O REPLICADOR

Agosto 28 2009

Quanto mais leio investigações sobre inteligência mais me convenço que nada poderá deixar de ser politizado: apesar de existirem amplas evidências de que a inteligência não é apenas inata mas também largamente hereditária, vozes da esquerda continuam a recorrer à teoria da tábua rasa para alegarem que a inteligência não existe e que o homem é unicamente um produto do seu contexto cultural. 

 

Está amplamente documentado que  a inteligência é uma estável propriedade de um indivíduo: está ligada a identificadas propriedades do cérebro como o seu tamanho, a quantidade de matéria cinzenta nos lobos frontais, a velocidade da condução neural e o metabolismo da glucose cerebral. Até Noam Chomsky, insuspeito de não ser esquerdista, diz o óbvio:

 

“It is, incidentally, surprising to me that so many commentators should find it disturbing that IQ might be heritable, perhaps largely so. Would it also be disturbing to discover that relative height or musical talent or rank in running the one-hundred-yard dash is in part genetically determined?”*

 

Curiosamente, Chomsky foi coerente onde muitos dos seus colegas esquerdistas não foram: muitas das vozes da esquerda que alegam que a inteligência não existe não se coibiram de passar pelo menos 8 anos da sua vida a gritar todos os dias ao mundo que George W. Bush era chocantemente burro.

 

* Chomsky, 1973, pp.362-363

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 00:17

Agosto 26 2009

“Behavioral Science is not for Sissies”

Steven Pinker

 

Estamos perante constantes desenvolvimentos nas áreas da Psicologia, da Neurociência ou da Genética Comportamental. Nos dias de hoje, quem trabalha nas áreas da ciências comportamentais não pode esperar uma vida fácil: explorar cientificamente o comportamento do ser humano é uma actividade que irá sempre sofrer resistências por parte do animal político que é o homem. Desta forma, quem apresenta novos dados na área do comportamento humano está sujeito a ser atacado de forma inexorável pelos que zelam pelo “status quo” actual.

 

Vivemos repletos de crenças pois encontramos nelas bases de sustentação para o nosso dia-a-dia. Consequentemente, trememos quando os dados empíricos as abanam. Tal como Steven Pinker advoga no seu livro clássico “The Blank Slate”, as 3 grandes doutrinas que dominam a nossa vida em sociedade são: a doutrina da “Tábua Rasa”, a do “Bom Selvagem” e a do “Ghost in the Machine” (o fantasma na máquina). Juntas, elas formam a santíssima trindade contemporânea:

 

1- A doutrina da “Tábua Rasa” é a que postula que nascemos todos iguais e sem capacidades inatas (inteligência, comportamento, temperamento, etc). É assim a educação e a cultura que nos moldam por completo, definindo por inteiro aquilo em que nos tornamos. É uma doutrina especialmente acarinhada no modelo de ensino das ciências sociais onde o ênfase dado ao factor “cultura” é totalitário em relação a quaisquer outros factores.

 

2- A doutrina do “Bom Selvagem” é postulada por Rousseau: defende que o homem nasce bom e que apenas se torna mau devido à sociedade e às desigualdades sociais.

 

3- Por último, a doutrina do “Ghost in the Machine” revela a separação “descartesiana” do corpo e da mente, dando à mente um estatuto imaterial a que normalmente chamamos de “alma”. Esta última doutrina acredita que a alma vive no corpo e que depois do corpo biológico morrer ela continuará a existir mesmo sem a presença deste. É assim uma doutrina de índole religiosa.

 

À medida que novas descobertas nestas áreas cientificas vão destruindo estes modelos sociais vigentes as vozes de oposição fazem-se sentir.

