O REPLICADOR

Novembro 09 2009

Existe hoje em dia uma aceitação geral da presença do Estado em todos os ramos da sociedade. Se excluirmos os socialismos que não reconhecem o capitalismo como sistema viável, podemos chegar à seguinte conclusão: desde que Keynes lançou a ideia de que a estabilidade económica e a consequente prosperidade dependem do controlo estatal, as pessoas ficaram seduzidas com a ideia de que o Estado pode ser o grande gerador de riqueza. Antes de Keynes, a instabilidade dos mercados era vista como parte da vida económica, e as economias dependiam, em maior ou menor grau, do engenho dos seus povos para progredirem. O keynesianismo tornou-se assim o sonho de qualquer político: poder gastar o dinheiro do contribuinte em larga escala, e desta vez por razões cientificamente nobres.

 

Em larga medida, o keynesianismo não cumpriu a sua função. Este visava o pleno emprego e o estímulo da procura. Porém, pelo menos desde os anos 70 que se verificou que o multiplicador keynesiano gerava desemprego e estagflação a longo prazo (estagnação económica e inflação). Afinal, tal como disse Keynes, a longo prazo estamos todos mortos, mas, curiosamente, parece que ainda existem alguns de nós que estão vivos e a pagar a factura dos excessos de endividamento que advêm das práticas dos seus discípulos.

 

John Maynard Keynes foi um grande economista. Contudo, o maior legado do senhor talvez não tenha sido tanto económico como foi psicológico. Lançou o mito junto dos povos de que o Estado pode intervir a todo o momento desresponsabilizando os cidadãos no processo económico. Sobre esta questão, vale a pena lembrar o que disse Friedrich Hayek: A liberdade é indissociável da responsabilidade pessoal. Concomitantemente, não conheço nenhum sistema de desenvolvimento social que se baseie na desresponsabilização do indivíduo. Da mesma forma, não conheço nenhum sistema minimamente sustentável que, para cumprir os objectivos a que se pressupõe, precisa de hipotecar o futuro das próximas gerações. Cada criança que nasce fá-lo já com uma avultada dívida perante os credores do Estado em que nasceu. Não é difícil de prever uma ruptura com este rumo a médio/longo prazo, resta saber em que direcção. No momento em que essa ruptura chegar, na linha das categorias revolucionárias de Barrington Moore, poderemos assistir a mais uma revolução liberal ou a uma revolução comunista/totalitária ou a uma fascista/autoritária. Match Point! Para que lado cairá a bola quando bater na rede?

 

Entre vários outros, a falta de respeito pela propriedade privada através da redistribuição em massa, os escândalos financeiros com dinheiros públicos, os chips electrónicos (primeiro inseridos nos carros depois na nossa cabeça), os "jobs for the boys", a demagogia dos subsídios, são apenas sinais de algo mais substancial. Nas sociais democracias europeias, a máquina do Estado e os recursos que este consome crescem visivelmente todos os anos sob o pretexto de se precisar de fazer face a crises. Desta forma, insufla tanto ou mais do que uma bolha especulativa e tal como esta última, um dia rebenta, certamente no dia em que as liberdades individuais rebentarem.

 

Estaremos a caminhar lentamente para os cenários totalitários preconizados por Orwell e Huxley? Se estamos, segundo uma lógica evolutiva acredito que essa será uma linha que será inevitavelmente interrompida. O cientista político Giovani Sartori definiu os eleitores como entidades que não agem mas sim que reagem. Similarmente, este consenso que se gerou à volta da social democracia será questionado quando o nível de endividamento e de autonomia pessoal chegar a nível inaceitáveis e fortes clivagens sociais começarem a surgir devido a novas fracturas sociais. Esperemos que quando se assumir em definitivo que o Estado social democrata falhou, as consequências não sejam desastrosas. Por outras palavras, tal como Nassim Talem postulou no seu livro “Black Swan”, que este não seja “Too big to fail”.

 

 

PS: Este texto foi uma resposta ao comentário de Daniel Marques no post do João Rodrigo chamado "A igualdade que fomenta desigualdade".

 

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 16:57

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