O REPLICADOR

Dezembro 17 2009

Finalmente tenho alguns dias de férias. Depois de um período sem tempo para mais nada, posso finalmente respirar e actualizar-me em relação à actualidade informativa. Já reparei que o nosso mundo continua igual, isto é: os casos de corrupção governamental continuam, o nosso défice orçamental continua a derrapar até aos limites da insustentabilidade, as reforças liberais necessárias não são feitas, a imprensa portuguesa continua a apresentar o aquecimento global como uma religião inquestionável, e por aí fora. Porém, há algo de novo no horizonte. Já se sabia que o socialismo se gaba do seu progressismo militante, mas agora faz questão de o mostrar na Assembleia da República. Sofia Cabral, deputada do PS, levou um generoso decote para representar o povo em mais uma sessão parlamentar. Nestes momentos, dou por mim a concordar com J. J. Rousseau: de facto, a vontade geral não pode ser representada, visto que o representante nunca representa o povo mas sim ele mesmo. Neste caso concreto, ao nível da sua configuração genética, aquela senhora não representa (infelizmente) uma boa parte das mulheres portuguesas. Rousseau, tinhas razão, só a democracia directa é verdadeiramente democrática.

 

Claro que já se encontram debates acesos sobre a legitimidade do decote da generosa socialista (isto é um pleonasmo, claro, porque todos os socialistas partilham e são generosos). Do lado socialista (no caso do Daniel Oliveira será mais comunista new wave), o decote é excelente e todas as mulheres deviam usar tais decotes em todas as circunstâncias, mesmo que com isso alienem a atenção dos intervenientes masculinos na sua profissão. Do lado da direita monárquica, através do Rodrigo Moita de Deus, a resposta vai no sentido de que se não tivermos qualquer consideração pelo efeito dos nossos actos no contexto em que interagimos, podemos cair no ridículo de se ir para o parlamento de tanga dissertar sobre o défice orçamental de Estado, que, por coincidência, já foi ligado ao facto de o país estar vestido com tal indumentária.

 

Este debate faz-me lembrar um estudo na área da psicologia comportamental a que assisti num documentário da BBC. Este estudo procurava aferir o efeito da imagem dos elementos do sexo oposto nos homens e nas mulheres. Foram colocados vários homens a verem vários telejornais. No primeiro telejornal o apresentador era um homem e no segundo a apresentadora era uma jovem decotada que apresentava índices de fertilidade elevados. Sem surpresa, no final do teste, os homens que tinham visto o telejornal apresentado pelo apresentador masculino sabiam falar sobre as notícias que tinham visto com um bom nível de detalhe. Por outro lado, os que viram o telejornal com a jovem apresentadora destapada, não só não conseguiram dominar os detalhes, como muitos deles nem se lembravam com exactidão dos temas abordados. Os mesmo homens trocaram de posições, viram os telejornais contrários e o efeito foi o mesmo. Já no caso das mulheres, verificou-se que não havia diferença entre o telejornal ser apresentado por um homem ou por uma mulher (decotada ou não), visto que apresentaram o mesmo nível de reconhecimento dos temas e notícias abordadas.

 

Desta forma, voltamos ao clássico problema da universalidade que não consegue ser resolvida, nem ao nível filosófico, nem ao nível prático. Gostamos, dentro de determinados limites, da ideia de igualdade, mas posteriormente, perante situações de “zero sum game”, há quem não resista em puxar a corda para o seu lado até partir. Se todos reagimos de forma diferente aos mesmo estímulos, mas não conseguimos deixar de reagir, então só o bom senso, o compromisso e a aceitação dessas mesmas reacções nos pode ajudar a resolver, ou a mitigar, problemas que não são, de todo, de carácter exclusivamente pessoal. Por outra palavras, eu não posso esperar fazer tudo o que quero em público sem esperar colher consequências desses mesmos actos. A única maneira de tal não acontecer (em teoria) seria ter um Estado que impedisse os humanos de reagir a estímulos, coisa que certamente a extrema esquerda não se importaria, mas que instauraria, mais do que o totalitarismo, o zombismo.

 

Contudo, como não estou no parlamento, como não tenho de ouvir o socialismo da senhora deputada Sofia Cabral, como acho que a ineficiência do parlamento não pode piorar muito mais, só lhe posso agradecer pela sua generosidade. Convenhamos que é de admirar entusiasticamente a primeira socialista que não precisou de roubar a alguém para ser generosa com os outros. Bem haja esta senhora. 

publicado por Filipe Faria às 16:53

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