O REPLICADOR

Maio 09 2009

 

O actual governo socialista anunciou enternecidamente que não podia haver medida mais urgente do que obrigar toda a gente a ficar na escola até ao 12º ano. “É para o bem deles” dizem. A consequência torna-se evidente: será difícil encontrar palavras para analisar, de forma crítica, esta generosidade tão característica do pensamento de esquerda.

Num país que, de forma crónica, intui que todos os seus males advêm da educação vigente ou da falta dela, é curioso perceber como a comunidade política não levantou objecções consideráveis a esta ideia. Por interesses eleitoralistas, ninguém se atreve a levantar questões politicamente incorrectas antes das eleições; porém, os políticos apenas se adaptaram ao pensamento veiculado pela sociedade civil: se algo correu mal no resultado social do homem, é porque a educação falhou.
Se tivermos mais educação vamos ter um homem melhor, certo? Considero que não. Na melhor das hipóteses, se tivermos uma educação de qualidade, temos mais probabilidades de ter um homem melhor. Concomitantemente,  até isso não se revela líquido, pelo menos ao nível da moral, visto que um homem mais culto não é necessariamente mais altruísta ou compassivo (lembro apenas que o regime do III Reich estava atestado de doutoramentos nas suas elites). No entanto, tal não nos deve desviar do rumo a seguir:  é imperativo que o ensino de qualidade, tal como a possibilidade de todos poderem dispor das oportunidades nesse mesmo ensino, seja o objectivo lógico a atingir. 

Não podemos confundir oportunidade com obrigação, como o directório socialista parece fazer. Ninguém está obrigado a ter sucesso na vida, seja por que via for, mas todos devem ter oportunidades para tal, promovendo-se o mérito, o esforço e a criatividade. O estado começa a gerar mais prejuízo do que benefício quando tenta determinar o resultado final do homem, influindo de forma determinante na sua liberdade de escolha. A liberdade passa por ser livre para acertar e livre para falhar, para falhar melhor ou para falhar pior.

Em Portugal, na prática, a escolaridade obrigatória de 9 anos não está de todo adquirida, há ainda uma taxa de abandono escolar acima dos 36% e o nível de preparação dos que terminam o 9º ano é, em média, bastante baixo. Se 36% dos alunos não quer estar na escola até ao 9º ano, apesar de todo o facilitismo educativo, como será quando eles forem obrigados a ficar lá até ao 12º ? Tornar-se-á claro, o facilitismo terá de crescer, o número de alunos por professor irá aumentar, o número de alunos que não estão interessados em aprender irá subir em flecha. Tudo isto acontecerá para prejuízo dos professores que querem ensinar e dos alunos que querem de facto aprender. Em última instância, serão as capacidades reais da população portuguesa que ficarão prejudicadas.

 Com esta indomável obsessão de  não deixar cair os alunos mais fracos, vários resultados se adivinham: quando um aluno com notas de 18 ou 19 precisar de assistência escolar para poder entrar nos cursos onde por vezes não se consegue entrar por uma décima, vai encontrar um professor ocupado no campo de batalha que será, por certo, a sala de aula, esse local povoado por entidades adolescentes forçadas ao exílio escolar. O mesmo se passará com os alunos médios, os professores terão pouca disponibilidade para eles. Afinal de contas, a normalidade é indiferença.

Em Inglaterra, o problema do facilitismo têm-se vindo a agudizar: a percentagem de alunos que passam nos exames do 12º ano anda perto dos 100%. É já preciso cometer uma proeza para se conseguir chumbar num desses exames. Há alunos que mal sabem falar inglês e conseguem tirar boas notas. Como consequência, as faculdades ingleses ponderam já obrigar os candidatos a fazerem exames dentro das faculdades, pois torna-se já impossível distinguir quem são os verdadeiros bons alunos de nota “A” (a nota mais alta no sistema de avaliação inglês). Isto mostra que a tentativa de igualizar todos os alunos apenas faz com que o processo de selecção aconteça noutro ponto para que o mérito possa imperar, se a triagem não for feita no secundário, será feita na licenciatura, no mestrado, no doutoramento ou eventualmente no local de trabalho. A grande desvantagem do processo é a que impede que os elementos com qualidade se possam distinguir mais cedo, produzindo uma massa igualitária que formará uma economia paralela do talento. O ensino de massas será sempre um ensino menos dedicado, menos adaptado e mais nivelado por baixo, por forma a poder acolher toda a gente, independentemente da capacidade, gosto ou motivação de cada indivíduo. Como resultado, obteremos resultados semelhantes aos dos países de leste que possuem o legado do ensino comunista: têm uma população com boa formação superior, mas sem capacidade para gerar riqueza para o país, ou seja, são populações artificialmente formadas/educadas que precisam do “know how” do investimento externo para se desenvolverem.

Estas reformas vanguardistas são a consequência imediata do pensamento dominante que deriva da tábua rasa. Este pensamento acredita que o homem é, à nascença, uma folha em branco, e que a educação o pode moldar de forma a que ele se torne naquilo que quisermos. Em contraposição, a história encarrega-se de mostrar a ausência de veracidade deste clássico “whishful thinking”: mesmo quando colocado nas mesmas condições educativas, os homens continuam a revelar resultados diferentes porque são essencialmente produtos da sua genética que, apesar de serem influenciados por elementos culturais, têm limites já estabelecidos pela hereditariedade.

publicado por Filipe Faria às 01:41

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