O REPLICADOR

Julho 22 2009

O consumo contemporâneo é um acto de frivolidade, ou seja, um acto de alienação que não permite às pessoas perceberem as suas verdadeiras necessidades. Certo? Talvez não.

No final da década de 70, Mary Douglas e Baron Ishewood publicaram o livro “O Mundo dos Bens”, onde estudaram as relações sociais do consumo. Neste livro, os autores (uma antropóloga e um economista) apontam, acima de tudo, para as dimensões culturais e simbólicas do consumo, ou seja, para os motivos subjacentes ao consumo. 

Há já algum tempo que a grande generalidade das pessoas consome para lá das necessidades básicas. Para os autores, os bens de consumo são essencialmente comunicadores de categorias culturais e de valores sociais. Os produtos consumidos devem comunicar à sociedade que rodeia o indivíduo informações sobre o seu estatuto, sobre a sua família, sobre a sua cidade ou sobre a sua rede de relações. O produto ostentado precisa de comunicar mais rápido do que qualquer palavra que o indivíduo que o comprou possa proferir acerca de si mesmo. Os produtos consumidos são cartões de visita que apresentamos, sabendo-se que um mau cartão de visita não nos deixa entrar nos círculos sociais que pretendemos.

Consumir é um acto de partilha. O acto egotista por natureza seria poupar ao máximo e gastar o menos possível. Porém, como animais sociais que somos, é no consumo que entramos em modo de convivência. O consumo permite-nos mostrar algo ao próximo, de onde estamos para onde vamos e quais a nossas intenções. Se ficarmos em casa sem gastar dinheiro podemos ter como certo um isolamento a que tendemos a apelidar de “deprimente”. Se queremos socializar, temos de gastar. Trabalhar e ficar em casa seria certamente mais seguro do ponto de vista financeiro, pois os gastos ficariam reduzidos ao mínimo indispensável. Contudo, ninguém o quer fazer pois o que realmente pretendemos é a aceitação dos outros e não a nossa aceitação. O “outro” pode ser o inferno, mas é dele que eu vou retirar o meu valor. Por isso consumimos: no consumo gera-se a partilha, gera-se a circulação do dinheiro mas acima de tudo gera-se a circulação das intenções. Que intenções? Os suspeitos do costume: o status, o poder, a autoridade, o bem estar, e, por fim, a inevitável busca da maximização sexual. Dito isto, torna-se pertinente saber se seria possível dissertar sobre o consumo sem referência ao sexo.

Curiosamente, a Unilever descobriu que os pobres compram produtos supérfluos quando lhes sobra dinheiro. Por outro lado, 33 % dos consumidores mais abastados consideram-se pobres e comportam-se como tal na hora da compra.* 
Desta forma, talvez os pobres precisem de arriscar mais nas compras que fazem, visto que a escada que eles querem subir tem mais degraus do que a escada dos mais abastados. Conscientemente ou inconscientemente, ambos sabem disso. Só o consumo é que nada sabe. Mesmo com toda a regulação que alguns pretendem implantar, continua a ser o mistério da mão invisível a comandar o processo. O que pode acontecer devido a essa implantação reguladora é que o processo pode tornar-se pouco virtuoso e opaco. Podemos ir conhecendo algumas linhas da mão invisível, mas com certeza que o que conhecemos é uma parte tão insignificante do todo que ainda não nos demos conta de estarmos a estudar uma mão. Essa mão é uma metáfora que hoje em dia é usada e abusada sem aparente sentido, mas ela existe muito para lá do objecto económico: serve, em última instância,  para representar a natureza humana e as suas intenções.

 

“Antropologia do consumo”, Marcos Graciani, Amanhã, 11.05.2004

publicado por Filipe Faria às 03:04

Eu sou um consumista compulsivo.
Sempre que veja algo que me agrada, compro.
Se os meus vizinhos tiverem, eu também quero!
Se a minha familia comprar, eu digo que comprei primeiro!
Se não tiver, peço emprestado.
Se já tiver muitos créditos, faço um novo para pagar os que já tenho.
Se não conseguir pagar, que se lixe.

Ass: Consumidor Português
Mobiliario Juvenil a 25 de Julho de 2009 às 20:44

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