciências da UL (a mais antiga e supostamente com mais prestígio do país) são à volta de 200 para o 1º ciclo de Bolonha, enquanto que cada 2º ciclo/mestrado tem 20 vagas. Portanto, à partida, só 10% daqueles que entram em Biologia é que vão entrar no mestrado que querem. E casos há em que se impõe uma nota mínima de entrada no mestrado. Pensam que são menos vagas porque o atendimento é mais personalizado? Claro que não, fica tudo na mesma! Simplesmente, como agora o mercado passa a ser maior com Bolonha, aperta-se mais a entrada que é para contrabalançar.

Então como é que seria a situação ideal? Gostava que dissessem o que acham desta proposta. Acaba-se com os exames nacionais, que não servem para nada. Cada responsável de cada curso fazia um exame com perguntas para seleccionar os candidatos que tivessem o perfil que ele achasse mais indicado para ali. Esse exame fazia as vezes do exame nacional para calcular a média de ingresso. Cada aluno fazia os exames que quisesse, e o melhor seria que qualquer um o pudesse fazer (sem restrições). Isto fazia com que (1) os profs da univ se interessassem por aquilo que era dado no secundário, e criticassem, e (2) que os alunos tivessem noção de que tinham de ir à procura dos sítios mais indicados para eles. Quanto ao secundário, acho que o melhor seria acabar com os agrupamentos e pôr todas as cadeiras que a escola pudesse oferecer opcionais. Talvez até mesmo os professores devessem ser postos à escolha, caso houvesse mais de um professor para uma cadeira (creio que isto é até mais extremista que o que o Milton Friedman propunha!). Quanto às universidades, parece-me que o modelo anglo-saxónico é o melhor, onde as pessoas se inscrevem nas cadeiras que querem. Mas uma coisa é a Inglaterra/Estados Unidos, outra coisa é Portugal. Que acham disto?
Daniel a 23 de Janeiro de 2010 às 18:16

Pessoalmente acho a proposta interessante porque permitiria aumentar a liberdade de escolha e forçaria os alunos a serem mais responsáveis na escolha dos seus cursos assim como obrigaria as universidades a fornecerem mais informação para esse efeito. Contudo, para diminuir os efeitos indesejáveis de não permitir que alunos com vontade de educação superior fiquem à porta (apesar de achar que com o facilitismo actual isso já raramente acontece), mas principalmente para optimizar a qualidade do educativo, liberalizar o ensino superior seria uma medida imprescindível. Isto faria com que todas as instituições concorressem pelos melhores alunos e profissionais, que existissem mais universidades, mais personalizadas, mais adaptadas ao mercado de trabalho (porque nenhuma faculdade ganha reputação a lançar alunos para o desemprego) e as forças do mercado concorrencial tornariam as propinas acessíveis a todos os que quisessem realmente apostar numa educação académica.

Acima de tudo é preciso deixar de acreditar no slogan que temos tido até hoje “one size fits all”. Só através da personalização das necessidades podemos melhorar o ensino que temos.
Filipe Faria a 25 de Janeiro de 2010 às 00:25

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