O REPLICADOR

Julho 09 2009

“O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: porque toda a gente pensa que está tão fornecida dele que, mesmo aqueles mais difíceis de contentar em tudo o resto, normalmente não desejam mais do que aquele que possuem.”  René Descartes

Através do método empírico que o quotidiano me proporciona, verifico que esta máxima de Descartes está presente no debate ideológico contemporâneo em toda a sua extensão. Não me parece que alguém esteja de facto interessado no argumento factual, torna-se muito claro que, no esgrimir de argumentos, a moral suplanta constantemente qualquer observação minimamente empírica. Penso ser seguro dizer que, no mundo das opiniões, o positivismo é positivamente descartado. Restam então os sentimentos, as emoções, o auto-interesse e a simpatia de David Hume como motores da opinião. No entanto, claro está, para David Hume todos os sentimentos advêm do auto-interesse; porém, tal é pouco relevante para a ideia central deste texto.

Como a moral se impõe nos debates, o argumento do bom senso torna-se prioritário para se fazer valer um ponto de vista. A legitimidade argumentativa passa inúmeras vezes pela noção de que toda a nossa fundamentação argumentativa está sustentada por um bom senso que o “Eu” claramente possui, mas que o “outro” obviamente não possui. Daí o “outro” ser, consciente ou inconscientemente, apelidado de simplista ou, não raras vezes, de radical. Chamar simplista a alguém é, por certo, uma tautologia, pois qualquer representação argumentativa da realidade está condenada a falhar por comparação à mesma. Por outro lado, chamar radical ao outro já advém na projecção de entidade moderada e provida de bom senso que pensamos ser o nosso “Eu”. “O inferno são outros” dizia Sartre. Naturalmente, eu se tivesse simpatia pelas ideias comunistas, como era o caso dele, também acharia que a realidade global (os outros) era de facto um inferno, pois esta não se adapta, até ver, a tais ideais sociais.

O senso comum é de difícil definição. É possivelmente um sentimento que acreditamos possuir para reger a nossa vida, para estruturar a nossa mundividência. Contudo, tal como defenderam os metódicos epistemológicos (Descarte, David Hume), este precisa de começar com uma teoria da cognição ou justificação e depois submetê-la à prova para se aferir quais são as pré-teorias que sobrevivem; caminhando por tentativa e erro, acrescento eu.

“Eu sou moderado e tu não” parece ser o trunfo argumentativo usado em todo o debate ideológico contemporâneo. E agora? Como argumentar fora da caixa que advoga que é no meio que está a virtude? Todos estão no meio, mas cada “meio” difere de pessoa para pessoa. Suspiro: estamos de novo no campo do auto-engano.

publicado por Filipe Faria às 14:18
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Política, Filosofia, Ciência e Observações Descategorizadas
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