O REPLICADOR

Agosto 04 2009

Ganhar um ordenado de 3500 euros líquidos é bom ou não? A resposta não é mensurável até se comparar esse ordenado com os dos outros. Os conceitos de bom e mau são intrinsecamente comparativos, sou seja, dependem da comparação para serem interiorizados em cada indivíduo.

Uma equipa de investigadores alemães da Universidade de Bona mostrou que a forma como cada um reage perante uma recompensa não depende de um valor absoluto,  mas depende, em larga medida, da comparação imediata que se faz com os colegas e, num contexto mais alargado, com todos os outros.

A equipa liderada por Armin Falk encetou uma experiência com voluntários europeus e do sexo masculino de forma a aferir os seus comportamentos perante situações de inveja ou injustiça. Os voluntários foram dispostos dois a dois, em postos de trabalho contíguos, equipados de tomógrafos de ressonância magnética ligados a várias partes do cérebro. Os investigadores pediam aos voluntários para desempenharem uma determinada tarefa nos computadores. Consoante o desempenho na tarefa, os voluntários iriam receber um determinado valor monetário. Os que não conseguiam quaisquer resultados não eram recompensados e, como tal, revelavam uma falta de actividade na zona do cérebro que reage a recompensas e reconhecimento. Porém, entre os que tinham bons desempenhos e que eram recompensados, a reacção cerebral não era equivalente.

A razão para esse efeito prende-se com o facto de ter sido dito aos vencedores que o valor monetário não era igual para todos, apesar de o desempenho deles ter apresentado níveis de sucesso semelhantes. O resultado tomográfico foi uma menor circulação sanguínea no voluntário que tinha recebido menos dinheiro. Desta forma, concluiu-se que a recompensa individual que estimula o centro cerebral respectivo revela que o prazer não está apenas dependente do sucesso pessoal mas também (ou principalmente) do sucesso dos outros. *

Em tempos contemporâneos, tentamos ignorar os efeitos que a inveja tem na forma como organizamos a vida em sociedade. O argumento mainstream socialista que tanto molda o nosso quotidiano tem, como Nietszche dizia, a sua raiz na inveja. Há muito que se ultrapassou o argumento da igualdade de oportunidades: hoje em dia a sedução é feita através da igualdade de resultados. A igualdade de resultados é apresentada como sinónimo de justiça, quando na realidade não o é, apenas satisfaz o ímpeto invejoso do ser humano que não tolera o sucesso alheio independentemente do mérito que lhe assista. Este rumo destrói o conceito de justiça aristotélico que advoga que o conceito de justiça é dar 2 e receber 4 e dar 4 e receber 8, e não dar 2 e receber 4 e dar 3 e receber 8.

O próprio primeiro ministro socialista José Sócrates proferiu há uns tempos que estava orgulhoso de ter diminuído as diferenças entre ricos e pobres. Ora, não há nada de extraordinário em fazer isso. Para tornar todos iguais ao nível dos rendimentos basta roubar aos mais ricos e obtemos uma sociedade onde a diferença entre ricos e pobres é menor, sem sequer necessitar de criar riqueza efectiva. O verdadeiro desafio de José Sócrates seria conseguir esse feito criando riqueza em abundância para todos os sectores da sociedade independentemente da sua classe social. Em plena campanha eleitoral, o Partido Socialista já anunciou o seu ataque fiscal aos “ricos”, quando na realidade os “ricos” incluem muitos da classe média que progrediram profissionalmente através do seu trabalho diário.

Abaixo está um gráfico com a distribuição da car
ga de IRS paga em função dos agregados familiares no ano fiscal de 2006. A sua leitura é simples, em Portugal, 15% da população paga 85% de todo o IRS. O discurso que se aproveita da inveja tem efeitos práticos bem ostensivos.




Pouco antes de deixar o cargo de primeiro ministro, Margaret Thatcher  proferiu um discurso na Casa do Comuns que evidenciou, de forma paradigmática, a exploração da inveja subjacente ao discurso socialista clássico e que vem ao encontro das conclusões tiradas pela equipa de investigadores alemães supramencionada: Margaret foi criticada porque nos anos de mandato dela, apesar de visíveis progressos económicos, a diferença entre os ricos e os pobres era maior do que era quando ela chegou ao governo. No seu estilo directo, ela evidenciou que todas as classes sociais, sem excepção, estavam melhores hoje do que quando ela chegou ao poder. Toda a gente tinha mais rendimentos, mais capacidade de compra, melhor qualidade de vida. No entanto, o que preocupava a oposição era o facto de a diferença entre ricos e pobres ter aumentado. Em conclusão, não interessava muito se toda a gente estava melhor, nem se as condições de vida no presente eram infinitamente melhores. O problema é que uns tinham mais do que outros e a inveja é um sentimento que não se contém facilmente; como resultado, este sentimento será sempre explorado pelo discurso socialista.

Podemos ligar os portugueses a um tomógrafo. Consequentemente, damos-lhes  3500 euros líquidos por mês e eles irão ficar contentes. Não duvido. Mas quando lhes dissermos que para que isso aconteça alguns vão ter de ganhar mais do que esse valor, a actividade na zona cerebral que indica satisfação irá diminuir de imediato, e, prontamente irá surgir um socialista José Sócrates, um socialista Teixeira dos Santos ou um socialista Manuel Alegre para explorar e capitalizar para fins pessoais esse nível de insatisfação. Voltamos sempre ao mesmo. É a lei do eterno retorno.

 

* Carvalho, José, Neuro Economia: Ensaio Sobre a Sociobiologia do Comportamento, Edições Sílabo, Lisboa, 2009

publicado por Filipe Faria às 02:08

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