O REPLICADOR

Setembro 20 2009

Astuta como sempre, a Andreia comentou o post “A Razão de “Lord of the Flies” levantando uma questão pertinente: se o móbil do ser humano não é a racionalidade e este acaba sempre por trazer ao de cima o “animal” que há dentro dele, como é que eu posso (solitariamente) defender o liberalismo e a escolha do indivíduo nas conversas das esplanada da FCSH? Por outras palavras: se o ser humano tem um “mau selvagem” dentro dele, há outro remédio senão ter o Leviathan hobbesiano a impedir, através da coerção, que ele transgrida as regras de civilidade? Estas perguntas indicam a sugestão de que quem tem uma visão menos idílica da Razão humana deve logicamente optar por uma ideologia conservadora de autoritarismo e ordem onde o governante controla todos os comportamentos irracionais/animalescos do Homem. Defender o liberalismo faz assim pouco sentido.

 

Sento-me na cadeira (geralmente suja) da esplanada, tento fugir ao sol e tento lembrar-me de tudo o que já li sobre o assunto. Chego à conclusão que é melhor usar o improviso porque a Razão está inibida pela minha fraca memória. É este o problema da Razão: há sempre algo que falha pelo caminho até se chegar até ela (mesmo que Kant, numa atitude de “motivational coaching”, nos “prometa” que um dia chegamos lá).

 

Ora, comecemos então. Os liberais clássicos advogam um mercado livre fundado na assunção de que os indivíduos são racionais, auto interessados e metódicos na persecução dos seus objectivos. Assim sendo, quem não acredita na Razão pode ser um liberal clássico? Pode. Porque este indivíduo racional de que se fala usa essencialmente a tal razão de David Hume (que consiste em ser apenas um meio para atingir os fins das emoções e dos desígnios dos sentimentos de cada um). Neste caso, o indivíduo ser racional não significa necessariamente que ele seja movido por interesses racionais, significa apenas ele usa a racionalidade para os seus fins pessoais. O mercado funciona não porque as pessoas desejam racionalmente tornar a sociedade mais rica mas porque através do seu auto interesse vão trocar bens e serviços entre si de forma a maximizarem as suas pretensões. Como resultado, por vias deste processo, a sociedade gera riqueza para todos os intervenientes. A soma de todas estas trocas é a essência da “mão invisível” de Adam Smith, que representa, tal como disse Milton Friedman: "the possibility of cooperation without coercion."

 

E é precisamente a possibilidade de cooperação sem coerção que faz com que um Leviathan que tudo controla seja em grande parte desnecessário. Porém, o principal objectivo do Leviathan hobbesiano é manter a paz e a ordem, visto que se constatou que os humanos facilmente cometem atropelos às liberdades dos outros e como tal precisamos de um regulador que puna esses atropelos. Nesta fase encontramos a principal questão: o que deve o governante regular? Segundo John Locke (cuja filosofia está na base do liberalismo clássico), as pessoas chegam à conclusão que precisam de um contrato social criador de um soberano que proteja os indivíduos dos atropelos selvagens do estado de natureza. Neste ponto Locke concorda com Hobbes. Contudo, este soberano deve apenas regular a propriedade privada, o que inclui, não só os bens materiais de cada indivíduo, mas também a sua integridade física e os frutos do seu trabalho. O mercado não pode funcionar se eu puder entrar num stand de automóveis e sair de lá com um carro sem o pagar. A mesma coisa para a integridade física: é difícil usufruir das vantagens do mercado se alguém me matar entretanto. Desta forma, um liberal clássico advoga geralmente um estado mínimo com funções protectoras, mas também com checks and balances que impeçam o abuso de poder e que permitam destituir o governante quando este envereda por caminhos que levam à tirania e ao incumprimento das suas funções previamente acordadas. Se essas funções forem estendidas a outros campos podemos cair estado paternalista (para usar a expressão de Tocqueville) ou até no totalitarismo governamental que a extrema protecção do Leviathan propicia. Por outro lado, é preciso realçar que o liberalismo não termina no atomismo. Particularmente, fomenta o associativismo livre onde cada um pode entrar e sair de uma associação livremente mediante a sua vontade (No “Lord of the Flies “ os pais e amigos do Piggy iriam associar-se para o proteger).

 

Desconfiar da bondade racional da natureza humana faz parte da noção liberal da aversão à concentração de poder numa só entidade. Temos boas razões para acreditar que os homens que desejam ter todo o poder na mão para controlarem a população são normalmente homens com características que os pré-dispõem a passar por cima das liberdades dos outros para atingirem determinados desígnios sociais construtivistas (este argumento está bem desenvolvido em “The Road To Serfom” de Friedrich Hayek).