 

Quem contesta ferozmente a destruição da “Tábua Rasa” é a esquerda política: se a ideia, generalizada, de que somos tábuas rasas for destruída por novas descobertas científicas que enfatizam o papel estruturante dos genes nas capacidades comportamentais dos seres humanos, então, por certo, a legitimidade para a esquerda alegar que basta dar condições às pessoas para que elas cheguem todas aos mesmos resultados cai imediatamente pela base. As pessoas, independentemente das condições que tenham, pelo simples facto de não terem todas as mesmas capacidades, nunca chegarão aos mesmos sucessos. Da mesma forma, a ideia de que os que têm capacidades favoráveis ao contexto precisam de entregar os rendimentos provenientes das suas capacidades para os que não as têm pode começar perigosamente a parecer uma forma de escravidão. No fundo, o que o fim do mito da “Tábua Rasa” faz é colocar um fim à lógica esquerdista de construtivismo social como modelo de desenvolvimento, porque uma parte considerável do ser humano é inata e não social. A mensagem que a esquerda abomina é a seguinte: “mexam à vontade através do construtivismo social mas saibam que não podem mudar o fundamental da natureza humana que é fortemente influenciado pelos genes”. Por outras palavras, adaptando a este caso as famosas palavras de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: a esquerda quer mudar tudo para que tudo fique igual. Com a destruição do mito da tábua rasa por parte das ciências comportamentais, grande parte do discurso esquerdista fica fragilizado.

 

A esquerda tem igualmente na doutrina do “Bom Selvagem” uma das principais crenças que suporta a sua mundividência política. O homem nasce bom mas as desigualdades sociais e a competição em sociedade tornam-no mau. Com base nesta ideia defendem que a criminalidade é explicada com a pobreza (apesar de existirem muitos pobres honestos) e que o crime se combate com subsídios de reinserção em massa, assim como ajudas infindáveis aos pobres, e não com a coerção das forças policiais. Cada vez mais, os estudos empíricos confirmam que a evolução darwinista não se faz através da bondade do homem mas sim, como é possível aferir no mundo dos animais, de formas por vezes cruéis. Mas está o homem em linha com animais? Segundo inúmeros dados revelados por Steven Pinker em “The Blank Slate” a resposta é sim. É por esta via revelado que as tribos indígenas da América do Sul e Nova Guiné, que vivem em condições pré-civilizadas, mostram uma taxa de mortes de homens às mãos de outros infinitamente superior à da civilização ocidental do século XX e XXI (com as duas grandes guerras incluídas). Ao contrário da ideia idílica de que essas tribos vivem alegremente em paz com a natureza, o que é divulgado por estes estudos são práticas que vão desde o canibalismo a lutas até à morte pelo domínio das fêmeas. Idealizou-se os povos indígenas para condenar a expropriação das terras levada a cabo pelos colonos ocidentais, mas fazer deles os representantes do “Bom Selvagem” é, em si mesmo, um erro antropológico. Contudo,  a evolução não se faz nem exclusivamente de bondade nem exclusivamente de crueldade. Resumidamente, processa-se através de uma mistura de crueldade e altruísmo que, em última instância, são reveladores do interesse egoísta que move o indivíduo.

 

Por fim, as descobertas no campo da neurociência mostram evidências com efeitos dramáticos para a doutrina do “Ghost in the Machine”: o comportamento é controlado por circuitos no cérebro que seguem as leis da química. Concomitantemente, se alterações físicas no cérebro alteram o comportamento de uma pessoa, a noção de “alma” fica sem validade argumentativa. Desta vez, sem surpresa, os ataques não vêm da esquerda, mas sim da direita religiosa. A crença na bíblia por oposição ao evolucionismo tem gerado fervorosos debates nos Estados Unidos entre criacionistas e evolucionistas. Na Europa, devido a uma população comparativamente laicizada, este debate é pouco expressivo. Nos EUA não é anormal ouvir a direita religiosa explicar fenómenos como o massacre da escola secundária de Columbine (onde 2 adolescentes armados matam colegas indiscriminadamente) com a “educação evolucionista que ensina que os humanos são apenas macacos glorificados” tal como disse o republicano Tom Delay. Contudo, há também elementos da direita que apesar de concordarem com o evolucionismo acham que é bom que o povo mantenha a sua crença na religião para que o mundo deles não desabe. “Para quê roubar-lhes o sonho?” parecem dizer. Tal como o escritor de ciência Ronald Bailey observou: muitos conservadores não só concordam com Karl Marx quando ele escreveu que a religião é o ópio do povo como ainda acrescentam “graças a deus que assim é”.

