O REPLICADOR

Junho 10 2009

Há umas semanas, critiquei a decisão do governo socialista de tornar o 12º ano obrigatório. Como consequência, recebi inúmeras respostas antagónicas de alguém que acha que tal medida, apesar da assunção da sua artificialidade, é benéfica para a sociedade, apresentando a França como o paradigma de um país extremamente produtivo apesar de ter uma educação artificial.

Constitucionalmente falando, a França é um país socialista. Portugal também. Não só a constituição portuguesa de 1976 foi baseada na constituição francesa, como a estruturação política é semelhante. O nosso amor pela autoridade e pelo centralismo estatal assim quis que se escolhesse o modelo francês em vez de um modelo mais liberal britânico. Consequentemente, somos uma sucursal francesa com pouca ambição geoestratégica, ao contrário de França.

A França adoptou já o 12º ano obrigatório, como seria de esperar. O delator dos meus argumentos advoga que a França é, com a ajuda de tão eficaz medida, um dos países mais produtivos do mundo, onde os trabalhadores mais produzem por hora de trabalho. Aceitando a premissa como verdadeira, posso desde já dizer que tal resultado não se deve à educação,  mas sim à engenharia governamental: com a instituição de salários mínimos e da rigidez laboral, as empresas francesas fazem com que as empresas fiquem apenas com os elementos produtivos, não contratando facilmente e assim deixando os elementos menos produtivos no desemprego.

Como tal, não é de surpreender que Paul Krugman, economista keynesiano, venha apresentar dados da OCDE que mostram que a produção por hora de cada trabalhador em França é ligeiramente maior do que nos EUA. Torna-se lógico, quando só se empregam os elementos mais produtivo, é natural que a média de produção por trabalhador seja maior. Porém, tal gera mais desemprego: em França, tal como na Europa em geral, não só há mais desemprego do que nos EUA desde dos anos 80 (reformas liberais Reagan), como o tipo de desemprego é de longo prazo, ao contrário dos EUA que apresenta, essencialmente, desemprego de curto prazo. Isto leva a que o crescimento do PIB potencial seja diminuto pois, segundo a lei de Okun, uma economia com desemprego elevado está a desperdiçar recursos, desviando-se assim da sua optimização. Adicionalmente, como resultado, teremos os custos de segurança social que o desemprego de longo prazo gera, suportados inevitavelmente por todos os que trabalham, diminuindo o poder de compra da sociedade por comparação com o poder de compra passível de ser atingido.

Mas é então a sociedade Francesa competitiva quando consideramos o resultado final observado? 

A resposta é um claro não. Segundo o
World Competitiveness scoreboard de 2009 a França surge em 28º lugar no ranking dos países mais competitivos considerados, atrás de países como a Malásia ou o Quatar. Com todo o potencial que a França apresenta, esta não consegue ser competitiva como um todo, ficando inclusive muito atrás da sua vizinha Alemanha (13º lugar).
Mas será que há, pelo menos, liberdade económica em França, como seria de esperar de um país ocidental que é produto de uma democracia liberal?
Mais uma vez a resposta é não. Desta vez com um resultado ainda pior que Portugal: segundo o
Index de Liberdade Económica de 2009, a França é apenas o 64º país economicamente mais livre do mundo. O incentivo ao empreendedorismo e à inovação tem um carácter diminuto na pátria de Sartre.

Dizem-me então que não há problema porque a França oferece “qualidade de vida”: o sistema de saúde é um dos melhores, os serviços públicos também, etc...
Será discutível afirmar estes factos dessa forma categórica. De qualquer forma, essa é a parte alegórica da questão, mas esconde a factura que tem de ser pagar. Não devia ser surpresa para ninguém, mas essa equidade não é de facto equitativa (passe o pleonasmo): os impostos são dos mais altos da EU; a burocracia francesa é kafkiana; a liberdade de escolha do indivíduo é diminuta quando opta por seguir um rumo não burocrático; paga impostos para benefícios de outrem sem nunca saber a quem o dinheiro está realmente a ser entregue; o parasitismo da segurança social é elevado e inclusivamente produz uma cidade de Paris com uma das mais altas taxas de criminalidade da Europa; o estado consome e gasta 54% da produção de riqueza anual (cada francês, num ano, entrega mais de metade do que se ganha ao estado); o estado é enorme e intervém como actor em múltiplos negócios da sociedade civil diminuindo o incentivo ao investimento; as leis laborais são rígidas e não permitem a fácil troca e procura flexível de melhores empregos (Portugal é ainda pior); o estado francês quase não consegue atrair investimento estrangeiro devido a uma variedade de regulações e restrições, assim como aos impostos altos.

