O REPLICADOR

Julho 12 2009

"Todos eles estavam autorizados a viver e a exprimir as suas opiniões neste país. A Inglaterra foi sempre um país tolerante. Todos eles o reconheciam, mas costumavam queixar-se do facto de os Ingleses os não levarem a sério. Ora, pergunto-lhe eu agora a si: não será esta, de certa maneira, uma condição da tolerância? Quero dizer, se começarmos a levar tudo e todos terrivelmente a sério, iremos continuar a ser capazes de os tolerar da mesma forma que os toleramos quando adoptamos a atitude de 'viver e deixar viver'?"

Isaiah Berlin

 

O slogan “viver e deixar viver” tem por base uma capacidade de encarar a vida de uma forma ideologicamente descomprometida.  Um postura liberal implica um certo cepticismo em relação ao próprio objectivo da vida ditado seja por quem for. Neste sentido, a melhor forma de lidar com os anos de vida que nos são concedidos por “sabe lá deus quem” é através do humor.

O humor pode estar presente em todos os aspectos da nossa vida. Porém, nem todos o usam regularmente e, inclusivamente,  em determinadas culturas, até parece haver anti-corpos contra o uso proliferado do mesmo: “Muito riso pouco sizo” diz o ditado português que parece confirmar esta tendência. “O respeitinho é muito bonito”  solidifica o primeiro ditado. Desta forma, a tendência para gerar humor vai diminuindo à medida em que este não é culturalmente encorajado. Por outro lado, a tendência para levar tudo (muito) a sério vai-se incrementando.

Levar tudo a sério tenderá a diminuir os níveis de tolerância para como os outros. Segundo o princípio de Locke, a tolerância é fundamental para uma sociedade liberal onde as liberdades negativas do indivíduo são salvaguardadas. Naturalmente que a nossa tolerância termina quando somos atacados directamente  por outros; contudo, na sociedade onde vivemos, a intolerância passa cada vez mais por uma ânsia de igualdade financeira, social, estética, biológica. Seguramente que toleramos cada vez menos o facto de alguém ter algo a mais do que nós. A intolerância alargou-se a todos os níveis: deixou de ser uma resposta contra um ataque e passou a ser um ataque contra os outros que supostamente têm mais vantagens sociais (legítimas ou não). Nietzsche, com alguma probabilidade, colocaria este comportamento actual na categoria da “moral do invejoso”.

Com grande probabilidade, só através do humor será possível respeitar as desigualdades naturais do ser humano que surgem logo à nascença: cada criança que nasce, nasce à partida com desvantagens ou vantagens em relação a todas as outras, sejam elas genéticas ou de carácter social. De todos os humores, aquele que melhor lida com estes factos é o humor auto-depreciativo (self-deprecating humor), ou por outras palavras, a capacidade para rir, não só da sociedade, mas de nós mesmos. Para quem não acredita na existência de uma engenharia social que vá mudar a essência da espécie humana, rir é o melhor remédio, apenas e só porque não há outro.

No âmbito da sensibilidade política, será de alguma forma lógico que o humor não esteja presente à esquerda: como é possível querer igualdades de resultados, lutar contra os desígnios dos genes egoístas, lutar contra as vantagens sociais, lutar contra o mérito em prol da igualdade, enfim, como é possível lutar a toda a hora contra as vicissitudes da natureza humana e ainda ter a leveza para satirizar a nossa condição de humanos? É caso para dizer que onde a esquerda mais se aproximou do humor foi no nome do Groucho Marx. Não obstante, as direitas estatizantes sofrem do mesmo problema devido à sua obsessão compulsiva pela ordem.

Em relação às palavras de Isaiah Berlin e à sociedade liberal inglesa, urge perguntar: o humor inglês é famoso em todo o mundo. Mas alguém já ouviu falar no prestígio do humor francês, alemão ou escandinavo?

publicado por Filipe Faria às 16:51

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