 

Nesta luta observa-se um fenómeno curioso. Por vezes a esquerda e a direita conservadora religiosa aliam-se nesta luta anti-ciência comportamental. Muitos criacionistas usam citações de esquerdistas fervorosos (que abominam a religião) quando se trata de lutar contra as novas descobertas científicas. Quando há um inimigo comum, eles tornam-se amigos. Em Portugal, fiquei a saber, através de uma conferência sobre o Darwinismo na FCSH, que existe (pelo menos na altura existia) uma directiva do ministério da educação que advoga que o darwinismo não deve ser aprofundado no ensino público. Torna-se claro, esta aliança política de inimigo comum faz-se sentir também do ponto de vista institucional. 

 

Tal como os liberais são atacados tanto pelos socialistas como pelos conservadores religiosos, a ciência comportamental é também alvo dessas duas facções que temem que as novas descobertas coloquem em causa a sua legitimidade ideológica. Podem fazê-lo durante algum tempo, mas será impossível fazê-lo para todo o sempre. Chegaremos a um dia em que as evidências da ciência terão de ser equacionadas pelo pensamento político e aí novos argumentos terão de ser esgrimidos. O que fazer com este novo conhecimento e quais as suas implicações sociais são questões que irão definir o próximo passo da “coisa” política...

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 17:42

Agosto 22 2009

Este texto de Miguel Botelho Moniz revela o que já se sabia mas que é importante reforçar: em Portugal uma pequeníssima parte da população (15%)  paga 85% de todo o IRS, isto é, os que trabalham, os que não fogem aos impostos, os que decidem trabalhar de forma metódica no seu dia-a-dia, acabam por suportar financeiramente o resto da população. Atenção, não estamos a falar dos “ricos”, para além de serem uma ínfima minoria, esses vivem do rendimento de capitais e não necessariamente do rendimento sobre o trabalho. Como é mais fácil taxar o rendimento sobre o trabalho (porque se taxarem mais o rendimento de capitais eles vão-se embora do país), o que o governo português faz é desincentivar o trabalho e certificar-se de que ninguém fica rico a trabalhar. No fundo, o governo português confia que, ao contrário dos capitais, os trabalhadores portugueses escravizados não se vão embora por razões familiares e de pertença nacional. Desta forma, por cada português que se dedica ao trabalho, há x portugueses que vão à boleia do esforço profissional desse mesmo português altruísta.  Em suma, tal como os gráficos do texto supracitado mostram, em Portugal os ricos são tão ricos como na generalidade de outros países europeus; temos menos pobres do que outros países da União Europeia a 15, mas a classe média é das mais pobres de todos esses países. Porquê ?

 

Porque não é possível roubar aos ricos sabendo-se que são eles que têm mais capacidade para investir e criar riqueza para o país, como tal, rouba-se à classe média impedindo-a de ter capacidade para ela própria criar riqueza. Porque em Portugal há muito que se abandonou o princípio de que se deve tratar o igual como igual e o desigual como desigual.  Porque para manter o epíteto de país “socializante” esqueceu-se a noção de mérito passando a tratar-se os indivíduos como átomos despersonalizados que existem apenas e só para servir funções sociais proclamadas pelo estado.

 

Tem vontade de fazer algo? Esqueça, este não é o país das vontades individuais.

 

 

publicado por Filipe Faria às 17:08

Agosto 19 2009

Adoro o Francisco Louçã. Adoro a forma como ele se indigna perante todas as imoralidades presentes na natureza humana. Como ele gosta dos homens, das mulheres, dos gays, das crianças, dos gatos e dos mosquitos. Apenas não gosta dos que lhe fazem oposição política; mas tem toda a razão para o fazer: afinal de contas, ele é o único homem sério no espectro político português.

 

Todos os outros estão na política em prol do seu ego, mas Francisco Louçã não, ele está acima dessas tendências humanas pecaminosas. Louçã não se ama a si mesmo, ama o mundo através de si mesmo. O seu ego é, no máximo dos máximos, um catalizador para esse amor.

 

Ninguém, nem o Papa, ama mais o mundo do que ele; e para o mostrar, em todas as eleições, ele vota no Bloco de Esquerda.

