O REPLICADOR

Agosto 03 2011

Em primeiro lugar gostava de lamentar o pouco movimento que o Replicador experienciou nos últimos tempos. Adiante para o importante.


Pairam campanhas pelo ar para “dar sangue”. O slogan do regime mais habitual é, “dê sangue ou não haverá o suficiente para si quando precisar”. Os paladinos do mesmo regime chamam-lhe “uma prova de altruísmo, apenas superada pelos dadores de medula”, os cépticos dizem “tácticas de medo”. Aí os paladinos dizem que os meios justificam os fins. Os cépticos vão-se embora e a conversa acaba. Pretendo advogar a introdução do mercado no negócio do sangue.

 

O sangue é um bem escasso, simplificando, na sua forma utilizável (saquinhos habitualmente de 500 ml) não existe o suficiente para todas as pessoas disporem à vontade deste recurso. O que o sistema de saúde do regime fez foi aplicar regras em que só a partir de um certo nível de necessidade é que o utente do sistema nacional de doença tem direito a que lhe façam uma transfusão. Do lado da produção dos saquinhos, aposta-se na boa vontade das pessoas. Afinal de contas produzir sangue é muito fácil, basta comer e ser saudável, geralmente uma boa parte da população preenche estes pré-requisitos sem sequer trabalhar conscientemente para isso. Uns minutos no banco de sangue e já está, por vezes até oferecem bolos ou, como nos EUA, cerveja, como bonificação por ser bom samaritano.

 

E ficam todos de olhos arregalados quando não há gente suficiente a dar sangue. Que egoístas… é preciso ter vergonha!

 

Vamos fazer agora um exercício e pensar noutro bem escasso: batatas. As batatas são muito simples de produzir. Basta um terreno com um mínimo de manutenção e produzem-se batatas. Deixemos então os senhores do regime ir buscá-las às várias propriedades por Portugal para colmatar uma necessidade que é uma praga ainda maior que a do sangue – a necessidade permanente de nos alimentarmos.

Qualquer um acha este exemplo acima descabido, mas quais são as verdadeiras diferenças do caso do sangue? É verdade que a batata exige algum trabalho, plantar, mas o sangue também, exige boa alimentação e ainda por cima exige irmos ao banco de sangue que não é omnipresente. Também no caso do sangue temos um inconveniente em darmos o nosso, a perda de hemoglobina é indiferente para as actividades do dia-a-dia mas certamente um ciclista ou um maratonista recusam-se (estes chegam a treinar em grandes altitudes de modo a que o corpo a produza em maior quantidade). Chegamos à conclusão que o nosso sangue é útil e quando o damos saímos momentaneamente prejudicados.

 

Mas agora no caso contrário, apliquemos o mercado ao líquido vermelho que todos querem. Se o sangue fosse pago, seríamos compensados por dá-lo, é verdade que não podemos ganhar a maratona mas talvez ajude na prestação da casa. Como as batatas, há uma vantagem na facilidade da produção de sangue, quanto mais pessoas se fossem oferecer para dar sangue, mais cairia o preço, pelo menos enquanto não se assinar na EU uma política de sangue comum. A questão da qualidade já hoje é assegurada com vários testes, não há necessidade de pensar nela, a não ser pelo número de amostras que se teria, muito maior, de modo a que os padrões podiam até subir.

Do lado do consumidor, este tem mais sangue e de melhor qualidade, por um preço, claro. Mas ele pode ter dado sangue anteriormente, logo pode pagar com o que poupou. O resultado seria na pior das opções nulo e na melhor, uma vantagem económica.

 

As objecções:

O sangue não deve ser pago porque é desumano/não custa nada/não é eticamente correcto. É uma necessidade, como há a necessidade de penicilina, anti-hipertensores ou proteínas. A economia baseia-se em interacções para colmatar as necessidades de todos, inicialmente as mais básicas e evoluindo para as mais fúteis como iPads ou anéis que brilham na discoteca. A caridade é bonita mas em todos os casos beneficia de um mercado que aumente os recursos, facilitando a primeira. Era mais bonito que cada um ajudasse o próximo apenas porque sim mas por alguma razão não foi assim que evoluímos.

