O REPLICADOR

Agosto 10 2009

Tendo a concordar em larga medida com as análises políticas feitas por Henrique Raposo. Contudo, há um ponto onde parecemos estar em profundo desacordo: a forma como encaramos o papel da ciência. O Henrique já várias vezes mostrou a sua indignação perante o facto de a ciência se cruzar com a política, como se a política pudesse viver sem uma influência substancial da ciência. Depois de críticas a James Watson e de comentários cínicos sobre o "Deus Darwin”, ele escreve num texto do "Expresso" que o nazismo existiu porque os nazis julgavam-se dono da ciência da biologia e o comunismo soviético existiu porque os comunistas julgavam-se donos da ciência da história.

Na verdade, como ele sabe, nada disto é ciência: nunca a teoria da evolução mostrou que há raças superiores ou inferiores, mas sim indivíduos mais ou menos bem adaptados ao contexto onde vivem. É verdade que os membros da mesma família étnica tendem a ter características mais semelhantes entre eles do que com outras famílias éticas, mas daí a uma extrapolação que leva à superioridade racial vai um salto tão grande como da ciência para a moral religiosa. Mesmo que a teoria da evolução confirmasse que os alemães (para usar este caso concreto) estavam mais bem adaptados ao contexto do que qualquer outra raça, a decisão de eliminar directamente a raça menos adaptada seria sempre de carácter moral/político; por outras palavras, o que a ciência faz é verificar empiricamente os factos, o esclarecimento do real, e o que o político faz é usar esses factos de forma (i)moral para servir os interesses de uma determinada agenda. Em relação aos comunistas e à ciência da história, tal faz pouco ou nenhum sentido, porque a ideia de que caminhamos para o fim de história, onde o homem deixa de ser explorado pelo homem, não tinha, nem tem, qualquer prova empírica que o comprove. Estamos perante uma ideia de carácter literário e não de carácter científico, assim como a teoria da tábua rasa que a sustenta.

A influência da ciência na política é evidente em todos os domínios: só se pode organizar a sociedade sabendo qual é o actual potencial dela. É a ciência que informa o político sobre o que é possível delinear na vida da polis. A ciência informa o político da possibilidade de existirem métodos de cura para doenças que vão determinar a forma como vai organizar o sistema médico. A ciência informa o político das potencialidades tecnológicas de uma sociedade, o que vai determinar a forma como este vai estruturar as áreas preferenciais de desenvolvimento. A ciência informa o político da esperança média de vida de uma população o que ajuda a definir políticas de natalidade. E se considerarmos que nada disto é competência do estado e que queremos um estado libertário apenas dedicado à segurança, a ciência irá informar o político das suas potencialidades bélicas para que este esteja bem ciente delas na hora de tomar decisões securitárias, assim como geo-estratégicas.

Compreendo o medo dos liberais. E se um dia um cientista surgir com uma ideia empiricamente comprovada que, para que ela seja colocada em prática em toda a extensão, precise de um estado centralizado todo poderoso? Um leviatã de carácter deliberadamente científico levantar-se-ia, colocando a defesa da liberdade individual em risco, juntamente com os seus checks and balances. Pois bem, esse estado já existe e basta-lhe a retórica moral, nem precisa da ciência, chama-se socialismo. Se bem que, em última instância, todo o estado, independentemente da filosofia que o sustenta, se baseia em pressupostos morais como forma de legitimar o poder.

O princípio do Cisne Negro de Karl Popper diz-nos que mesmo que nunca tenhamos visto um cisne preto não quer dizer que ele não exista, e que todas as provas científicas são válidas até surgir uma prova em contrário. Uma ideia científica que não é passível de ser refutada não é digna de possuir o epíteto “científica”. Porém, no meu entender, isto não quer dizer que nenhuma descoberta científica deve ser desvalorizada, tal significa que a avaliação moral da utilização dessa descoberta deve pesar os prós e os contras da sua utilização sem esticar “a corda” ao limite. O cisne negro pode sempre surgir e, como tal, a aplicação de uma descoberta científica leva a hediondos resultado não previstos inicialmente. Não obstante, se se levar ao extremo a desconfiança do objecto científico, o progresso torna-se inexistente e o estado tornar-se-á o destruidor da inovação científica. Inovação: conceito que é caro a tantos liberais que sabem que é dele que depende a criação de riqueza e o bom funcionamento do mercado. Ao pararem este processo, este liberais estão de facto a ser conservadores, dando razão aqueles que os acusam de serem conservadores disfarçados.

A ciência existe para tornar os elementos discutidos pelos agentes políticos o mais claros possível. A ciência é a actividade que visa “o que é” e não “o que deve ser”. Esta última é do campo político, informado devidamente pelo “o que é”.

O senhor que se segue será insuspeito para o Henrique Raposo ou para qualquer liberal contemporâneo. Concomitantemente, podemos ler este excerto de Friedrich Hayek onde ele não se coíbe de usar constatações cientificas para justificar as tuas ideias liberais:

“The boundless variety of human nature--the wide range of differences in individual capacities and potentialities--is one of the most distinctive facts about the human species. Its evolution has made it probably the most variable among all kinds of crea­tures. It has been well said that "biology, with variability as its cornerstone, confers on every human individual a unique set of attributes which give him a dignity he could not otherwise possess. Every newborn baby is an unknown quantity so far as potentiali­ties are concerned because there are many thousands of unknown interrelated genes and gene-patterns which contribute to his make­up. As a result of nature and nurture the newborn infant may be­come one of the greatest of men or women ever to have lived.” *

F. Hayek

 



* http://www.woldww.net/classes/General_Philosophy/Hayek-equality.htm
 

publicado por Filipe Faria às 20:26

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