 

publicado por Filipe Faria às 19:44

Agosto 17 2009

Quando olho para a maioria dos analistas económicos ou políticos em Portugal vejo que há sempre um propósito último para a criação de riqueza, a redistribuição. Não a vêem como um mal necessário mas sim como o objectivo que valida a abertura que se dá à iniciativa privada. Basicamente, assume-se como razão para a existência da iniciativa individual o retirar desses recursos para atribuí-los a outrem.

 

O indivíduo é simplesmente encarado como um pormenor num estado que nem sequer se questiona moralmente que direito tem de fruir do seu trabalho. A grande questão é unicamente: a quem redistribuir? Esta é uma atitude que menospreza o trabalho, menospreza a procura individual da felicidade e leva a situações de reforço do poder estatal com as consequências óbvias no que toca ao aumento do peso da burocracia e ao limitar das liberdades económicas.

 

Um grupo de pessoas em nome do “socialismo” predispõe-se a retirar os recursos aos indivíduos para aplicá-los ao seu projecto de bem comum. Pensam saber o que o é... O problema é que o bem de uns pode ser o mal de outros e o que o estado deve fazer é disponibilizar as oportunidades ao individuo para procurar o seu próprio bem. O determinar do mesmo pelo estado é uma atitude proto totalitária.

 

Os cidadãos são encarados como vacas leiteiras aos quais só se deve dar condições para “produzirem” de forma a o Estado poder extorquir-lhes o leite todos os dias, para esse tal projecto claro. Esta perspectiva dogmática impede uma visão que promova a emancipação pessoal e, além do mais, veja a sociedade como uma realidade muito diversa a qual tem de ser defendida através de um sistema estruturado nos “checks and balances” com direitos individuais inalienáveis.

 

Isto não significa que não deva existir um estado social, muito pelo contrário. Ninguém pode ser feliz sem ter acesso a bens como a educação e a saúde e é por isso que deve ser providenciada a igualdade de oportunidades... nunca de resultados.

 

Isso é pedir que dois alunos com capacidades e desempenhos diferentes tenham a mesma nota. É o branquear da escolha individual, da criatividade e o afogar da sociedade na gestão estatal. O que lemos, o que escrevemos, até o que pensamos. Como consequência o associativismo é desencorajado, assim como a iniciativa individual e por isso o crescimento.

 

O estado tem um papel a desempenhar, não na intervenção directa mas na criação de um contexto favorável à persecução dos propósitos individuais. A segurança, a saúde, a igualdade perante a lei, o direito à propriedade, impostos mínimos, e o acesso à educação são os preceitos base da construção da estrada da sociedade. Agora o percurso, só os indivíduos o podem definir.

 

Assim se pode ver que a carga fiscal e o nível de redistribuição que ocorrem em Portugal são o caminho para a servidão da sociedade civil. Os recursos da classe média são delapidados e o que a sociedade realmente quer é determinado pelo Estado. Estado o qual não se coíbe de atacar impunemente as liberdades económicas e determinar percursos ao indivíduo e ao colectivo.

 

Só através delas e de uma regulamentação adequada à sua defesa se permite ao indivíduo perseguir as suas ambições e, através delas, proporcionar oportunidades para terceiros, assim como evolução social. É assim que a sociedade é beneficiada, não numa defesa intransigente do “bem comum” mas na criação de condições para o perseguir de um caminho por parte de cada um, com o mínimo de ingerência possível.

publicado por Diogo Santos às 23:00

Agosto 16 2009

Não é incomum, em debates políticos, observar a esquerda a salientar a hipocrisia desses “liberais” que passam a vida a clamar por menos intervenção estatal e depois, quando precisam, aceitam de bom grado essa mesma intervenção para que possam ser salvos com dinheiros públicos. Obviamente, esses “liberais” referidos são os famigerados empresários.

 

A assunção de que todos os empresários são liberais é tão falaciosa como a de achar que todos os socialistas querem a igualdade entre humanos, com a diferença substancial de que os empresários são mais sinceros nos seus intentos. O objectivo do empresário é, em última instância, a maximização do lucro. Por outro lado, o objectivo de um liberal é, em última instância, a manutenção da liberdade. 

