O REPLICADOR

Setembro 12 2009

Se me perguntassem qual é o meu maior defeito não saberia responder. Com grande probabilidade, os defeitos são como os genes: os seus efeitos estão interligados, sendo impossível cair em determinismos. No entanto, a resposta parece ser mais simples do que dá a entender. Segundo parece, quase toda a gente acha que o seu maior defeito é ser teimoso. Sempre que vejo alguém a responder à pergunta “qual é o seu maior defeito?” a resposta é invariavelmente “sou teimoso”. Mas porquê a teimosia? Será que, de todos os defeitos humanos, esse foi o que o Criador distribuiu de forma mais equitativa? É pouco provável, nunca concebi o senhor com desígnios socialistas de igualdade material.

 

Independentemente da sua posição política, o que “Deus” distribuiu de forma equitativa foi uma vontade indomável para o indivíduo cuidar do seu ego. Dizer que o seu maior defeito é a teimosia é, em larga medida, uma forma de auto-elogio. Certamente que ninguém gostaria de dizer que o seu maior defeito é ser hipócrita, mentiroso, traidor ou qualquer outra característica que colocasse em causa a sua credibilidade social. Desta forma, o epíteto de “teimoso” surge como um defeito benigno que está ligado a uma característica positiva que é a persistência. Teimosia e persistência são a mesma entidade analisada sob perspectivas diametralmente opostas, mas que geram ambiguidade suficientes para não condenar ninguém ao ostracismo social; por fim, até sugere uma característica positiva à espreita.

 

Ao ver entrevistas de carácter “pessoal” e “intimista” com alguns políticos nacionais, constato que seguem a mesma regra popular dizendo que o seu pior defeito é serem teimosos. O pior defeito observável neste tipo de resposta é a ausência de criatividade. Algo que é sintomático da falta de ideias no discurso político oficial onde se discutem pormenores episódicos através de antagonismos pessoais e onde qualquer visão futura de sociedade é, por norma, inexistente ou mascarada.

 

Ao nível nacional, porque se convencionou que esta é a melhor forma de conseguir votos, há na política contemporânea uma teimosia patente na manutenção de um vazio discursivo e ideológico. Ou talvez deva dizer persistência...

 

 

publicado por Filipe Faria às 20:46

Política, Filosofia, Ciência e Observações Descategorizadas
Facebook
pesquisar
 
RSS
eXTReMe Tracker