O REPLICADOR

Julho 17 2009

O mundo francófono está sempre a oferecer-nos estas pérolas. A franco-suíça Corinne Maier escreveu um livro chamado “No Kid: quarante raisons de ne pas avoir d’enfant” (Filhos não: 40 razões para não ter filhos). Corinne, uma economista que agora se dedica à psicanálise e à escrita, apresenta inúmeros argumentos para provar que ter filhos não compensa. Numa entrevista à revista Sábado (13.09.2007), a autora em causa proferiu: “ Antes, a religião ajudava as pessoas a encarar o futuro e agora temos as crianças; é uma forma de investimento. Na nossa cultura as crianças significam consumo. As crianças estão inscritas no catálogo de compras da sociedade de consumo (um estudo espanhol calculou que se gasta entre 100 mil e 300 mil euros por filhos). Ter um filho num país desenvolvido é um crime. As crianças são os maiores aliados do capitalismo, fazem-nos consumir, comprar, são delatores natos da vida privada dos pais e destruidores do corpo da mulher”.

Os ataques ao capitalismo já só chocam um recém-nascido (talvez por isso, na óptica da senhora, devam ser evitados); contudo, a sugestão de que, em última instância, devemos deixar de ter filhos já não é um rumo que leve ao socialismo ou à igualdade entre homem e mulher, leva acima de tudo ao nada, ao vácuo, à não existência. Acredito que faça sentido, a não existência é tendencialmente igualitária; não obstante, não conheço provas de que o seja em absoluto.

Será seguro dizer que ninguém conseguiu ainda apontar um objectivo mais lógico e tangível para o rumo humano do que a reprodução do ADN, o passar de genes às gerações vindouras. Com todos os objectivos que possamos traçar para a nossa vida, esse é certamente o que servirá de base comum a todos nós e aquele que nos fez existir em primeiro lugar. Shopenhauer escreveu que nunca nos devemos surpreender pelo facto de existirem casamentos entre 2 pessoas que nunca teriam sido amigas, porque o desejo de procriação (patente no desejo sexual) supera até as maiores barreiras impostas por 2 inimigos. Duas pessoas que, sem o factor sexual, seriam desprezíveis uma para a outra culminam numa relação intensa onde a paixão os leva a fechar os olhos aos factores negativos. Ao longo da história percebemos que muitos homens poderosos, de uma racionalidade quase perfeita na sua vida profissional, tornam-se enganáveis e ingénuos ao casarem com mulheres que eles racionalmente desdenhariam, trazendo desconforto desnecessário para a sua vida.

A vontade de procriação em detrimento de uma suposta felicidade tangível está documentada nos depoimentos de vários casais que revelam que o momento “papel higiénico”  (momento em que o acto sexual termina) traz consigo uma sensação de vazio e de ausência de propósito, onde estes têm liberdade hormonal para pensar na razão porque estão com um parceiro que, em muitos casos, nem é uma pessoa que consideram assim tão “interessante”.

O desejo Corinne Maier não é, apesar de tudo, completamente ridículo: com a proliferação dos contraceptivos, juntamente com a emancipação financeira da mulher e com a consciência de que um filho é um fardo profissional, começa-se a sentir o efeito que Richard Dawkins postulou no seu livro “The Selfish Gene”: os nossos organismos podem-se rebelar contra os interesses dos genes; neste caso, levando à diminuição progressiva de filhos até se chegar ao intento final da Corinne. 

Em estudos recentes sobre a felicidade foram revelados resultados que mostram que as pessoas não são mais felizes porque têm filhos; muito pelo contrário, têm mais dificuldades objectivas e sofrem mais no dia a dia. Porém, quando lhes é perguntado se são mais felizes porque têm um filho elas tendem a responder que sim. Desta forma, o objectivo em si é valorizado em relação à vivência propriamente dita. Não é relevante sabermos se somos mais felizes ou não pelo facto de termos filhos, ter um objectivo a atingir supera as dificuldades práticas, sabendo-se que não existe nada mais motivador para a vida do que a própria motivação.

No mundo ocidental, a mulher tem, talvez como nunca, o papel de comando no rumo que a humanidade está a traçar. Ela pode viver para a carreira, pode procurar experiências sexuais sem ter necessariamente filhos, pode abdicar de partilhar a sua vida com um homem, pode inclusivamente ter filhos recorrendo a bancos de esperma e até pode entregar o filho a outros para que estes cuidem dele. Por sua vez, em termos de estratégia evolutiva, o papel do homem vai-se reduzindo: trabalhando para o PIB per capita mas já sem a influência directa, que teve em outras épocas, nas escolhas da mulher.

Num cenário hipotético onde o homem seria completamente inutilizado, a evolução poderia ditar o seu desaparecimento, afinal de contas, consta que há espécies que já tiveram 2 sexos e que ficaram só com um porque um deles tornou-se obsoleto para a estratégia evolutiva. Palpita-me que, mais do que a ausência de filhos, a Corinne Maier veria com melhores olhos esta última hipótese. Se não ela, pelo menos muitas como ela veriam...

 

 

 


 

publicado por Filipe Faria às 18:37

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