 

A lógica manda acreditar que os empresários devem ser liberais, pois é a liberdade de acção económica que lhes permite atingir as suas pretensões. Assim é, na maioria dos casos. Contudo, existem “falhas de mercado” infligidas por sistemas políticos onde o estado ganha uma preponderância económica sobre o mercado que obriga vários empresários a pensarem duas vezes antes de rejeitarem a intervenção estatal. Em concomitância, em sociedades contemporâneas como a portuguesa, o sistema dominante não é um mercado livre. É sim, em larga medida, um mercado clientelista onde os agentes económicos não concorrem apenas entre si mas concorrem também pelos favores do estado. Desta forma, dentro deste modo de organização económico/político, um empresário pode ter muito a ganhar em não ser liberal.

 

Está largamente documentado pelo senso comum que um determinado apoio ao intervencionismo estatal gera benefícios financeiros para alguns elementos da classe que têm contactos privilegiados com os meandros políticos estatais. Há exemplos mais evidentes que outros: as construtoras que se aproveitam das grandes obras públicas é um dos mais claros. Porém, não estão sozinhas: as maiores empresas já implantadas firmemente no mercado não vêem com maus olhos determinadas cargas fiscais pesadas se isso significar eliminação da concorrência de empresas que as não puderem suportar. Adicionalmente, a protecção estatal de determinadas empresas de maior dimensão promove o lucro sem risco, o que para um empresário é viver no melhor dos dois mundos. E sim, em teoria, um empresário seria um liberal, mas na prática o que se verifica é uma adaptação darwinista ao contexto. Se só lhes dão ovos, eles fazem omeletes, porque tentar mudar todo o sistema que dá ovos afigura-se muito mais complicado. Neste caso, mudar a galinha estatizante.

 

Um liberal obedece a convicções ideológicas: este terá de ser, no campo institucional da acção social, um político comprometido com a defesa das liberdades individuais. Ele mover-se-á assim de forma a maximizar essas liberdades, estruturando um estado de direito que permita que cada indivíduo usufrua desse máximo de liberdade possível em sociedade.  Se a um empresário for oferecido dinheiro ou vantagens para que ele se torne num receptor do keynesianismo, ninguém está à espera que ele rejeite, mas um político liberal tem a obrigação moral de manter os desígnios que o trouxeram para a sua condição. Em suma, não colocando a corrupção em equação, os políticos liberais podem e devem manter o seu objectivo de manter a liberdade, mas não se pode esperar que um empresário rejeite legalmente dinheiro ou protecção estatal se esta lhe for vantajosa.

 

Quando observarmos um empresário a votar no partido socialista, não devemos ficar surpreendidos: faz mais sentido do que a célebre confusão que a esquerda faz entre liberais e empresários.

 

 

 

publicado por Filipe Faria às 23:49

Agosto 14 2009

Conheci um jovem “Cool”: possuía a graciosidade da simetria formal e a verborreia dos guerreiros contemporâneos. Ele queria pertencer a uma tribo cultural de excelência; como tal, caminhava sobranceiro  acima dos comuns mortais que ele via como presos a uma teia pecaminosa de vícios humanos. Ser retrógrado, dizia, era ser humano na sua forma tradicional. Mormente, dizia-se pós-conceptual. A vanguarda era sua propriedade independentemente do conceito abordado. Por fim, estatuía-se como indivíduo votando no bloco de esquerda: planificação de estado, economia dirigida e, claro está,  igualdade de rendimentos para todos, eram premissas que informavam uma convicção onde a dúvida era mero tradicionalismo arcaico.

Era notório que estava na presença de alguém exigente. Não aceitava produtos culturais contemporâneos pueris que apresentassem escassez de inovação. Como tal, consumia literatura, música, filmes, séries de televisão, humoristas e pop-arte vindos, na sua esmagadora maioria, de países anglo saxónicos que apresentam matrizes economicamente liberais.


 

publicado por Filipe Faria às 01:15

Agosto 12 2009

Num cartaz da campanha para o bundestag alemão, Vera Lengsfeld, candidata do partido democrata cristão (CDU), mostra-se com um decote proeminente juntamente com a sua companheira de partido, a actual chanceler alemã Angela Merkel. Nesse cartaz, o slogan escrito diz: “nós temos mais para oferecer”.

