O REPLICADOR

Julho 09 2009

John Rawl apresenta-nos uma teoria da justiça onde a sociedade deve funcionar sempre a favor dos mais desfavorecidos, mantendo as liberdades e igualdades de oportunidades. O autor considera que a sociedade deve compensar as faltas de aptidões inatas com que as pessoas nascem, fazendo com que os mais talentosos e trabalhadores aceitem ceder os frutos do seu trabalho para os menos favorecidos pela natureza; desta forma, atingiremos uma sociedade tendencialmente igualitária.

Será interessante tentar perceber o efeito que uma sociedade desta índole teria sobre algo tão fundamental como a selecção sexual de Darwin.
Na selecção sexual de Darwin inferimos que a escolha do parceiro sexual é feita com vista a passar aos descendentes os melhores genes (os genes que estão mais bem adaptados ao contexto), para que eles possam ter características que os façam sobreviver e prosperar nas próximas gerações, ou seja, para terem boas armas de sobrevivência. Contudo, este paradigma poderia ser colocado em causa na sociedade Rawlsiana. Como na sociedade de Rawls todos devem ser compensados pela sua falta de talentos naturais, a selecção sexual, em teoria, perderia o sentido: escolher uma pessoa muito inteligente, pouco inteligente, feia, bonita, gorda, magra, seria virtualmente irrelevante para o propósito da selecção sexual, visto que nessa sociedade, os seus descendentes iriam ser compensados por toda a falta de virtudes inatas que pudessem ter. Adicionalmente, ter ou não ter qualidades inatas seria praticamente irrelevante na sobrevivência destes. Neste sentido, a própria selecção natural estaria colocada em causa. Escolher o parceiro sexual em função dos genes que se quer deixar aos filhos não faria qualquer sentido numa sociedade que empreenda a teoria da justiça de Rawls.

É certo que a selecção sexual não consegue ser parada facilmente por qualquer sistema político, seja ele qual for. Será lógico supor que se geraria uma “economia relacional paralela” que iria estabelecer critérios de selecção para que a selecção sexual possa continuar a produzir efeitos. Afinal de contas, o problema de Freud não foi enfatizar em demasia o sexo. Determinante como é, o problema de Freud foi não ter enfatizado o sexo o suficiente.

 

publicado por Filipe Faria às 00:27

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