 

E sim, para responder à pergunta da Andreia sobre o comportamento do homem e a influência genética: acredito que as diferenças de personalidade dos homens e mulheres são fortemente influenciadas pelos genes. Não será lógico achar que a tendência para a agressividade, para a timidez, para a extroversão, para a liderança, ou para outras, provém apenas da socialização. Parafraseando o Steven Pinker: todos aqueles que têm mais do que um filho sabem que eles têm temperamentos diferentes desde muito cedo apesar de terem a mesma educação e contexto social. Se algumas destas características forem consideradas “selvagens”, tal apenas significa que encontramos uma categoria social para as encaixar, fazendo com que cada um de nós seja designado de mais ou menos selvagem consoante as nossas características.

 

Em suma, apesar de acreditar que o mercado é a melhor forma de criar e distribuir riqueza, um liberal clássico não coloca o foco central na igualdade material mas sim na igualdade perante a lei. E a lei existe porque vivemos na cidade dos homens e não na cidade de deus.

 

 Podemos levar a questão da associação mais longe e perguntar se a existência do Estado faz sentido e se não estaríamos melhor com pequenas organizações voluntárias postuladas por Murray Rothbard e pela sua corrente anarco-capitalista. Ao fim ao cabo os Estados são organizações armadas sem nenhum Leviathan superior (ONU??) a mandar deles e o mundo continua. Mas isso seria feito noutra sessão de esplanada porque toda a gente já abandonou a nossa mesa e ficámos só nós os dois. Ademais, temo que a Andreia já tenha adormecido...

 

 

publicado por Filipe Faria às 03:32

dizes que "Como resultado, por vias deste processo, a sociedade gera riqueza para todos os intervenientes". Gera para todos? todos os cidadãos? qual é limite em extensão deste conceito? as fronteiras de um Estado? Ou o mundo todo?

o Leviathan é necessário ou desnecessário?


"associativismo livre onde cada um pode entrar e sair de uma associação livremente mediante a sua vontade" Nesta frase, não concordas que em vez de vontade podemos colocar interesse?


" acreditar que o mercado é a melhor forma de criar e distribuir riqueza" Acreditas nisto?
Mário Melo a 20 de Setembro de 2009 às 20:43

Serei breve nas respostas porque penso que o texto foi claro em várias dessas perguntas:

1ª Questão- Sim, gera para todos. E sim, para o mundo inteiro. As velocidades podem diferir de estado para estado mas todos ganham com o comércio internacional.

2ª Questão- O Leviathan é desnecessário no sentido em que Hobbes o caracteriza. O que Locke defende não é a criação de um Leviathan mas sim de algo diferente (explicado no texto).

3ª Questão – O auto-interesse é fundamental para o processo de associativismo, aliás, é fundamental para praticamente todos os actos humanos.

4º Questão – Que o mercado é a melhor forma de criar riqueza ninguém duvida. A disputa é se é a melhor forma de distribuir rendimentos. Se considerares que todos devem receber sensivelmente o mesmo independentemente do que fizerem (ou não) na vida, então não será a melhor forma de distribuição. Se acreditares que o importante é que todos tenham oportunidades, liberdades e continuem progressivamente a ter melhores condições de vida do que tinham anteriormente, então sim, é a melhor forma de distribuir rendimentos. É nesta segunda em que eu acredito.
Filipe Faria a 20 de Setembro de 2009 às 23:06

Obrigada Filipe, pela excelente "conversa de esplanada" , que de esplanada tem pouco, pois que é bem mais interessante do que algumas que não raras vezes por lá se ouvem.
Da tua resposta, que em muito me esclareceu, apenas ressalvo que o teu receio não se confirmou:
Não adormeci. De todo. Fui para casa ainda mais fascinada pelo tema, mais curiosa, e com mais vontade de ler e tentar obter respostas às perguntas que inevitavelmente se encadeiam: até que ponto será o nosso comportamento "pré-destinado" pela biologia, por algo que nos é inato? Devem os sitemas de educação e aprendizagem ter isso em conta? como se relacionam estes pontos com a questão da violênca e da resolução de conflitos? ...podia passar todo o dia a expor questões, mas por agora, o objectivo foi cumprido: perceber a adequação da tua ideologia política à tua visão da natureza humana! Mais uma vez Obrigada!e espero que esta seja apenas mais uma de muitas trocas de ideias e opiniões (o que possibilitará maximizar o meu próprio interesse - saber mais!:)

"Só sabemos com exactidão quando sabemos pouco; à medida que vamos adquirindo conhecimentos, instala-se a dúvida!" =)
Goethe
Andreia a 22 de Setembro de 2009 às 08:54

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