 

 

Lengsfeld alega que precisava de chamar a atenção do eleitorado, pois a zona por onde está a concorrer é dominada pela esquerda, que até pode ser forte do ponto de vista eleitoral, mas que aparentemente não possui os atributos certos. Depois de ouvir tantas críticas aos cartazes populistas da actual campanha eleitoral em terras lusitanas, senti-me sensibilizado ao tomar conhecimento deste cartaz de propaganda política alemã: finalmente encontro uma verdadeira política de verdade, onde se oferece às pessoas aquilo que elas realmente querem. Pelo menos a 50% delas...

publicado por Filipe Faria às 02:42

Agosto 10 2009

Tendo a concordar em larga medida com as análises políticas feitas por Henrique Raposo. Contudo, há um ponto onde parecemos estar em profundo desacordo: a forma como encaramos o papel da ciência. O Henrique já várias vezes mostrou a sua indignação perante o facto de a ciência se cruzar com a política, como se a política pudesse viver sem uma influência substancial da ciência. Depois de críticas a James Watson e de comentários cínicos sobre o "Deus Darwin”, ele escreve num texto do "Expresso" que o nazismo existiu porque os nazis julgavam-se dono da ciência da biologia e o comunismo soviético existiu porque os comunistas julgavam-se donos da ciência da história.

Na verdade, como ele sabe, nada disto é ciência: nunca a teoria da evolução mostrou que há raças superiores ou inferiores, mas sim indivíduos mais ou menos bem adaptados ao contexto onde vivem. É verdade que os membros da mesma família étnica tendem a ter características mais semelhantes entre eles do que com outras famílias éticas, mas daí a uma extrapolação que leva à superioridade racial vai um salto tão grande como da ciência para a moral religiosa. Mesmo que a teoria da evolução confirmasse que os alemães (para usar este caso concreto) estavam mais bem adaptados ao contexto do que qualquer outra raça, a decisão de eliminar directamente a raça menos adaptada seria sempre de carácter moral/político; por outras palavras, o que a ciência faz é verificar empiricamente os factos, o esclarecimento do real, e o que o político faz é usar esses factos de forma (i)moral para servir os interesses de uma determinada agenda. Em relação aos comunistas e à ciência da história, tal faz pouco ou nenhum sentido, porque a ideia de que caminhamos para o fim de história, onde o homem deixa de ser explorado pelo homem, não tinha, nem tem, qualquer prova empírica que o comprove. Estamos perante uma ideia de carácter literário e não de carácter científico, assim como a teoria da tábua rasa que a sustenta.

A influência da ciência na política é evidente em todos os domínios: só se pode organizar a sociedade sabendo qual é o actual potencial dela. É a ciência que informa o político sobre o que é possível delinear na vida da polis. A ciência informa o político da possibilidade de existirem métodos de cura para doenças que vão determinar a forma como vai organizar o sistema médico. A ciência informa o político das potencialidades tecnológicas de uma sociedade, o que vai determinar a forma como este vai estruturar as áreas preferenciais de desenvolvimento. A ciência informa o político da esperança média de vida de uma população o que ajuda a definir políticas de natalidade. E se considerarmos que nada disto é competência do estado e que queremos um estado libertário apenas dedicado à segurança, a ciência irá informar o político das suas potencialidades bélicas para que este esteja bem ciente delas na hora de tomar decisões securitárias, assim como geo-estratégicas.

Compreendo o medo dos liberais. E se um dia um cientista surgir com uma ideia empiricamente comprovada que, para que ela seja colocada em prática em toda a extensão, precise de um estado centralizado todo poderoso? Um leviatã de carácter deliberadamente científico levantar-se-ia, colocando a defesa da liberdade individual em risco, juntamente com os seus checks and balances. Pois bem, esse estado já existe e basta-lhe a retórica moral, nem precisa da ciência, chama-se socialismo. Se bem que, em última instância, todo o estado, independentemente da filosofia que o sustenta, se baseia em pressupostos morais como forma de legitimar o poder.