O proteccionismo económico e cultural francês é assim uma realidade. O investimento estrangeiro está inclusivamente interdito ao campo do áudio-visual. Como consequência, vamos constatando que a importância da língua francesa vai progressivamente tornando-se mais diminuta, mantendo-se apenas com alguma importância institucional no âmbito da EU, mas até isso mudará quando se tornar institucionalmente evidente que a língua que a Europa fala é a língua internacional em que o Inglês se tornou.

Culturalmente, poucas coisas de qualidade vêm da actual França, a literatura já não produz o que produziu, a música idem, o cinema, apesar de forte internamente devido a fortes subsídios, continua a gerar poucos filmes exportáveis que sejam consumidos pelo grande público,  e, finalmente, as universidades franceses não constam na generalidade dos rankings das melhores e mais produtivas universidades mundiais. Tudo isto é sintomático da sociedade em que a França se tornou, uma sociedade onde o mérito é relegado para segundo plano no âmbito das decisões políticas.

Robert Nozick, filósofo americano, escreveu que pagar impostos para além do necessário para a vida em sociedade é uma nova forma de escravatura, pois tal consiste em fazer alguém trabalhar gratuitamente para os benefícios de outrem. É isto que o estado em causa faz, força determinados indivíduos a trabalharem para poder entregar, através da legitimidade estadual, o dinheiro destes a outros indivíduos; ou como diria Max Weber, usando o monopólio da violência legítima.

O estado francês obriga todas as pessoas a ficarem na escola até ao 12º ano. Os socialistas portugueses querem seguir-lhes o rasto. No fundo, é pouco relevante para os socialistas se os cidadãos estão bem ou mal formados, porque eles não tencionam entregar qualquer poder à sociedade civil. Esperam controlar a sociedade de cima, e para isso não precisam de uma população muito bem formada, pois esta não terá realmente liberdade para tomar grandes decisões por si só.

França tem, com certeza, os seus encantos. Este texto é uma resposta a quem usou as maravilhas francesas para justificar o facilitismo escolar. A pátria de Voltaire ou de Napoleão pode não ser, neste momento, o melhor sítio para formar os jovens; não obstante, é um excelente sítio para enveredar por uma vida especializada na caça ao subsídio, actividade que deve fazer parte da matéria artificial que é dada nas escolas francesas até ao, igualmente artificial, 12º ano.

 

 

 


publicado por Filipe Faria às 17:47

Caro Filipe Faria,

mas vocês conhece mesmo a realidade de que está a falar?!

Por exemplo, conhece o sistema de saúde? (há vários anos considerado - vidé OMS - o mais eficiente do mundo, conjuntamete com o japonês, porquie tão simplesmente é o mais concorrencial...sim, concorrencial). Conhece o sistema de ensino (diríamos nós, o básico e secundário) francês? E quanto á demografia? Sabia que a França é o único país europeu que conseguiu inverter a sua pirâmide demográfica (cerca de 2,4 filhos por casal)...é certo que muito (ou sobretudo) à custa da emigração, mas....

E quanto à burocracia? Ela sem dúvida existe...porém, conhece a administração pública francesa? Quer uma quer outra (esta última, a um certo nível, é de excelência, vidé, o caso ENA e a procura mundial dos seus formados) parecem, de facto, paraísos comparativamente com as de outros países (e, infelizmente, não falo só de Portugal!!)

Só uma nota: "o estado francês quase não consegue atrair investimento estrangeiro "....tem a certeza? Pois o Estado não, as infraestruturas e a competitividade do país, apesar da decadêcnia assinalada, sim! Conhece algum empresário médio ou pequeno francês? Pois esse é um dos paradoxos daquele país: apesar de tudo, têm uma forte cultura concorrencial...e tradição ( por exe. Loi Chappelier, ainda do séc. XIX e anterior ao próprio Sherman Act), apesar do assinalado centralismo do Estado - que, de resto, se descentralizou há já mais de uma década....

