O REPLICADOR

Julho 16 2009

Eis que chega o período de férias e a necessidade de encontrar ocupação torna-se premente. Para aqueles que não estão a necessitar de dinheiro no imediato, a resposta é simples: “vamos viajar”.  À primeira vista podia pensar que o mundo está povoado por geógrafos, arqueólogos ou por especialistas das relações internacionais, isto é, povoado por pessoas com uma sede incrível de conhecer tudo o que está extra fronteiras. Contudo, arrisco dizer que o típico turista é aquele que raramente lê sobre a história dos países que visita, ou como diria o meu antigo professor de direito constitucional: “ aquele que não conhece constituição do país que visita jamais conhecerá esse país”. Assim sendo, o turista viaja para usufruir de experiências pessoais “diferentes”, não obrigatoriamente para conhecer a pátria de estrangeiros.

Há quem sofra da ânsia de viagem por sistema, como se os bilhetes para fora do círculo habitual da vida fossem a solução para os problemas pessoais. Viajar dá a impressão de mudança, de transformação, de escape, de eliminação dos males que nos apoquentam diariamente. Por isso as pessoas veneram a viagem como conceito. Mesmo se todas as viagens que fizerem correrem mal, o que de facto importa é a manutenção da esperança que está adjacente a cada mudança de cenário. Na sua essência, há uma crença de que o “eu” muda quando o contexto muda: o “eu” cheio de problemas pode, por efeito de osmose, misturar-se com o novo contexto (conceptualizado à priori como belo porque é novidade) e tornar-se num novo “eu” construído à medida do novo ambiente que o rodeia. Poder-se-á afirmar que estamos perante uma forma de construtivismo do “eu”. O outro local é assim idealizado como o “eu” utópico, e todas as desilusões do mundo não irão matar essa ânsia.

Há outra razão mais prosaica para o endeusamento da viagem: a ostentação do status social. Quando alguém diz que o que gostava de fazer mais na vida era viajar, esse alguém está implicitamente a dizer que gostava de ter mais dinheiro e status. Todas as viagens são amplamente divulgadas, quer através de fotos, quer através de vídeos ou apenas através da simples descrição oral. Viagens secretas só existem se forem para fins ilegais ou sexuais (não são, claro, mutuamente exclusivas).

Através da experiência pessoal constato que as pessoas com maiores problemas de aceitação pessoal tendem igualmente a ser as que mais apresentam a viagem (o estrangeiro) como solução para algo que não conseguem encontrar em si mesmas. Como se ao saírem do país não tivessem que se levar para outras localidades.

Para mim torna-se claro: a viagem faz-se todos os dias, não necessariamente em movimento.
  

 

 

 


 

 

"Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação
para estação,
no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as
praças,
sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como,
afinal, as
paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da
imaginação justifica
que se tenha que deslocar para sentir."
Fernando Pessoa

 

publicado por Filipe Faria às 02:21

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