O princípio do Cisne Negro de Karl Popper diz-nos que mesmo que nunca tenhamos visto um cisne preto não quer dizer que ele não exista, e que todas as provas científicas são válidas até surgir uma prova em contrário. Uma ideia científica que não é passível de ser refutada não é digna de possuir o epíteto “científica”. Porém, no meu entender, isto não quer dizer que nenhuma descoberta científica deve ser desvalorizada, tal significa que a avaliação moral da utilização dessa descoberta deve pesar os prós e os contras da sua utilização sem esticar “a corda” ao limite. O cisne negro pode sempre surgir e, como tal, a aplicação de uma descoberta científica leva a hediondos resultado não previstos inicialmente. Não obstante, se se levar ao extremo a desconfiança do objecto científico, o progresso torna-se inexistente e o estado tornar-se-á o destruidor da inovação científica. Inovação: conceito que é caro a tantos liberais que sabem que é dele que depende a criação de riqueza e o bom funcionamento do mercado. Ao pararem este processo, este liberais estão de facto a ser conservadores, dando razão aqueles que os acusam de serem conservadores disfarçados.

A ciência existe para tornar os elementos discutidos pelos agentes políticos o mais claros possível. A ciência é a actividade que visa “o que é” e não “o que deve ser”. Esta última é do campo político, informado devidamente pelo “o que é”.

O senhor que se segue será insuspeito para o Henrique Raposo ou para qualquer liberal contemporâneo. Concomitantemente, podemos ler este excerto de Friedrich Hayek onde ele não se coíbe de usar constatações cientificas para justificar as tuas ideias liberais:

“The boundless variety of human nature--the wide range of differences in individual capacities and potentialities--is one of the most distinctive facts about the human species. Its evolution has made it probably the most variable among all kinds of crea­tures. It has been well said that "biology, with variability as its cornerstone, confers on every human individual a unique set of attributes which give him a dignity he could not otherwise possess. Every newborn baby is an unknown quantity so far as potentiali­ties are concerned because there are many thousands of unknown interrelated genes and gene-patterns which contribute to his make­up. As a result of nature and nurture the newborn infant may be­come one of the greatest of men or women ever to have lived.” *

F. Hayek

 



* http://www.woldww.net/classes/General_Philosophy/Hayek-equality.htm
 

publicado por Filipe Faria às 20:26

Agosto 06 2009

"Querem saber se um determinado povo é dotado para a indústria e o comércio? Não procurem nos seus portos, nem na qualidade da madeira das suas florestas, nem nos produtos do solo. O espírito empreendedor do comércio trata de arranjar todas essas coisas, que sem ele, aliás, são inúteis. Vejam se as leis desse povo o incitam à demanda da prosperidade, à liberdade para a buscar, se lhe dá o sentido e os hábitos para a encontrar e se lhe oferece segurança para poder fruir dos seus benefícios."

Alexis de Tocqueville

 

publicado por Diogo Santos às 14:34

Agosto 06 2009

 

 

publicado por Filipe Faria às 03:19

Agosto 04 2009

Ganhar um ordenado de 3500 euros líquidos é bom ou não? A resposta não é mensurável até se comparar esse ordenado com os dos outros. Os conceitos de bom e mau são intrinsecamente comparativos, sou seja, dependem da comparação para serem interiorizados em cada indivíduo.

Uma equipa de investigadores alemães da Universidade de Bona mostrou que a forma como cada um reage perante uma recompensa não depende de um valor absoluto,  mas depende, em larga medida, da comparação imediata que se faz com os colegas e, num contexto mais alargado, com todos os outros.

A equipa liderada por Armin Falk encetou uma experiência com voluntários europeus e do sexo masculino de forma a aferir os seus comportamentos perante situações de inveja ou injustiça. Os voluntários foram dispostos dois a dois, em postos de trabalho contíguos, equipados de tomógrafos de ressonância magnética ligados a várias partes do cérebro. Os investigadores pediam aos voluntários para desempenharem uma determinada tarefa nos computadores. Consoante o desempenho na tarefa, os voluntários iriam receber um determinado valor monetário. Os que não conseguiam quaisquer resultados não eram recompensados e, como tal, revelavam uma falta de actividade na zona do cérebro que reage a recompensas e reconhecimento. Porém, entre os que tinham bons desempenhos e que eram recompensados, a reacção cerebral não era equivalente.

