O REPLICADOR

Agosto 16 2009

Não é incomum, em debates políticos, observar a esquerda a salientar a hipocrisia desses “liberais” que passam a vida a clamar por menos intervenção estatal e depois, quando precisam, aceitam de bom grado essa mesma intervenção para que possam ser salvos com dinheiros públicos. Obviamente, esses “liberais” referidos são os famigerados empresários.

 

A assunção de que todos os empresários são liberais é tão falaciosa como a de achar que todos os socialistas querem a igualdade entre humanos, com a diferença substancial de que os empresários são mais sinceros nos seus intentos. O objectivo do empresário é, em última instância, a maximização do lucro. Por outro lado, o objectivo de um liberal é, em última instância, a manutenção da liberdade. 

 

A lógica manda acreditar que os empresários devem ser liberais, pois é a liberdade de acção económica que lhes permite atingir as suas pretensões. Assim é, na maioria dos casos. Contudo, existem “falhas de mercado” infligidas por sistemas políticos onde o estado ganha uma preponderância económica sobre o mercado que obriga vários empresários a pensarem duas vezes antes de rejeitarem a intervenção estatal. Em concomitância, em sociedades contemporâneas como a portuguesa, o sistema dominante não é um mercado livre. É sim, em larga medida, um mercado clientelista onde os agentes económicos não concorrem apenas entre si mas concorrem também pelos favores do estado. Desta forma, dentro deste modo de organização económico/político, um empresário pode ter muito a ganhar em não ser liberal.

 

Está largamente documentado pelo senso comum que um determinado apoio ao intervencionismo estatal gera benefícios financeiros para alguns elementos da classe que têm contactos privilegiados com os meandros políticos estatais. Há exemplos mais evidentes que outros: as construtoras que se aproveitam das grandes obras públicas é um dos mais claros. Porém, não estão sozinhas: as maiores empresas já implantadas firmemente no mercado não vêem com maus olhos determinadas cargas fiscais pesadas se isso significar eliminação da concorrência de empresas que as não puderem suportar. Adicionalmente, a protecção estatal de determinadas empresas de maior dimensão promove o lucro sem risco, o que para um empresário é viver no melhor dos dois mundos. E sim, em teoria, um empresário seria um liberal, mas na prática o que se verifica é uma adaptação darwinista ao contexto. Se só lhes dão ovos, eles fazem omeletes, porque tentar mudar todo o sistema que dá ovos afigura-se muito mais complicado. Neste caso, mudar a galinha estatizante.

 

Um liberal obedece a convicções ideológicas: este terá de ser, no campo institucional da acção social, um político comprometido com a defesa das liberdades individuais. Ele mover-se-á assim de forma a maximizar essas liberdades, estruturando um estado de direito que permita que cada indivíduo usufrua desse máximo de liberdade possível em sociedade.  Se a um empresário for oferecido dinheiro ou vantagens para que ele se torne num receptor do keynesianismo, ninguém está à espera que ele rejeite, mas um político liberal tem a obrigação moral de manter os desígnios que o trouxeram para a sua condição. Em suma, não colocando a corrupção em equação, os políticos liberais podem e devem manter o seu objectivo de manter a liberdade, mas não se pode esperar que um empresário rejeite legalmente dinheiro ou protecção estatal se esta lhe for vantajosa.

 

Quando observarmos um empresário a votar no partido socialista, não devemos ficar surpreendidos: faz mais sentido do que a célebre confusão que a esquerda faz entre liberais e empresários.

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 23:49

E que tal "o máximo de liberdades" contemplar não morrer de fome num mundo de luxos nem morrerem de doenças curáveis milhões de humanos anualmente? Ou isto não tem que ver com "as liberdades"? Cheira-me é que as liberdades têm a ver com as classes que precisam de apoio psicológico quando lhes morre o gato mas acham ser da "natureza das coisas" que morram anualmente 11 milhões de crianças por causas relacionadas com a subnutrição.
Fulano a 17 de Agosto de 2009 às 06:32

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