Bom, mas há mais notas e dados que teria que compreender, lendo melhor algumas fontes e dando as devidas reservas a outras - sobretudo uma que cita e que tenho visto muito mencionada ultimamente e que tem tanto de rigor como de wishfull thinking da entidade/institutro que a promove! Acho mesmo que não conhece bem a realidade francesa e não consegue perceber as suas especificidades....que, num certo sentido, são as especificidades que melhor definem uma realidade "cultural" que é a Europa - em decadência, é certo, mas parece-me que não percebe bem nem as causas, nem a respectiva amplitude.

Apesar de concordar com parte do diagnóstico apresentadao, a realdiade (felizmente) não é tão linear e tão formatada em clichés, como refere
PMF a 10 de Junho de 2009 às 23:03

Caro PMF,

A forma inquisitiva, professoral e paternalista como começa o seu texto dá-me a entender que toquei num nervo francófilo e que toda a sua dissertação foi dominada pela emoção.

Se ler com atenção o meu texto, verificará que nada do que acrescentou vai contra o que escrevi, nem sequer contra a ideia principal patente. Todos os argumentos pró-frança que deu já estão assumidos no texto, por isso o seu comentário peca, acima de tudo, pela redundância.

Porém, há alguns pontos em que discordamos: no sistema de ensino e no investimento estrangeiro. O sistema de ensino francês está classificado ( com uma péssima nota) pela OCDE como o 25º melhor dos países considerados por esta organização http://www.oecd.org/dataoecd/42/8/39700724.pdf . Suponho que me vai dizer que a OCDE é também uma organização de wishful thinking liberal que não percebe as especificidades francesas (que, calculo, você esteja especialmente preparado para perceber). Em relação ao investimento estrangeiro, a Heritage Foundation não é a única instituição que defende essa posição, já o li o mesmo no The Economist e em várias outras fontes (que serão certamente de valor diminuto para si).

A demografia é perfeitamente conhecida. Um sucesso europeu. Mas qualquer pais europeu pode ter esse sucesso se aplicar as medidas de imigração que a França tem vindo a aplicar até aos dias de hoje. Ao contrário das políticas de imigração temporária da Alemanha (onde recebia trabalhadores, mas enviava-os de volta para a sua terra natal quando já não eram necessários), a França optou por uma política de imigração permanente, onde a nacionalidade era dada a esses mesmos trabalhadores. Assim sendo, não admira que tenham conseguido inverter a tendência demográfica europeia. Até Portugal está, apesar de tudo, a crescer demograficamente, apesar dos portugueses terem poucos filhos. Importar elementos com tendências reprodutivas muito superiores e depois disso mostrar estatísticas com números mais elevados não me parece um grande feito de engenharia social.

Em relação ao comentário pós-moderno de que não se percebe a especificidade cultural francesa, só lhe posso dizer que não estamos a falar da Coreia do norte e muito menos do Japão. Se me disser que, segundo os padrões económicos standard, é muito difícil explicar como é que o Japão consegue uma inflação de quase 0% e um desemprego de 3%, eu concordarei consigo; mas a França é um país aberto, ocidental, que se situa aqui ao lado, de matriz judaico-cristã, que pertence à UE, que está profundamente estudado pelas instituições ocidentais e que não apresenta outputs incompreensíveis. E se argumentos faltassem, temos a experiência pessoal de inúmeros portugueses que vivem lá. Garanto-lhe que conheço pessoas nessa situação que não concordam nada consigo. Raramente uso o argumento baseado na falácia da experiência pessoal. Não obstante, está à vista, o relativismo cultural tem costas largas.

Quanto à realidade simplista e formatada em clichés. Pensava que não seria preciso dizer que isto era um post de um blog, não era um publicação académica nem um detalhado livro de ciências sociais. Se conseguir abordar a situação de um país num post que não seja redutora, começarei já uma campanha para que possa receber o epíteto de pensador mais eficaz de todos os tempos. Todos os post em blogs são redutores e, em última instância, toda a comunicação é redutora. Ficarei então atento ao "Blasfémias" para ler os seus posts completos e fieis à complexidade da realidade.

Por fim, com todo o paternalismo e autoritarismo com que abordou o meu post, torna-se muito claro porque se deu ao trabalho de puxar do seu orgulho francófilo. Porque o autoritarismo e o paternalismo geram uma identificação natural com França.
Filipe Faria a 11 de Junho de 2009 às 12:46

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