O REPLICADOR

Setembro 18 2009

 O livro “Lord of the Flies” de William Golding é um clássico da literatura que sempre me fascinou. Documenta a vivência de um grupo de rapazes de bons colégios ingleses que são obrigados a viver numa ilha deserta devido ao despenhamento do avião onde viajavam. Sem adultos na ilha, eles são obrigados a organizarem-se para sobreviverem durante a estadia. Apesar da sua boa educação em Inglaterra, rapidamente perdem a civilidade, e a estadia transforma-se numa luta selvagem por poder e domínio estratégico onde acabam a matar-se por esses fins. Em suma, estes rapazes chegam como “gentlemen” mas terminam como selvagens.

 

 

Assim sendo, trata-se de um tratado da natureza humana não assumido. Lança ainda por terra 2 correntes de pensamento ainda bastante presentes na actualidade:

 

- A do “Bom Selvagem” de Rousseau (onde o homem nasce bom mas a sociedade e as suas desigualdades tornam-no mau) 

 

- A da “Tábua Rasa” (onde se acredita que o homem nasce sem pré-disposições inatas para nada e onde a educação/socialização o constrói por completo).

 

Naturalmente, nem os rapazes eram bons por natureza, nem a alta educação que receberam em Inglaterra impediu que estes se comportassem como selvagens. Toda a narrativa está repleta de alegorias neste sentido.

 

A alegoria que considero mais representativa é a que contempla a personagem Piggy:

 

Piggy era um rapaz obeso, com asma e com problemas de visão que o obrigavam a usar óculos, mas, por outro lado, era também inteligente, racional e civilizado. Ele acaba morto pelos actos selvagens dos outros rapazes enquanto tenta, de forma eloquente, mostrar as vantagens da ordem e da razão. Esta personagem representa a civilização que crê cegamente na Razão recusando-se a olhar para a natureza humana. Desta forma, ele tentou superar as suas insuficiências através da racionalidade argumentativa sem contar com a superioridade física de sobrevivência dos outros elementos. Esqueceu-se que a Razão é parte do homem, não é o homem. Já David Hume defendia que esta é um meio ao serviço das emoções. Em última instância, são os sentimentos que ditam os objectivos humanos.

 

E Piggy não era, como é óbvio, o verdadeiro nome do rapaz. O verdadeiro nome dele ninguém sabe qual é...

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 00:00

it started out as hogwarts now it's lord of the fliiiiies
-i hated that book-

:D
bárbara a 18 de Setembro de 2009 às 00:39

Filipe, o conteúdo do post confundiu-me! (não obstante a qualidade!!!)=)

Ficou claro que não postulas nem da teoria do bom selvagem, nem da teoria da tábua rasa. Devo então concluir, por exclusão de partes, que a natureza humana é para ti, selvagem e que a tua solução será a hobbesiana: apenas o leviathan poderá controlar os ímpetos e desejos do homem, por natureza egoístas, submetendo-o, pela força e autoridade, à Razão que melhor serve a comunidade em que ele se insere (sei que este "melhor" é tão relativo quanto inútil, but you get the point, right?)

Ora se assim é, onde é que entra aqui a ideologia liberal (que solitária mas valentemente defendes na FCSH), de liberdade, de indivíduo, de escolhas, de óbvias e claras diferenças entre as motivações de cada um? Não se inserirá esta visão numa ideologia mais conservadora? Aquela que postula a imposição autoritária moralizante aos comportamentos de outra forma inevitavelmente desviantes?

Mais, não achas que nesta visão hobbesiana da coisa, estará algo negligenciada a parte emotiva da natureza humana? Se Piggy tivesse despenhado com os pais, os irmãos ou os seus melhores amigos (se ele os tinha ou não agora não interessa), quizás estes o tivessem defendido da crueldade dos outros... Ou seja, se olharmos para sentimentos e laços emocionais, não raras vezes verificamos que estes se sobrepõem a instintos tão fortes como o de sobrevivência...

Entre outras coisas, achei interessante como referiste Piggy metaforizando logo desde inicio a incapacidade ou menor constituência física como opostas a uma maior racionalidade e inteligência. Mas o meu ponto é: Piggy poderia até ser, no seu estado mais puro, naturalmente selvagem. Mas era claramente (mortalmente, diria!) menos selvagem que todos os outros...Acreditas que somos naturalmente todos selvagens, mas naturalmente uns mais que outros?

E se sim, são apenas razões biológicas, genéticas, as que determinam essa diferença?

Desculpa invadir-te de questões (como se te coubesse a ti dar-me as respostas - e como se elas em absoluto existissem), mas o tema fascina-me e não podia deixar passar a oportunidade para ver um pouco mais desenvolvidas as tuas opiniões sobre o assunto (daria uma óptima conversa na esplanada da FCSH, mas como estou a 2000 km de distância, que me valha a tecnologia! =)

Andreia (CPRI) *********
Andreia a 18 de Setembro de 2009 às 09:21

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