Os pobres vão deixar de ter acesso. Não necessariamente, por duas razões: mercado não exclui caridade (até ajuda por baixar os preços e aumentar a quantidade de bens disponíveis) e, tal como o regime gosta de subsidiar medicamentos, também pode subsidiar o sangue, taxando mais o contribuinte e dizendo que é “para o bem maior”, “para o desenvolvimento”, “pela saúde pública”, ou outro slogan que as agências de marketing possam pensar.

 

Não me tomo por um homem burro nem como o génio que vai revolucionar a história. Mas uma análise baseada no mercado livre do problema da escassez do sangue leva a estas conclusões e não é preciso muito para lá chegar nem para ver as vantagens.

Num país que não impusesse restrições éticas quanto à propriedade do corpo esta questão não se punha, as pessoas vendiam e o estado não tinha nada a ver com o assunto. Para os grandes órgãos como corações ou fígados não é linear que a escassez gritante fosse resolvida mas pelo menos no caso do sangue, tão fácil de transformar em bem de consumo e com matéria-prima tão abundante, a solução passar pelo mercado é tão óbvia que só os fundamentalistas religiosos e os socialistas é que são capazes de a ignorar.

publicado por João Rodrigo às 20:38

Julho 16 2011

Há uns dias tive a oportunidade de (finalmente) ler a famosa distopia ‘Brave New World’ de Aldous Huxley, considerado um dos melhores romances escritos no século XX, muitas vezes comparado ao ‘1984’ de George Orwell em termos de celebridade.

 

No universo/futuro de Huxley todos os seres humanos atingiram um estado total de ‘alegria’; eliminaram-se as doenças, as dificuldades que surgem ao tentar alcançar os seus desejos/sonhos, o matrimónio e consequentemente noção de família. Não há religião nem conceito de Deus para além da adoração a Henry Ford, o grande criador e visionário utilitarista que deu origem a esta sociedade.

A população está dividida rigorosamente por castas, sendo o seu destino escolhido ainda antes de nascer. E como chegaram a esta situação? Como é que possível o ser humano não se revoltar perante a restrição completa da sua liberdade, completamente destituído do poder sobre o seu destino? A resposta no romance de Huxley é simples: através do condicionamento. Nesta sociedade sem pais nem mães, os bebés não são criados à boa velha maneira física, mas sim criados ‘in vitro’ sendo desde logo diferenciados: uns irão ser indivíduos ‘únicos’ pertencentes às mais elevadas castas destinados a trabalhos mais complexos, enquanto outros serão produzidos em massa (segundo o método Bukanovsky), cópias idênticas (gêmeos verdadeiros vezes noventa e seis), e propositadamente menos ‘iluminados’ que os seus superiores. Uns ficam com os empregos que consomem mais 'intelecto' e outros ficam com o trabalho 'manual', uma força operária completamente submissa. Mas todos vão gostar do seu trabalho porque assim foram desenhados e predestinados.


Em relação às interacções humanas existe uma rigorosa linha que divide as castas em duas grandes facções. Desde que nascem aqueles pertencentes às castas mais elevadas são outra vez condicionados (uma vez que geneticamente já o foram) através de 'lições' dadas durante o seu sono para não se misturarem e terem nojo dos seus inferiores. Além disso existe a máxima, 'Everyone belongs to someone else’ (todos pertencem a todos) ou seja, não se encoraja relações sexuais durante um período superior a 1, 2 meses com o mesmo indivíduo, sendo que o natural consiste em ter vários parceiros sexuais ao longo da vida e muitas vezes até ao mesmo tempo. Existem também muitas orgias organizadas pelo sistema, com pessoas escolhidas aleatoriamente (mas sempre das mesmas castas) porque é imperativo ter relações sexuais regularmente. Não existe tal coisa como o casamento ou uma relação que envolva algo supostamente imutável como o amor. Como disse acima, através deste método elimina-se a noção de família por completo, considerando-se esta como uma aberração da natureza, tal como actualmente se pensa do incesto ou pedofilia.