A razão para esse efeito prende-se com o facto de ter sido dito aos vencedores que o valor monetário não era igual para todos, apesar de o desempenho deles ter apresentado níveis de sucesso semelhantes. O resultado tomográfico foi uma menor circulação sanguínea no voluntário que tinha recebido menos dinheiro. Desta forma, concluiu-se que a recompensa individual que estimula o centro cerebral respectivo revela que o prazer não está apenas dependente do sucesso pessoal mas também (ou principalmente) do sucesso dos outros. *

Em tempos contemporâneos, tentamos ignorar os efeitos que a inveja tem na forma como organizamos a vida em sociedade. O argumento mainstream socialista que tanto molda o nosso quotidiano tem, como Nietszche dizia, a sua raiz na inveja. Há muito que se ultrapassou o argumento da igualdade de oportunidades: hoje em dia a sedução é feita através da igualdade de resultados. A igualdade de resultados é apresentada como sinónimo de justiça, quando na realidade não o é, apenas satisfaz o ímpeto invejoso do ser humano que não tolera o sucesso alheio independentemente do mérito que lhe assista. Este rumo destrói o conceito de justiça aristotélico que advoga que o conceito de justiça é dar 2 e receber 4 e dar 4 e receber 8, e não dar 2 e receber 4 e dar 3 e receber 8.

O próprio primeiro ministro socialista José Sócrates proferiu há uns tempos que estava orgulhoso de ter diminuído as diferenças entre ricos e pobres. Ora, não há nada de extraordinário em fazer isso. Para tornar todos iguais ao nível dos rendimentos basta roubar aos mais ricos e obtemos uma sociedade onde a diferença entre ricos e pobres é menor, sem sequer necessitar de criar riqueza efectiva. O verdadeiro desafio de José Sócrates seria conseguir esse feito criando riqueza em abundância para todos os sectores da sociedade independentemente da sua classe social. Em plena campanha eleitoral, o Partido Socialista já anunciou o seu ataque fiscal aos “ricos”, quando na realidade os “ricos” incluem muitos da classe média que progrediram profissionalmente através do seu trabalho diário.

Abaixo está um gráfico com a distribuição da car
ga de IRS paga em função dos agregados familiares no ano fiscal de 2006. A sua leitura é simples, em Portugal, 15% da população paga 85% de todo o IRS. O discurso que se aproveita da inveja tem efeitos práticos bem ostensivos.




Pouco antes de deixar o cargo de primeiro ministro, Margaret Thatcher  proferiu um discurso na Casa do Comuns que evidenciou, de forma paradigmática, a exploração da inveja subjacente ao discurso socialista clássico e que vem ao encontro das conclusões tiradas pela equipa de investigadores alemães supramencionada: Margaret foi criticada porque nos anos de mandato dela, apesar de visíveis progressos económicos, a diferença entre os ricos e os pobres era maior do que era quando ela chegou ao governo. No seu estilo directo, ela evidenciou que todas as classes sociais, sem excepção, estavam melhores hoje do que quando ela chegou ao poder. Toda a gente tinha mais rendimentos, mais capacidade de compra, melhor qualidade de vida. No entanto, o que preocupava a oposição era o facto de a diferença entre ricos e pobres ter aumentado. Em conclusão, não interessava muito se toda a gente estava melhor, nem se as condições de vida no presente eram infinitamente melhores. O problema é que uns tinham mais do que outros e a inveja é um sentimento que não se contém facilmente; como resultado, este sentimento será sempre explorado pelo discurso socialista.

Podemos ligar os portugueses a um tomógrafo. Consequentemente, damos-lhes  3500 euros líquidos por mês e eles irão ficar contentes. Não duvido. Mas quando lhes dissermos que para que isso aconteça alguns vão ter de ganhar mais do que esse valor, a actividade na zona cerebral que indica satisfação irá diminuir de imediato, e, prontamente irá surgir um socialista José Sócrates, um socialista Teixeira dos Santos ou um socialista Manuel Alegre para explorar e capitalizar para fins pessoais esse nível de insatisfação. Voltamos sempre ao mesmo. É a lei do eterno retorno.

 

* Carvalho, José, Neuro Economia: Ensaio Sobre a Sociobiologia do Comportamento, Edições Sílabo, Lisboa, 2009

publicado por Filipe Faria às 02:08

Política, Filosofia, Ciência e Observações Descategorizadas
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