E mesmo que este condicionamento todo falhe existe sempre a droga suprema, perfeita: soma. As vantagens de ter uma trip sempre 'prazenteira' sem os downsides do dia seguinte, sem efeitos secundários. Aliás é criado um sistema de dependência extrema, ao ponto de se racionar este produto às massas, embora as castas mais altas tenham um acesso mais facilitado. Na eventualidade de algo correr mal, pode-se simplesmente 'tirar umas férias' de todos os problemas. O sistema criado à volta do ser humano fá-lo depender intensamente deste.


No entanto este sistema tem falhas, uma vez que esta sociedade futurista deriva do trabalho do Homem, e por muito condicionamento que exista há-de haver sempre algo que foge da norma, algum pensamento que não encaixa no da multidão. Huxley introduz-nos algumas personagens que têm pensamentos e maneiras de ser que não compactuam com a maioria, a sua realidade constantemente esmagada pelos dogmas da sociedade. Existem também as chamadas reservas, onde existem seres humanos no estado mais selvagem, comparando-se às tribos indígenas existentes na América do Norte antes da colonização europeia. 

 

No final a história desenrola-se subitamente numa demonstração de revolta e distúrbios no sistema o que resulta na ostracização dos membros ‘defeituosos’ para ilhas dedicadas a estes. No entanto um deles, aquele que cresceu na reserva indígena, vê-se obrigado a continuar no mundo ‘real e civilizado’ como parte de uma experiência. Este indivíduo, que se chama simplesmente John, tem ainda mais dificuldade em habitar/viver naquele mundo uma vez que nunca foi condicionado e se recusa a tomar soma. Huxley conseguiu transmitir a miríade de sentimentos confusos, desesperados, furiosos pelos quais o selvagem passou enquanto tentava levar uma vida de eremita no campo e consequentemente encontrar alguma paz de espírito. Em vão. Ele queria deixar o mundo mas o mundo não conseguiu abdicar dele. Como punição o selvagem praticava frequentemente autoflagelação sendo um espectáculo para todos os que vieram da cidade para o observar. Eventualmente depois de vários abusos por parte dos media e espectadores (incluindo as famosas orgias) e depois de ter agredido a mulher que amava mas repudiava (por ser uma deles) o selvagem decidiu que não queria viver mais.

 

John era o único ser que se poderia considerar autêntico num raio de milhares de quilómetros, o único que viu a realidade monstruosa criada pelo ser humano. Um mundo sem escolhas, premeditado, planeado ao ínfimo. Um futuro não tão assim tão distante e impossível de alcançar. ‘Brave New World’ encerra em si uma crítica acérrima ao socialismo e manipulação de massas, mas acima de tudo é uma ode à importância do individualismo e liberdade. 

publicado por Rita M. às 01:19

Julho 03 2011

Quando soube da nova medida liberalizante de PPC tive dificuldades em manter o equilíbrio de tanto rir. 50% do subsídio de natal!? E porquê do natal? Porque não de Agosto, ou de Fevereiro como AA tão habilmente expôs no insurgente?

 

Não, é do Natal porque é um dever dos portugueses, já escravizados 6 meses do ano para pagar as mordomias do negreiro Estado, o de reduzir o consumismo, abster-se dos excessos natalícios e aprender a ser modesto para que sejam poupados os tachos de não sei quantos boys. E os boys não sabem valer-se no mundo real, são uma espécie frágil, como os pandas mas sem o pelinho fofo.

 

E qual é o problema? Para onde me viro oiço um português a defender "isto público" e "aquilo público"! Sejamos honestos, estavamos fartos de Sócrates mas no fundo queremos um Portugal intrisecamente socialista e não vemos nada de errado com isso. Privatização é manobra de burguês para afastar os lucros do proletário!

 

Com efeito, segundo as minhas contas rápidas, a primeira medida de peso e verdadeiramente liberal foi reduzir o salário anual dos portugueses em 3,57%. Alguns socialistas estarão a pensar no factor social importante desta medida que pretende equilibrar as contas públicas. Permitam-me que relembre a crise actual que é as contas privadas. Existem muitos casos actualmente em que as famílias usam os "bónus de natal" para equilibrar o seu orçamento e fazer aquelas operações de manutenção familiares, como por exemplo:

 

*Comprar o frigorífico novo porque o antigo virou socialista e reparte o seu frio com o resto da casa;

*Ir ao médico, médico privado, porque já foram 4 vezes ao hospital e voltaram sempre com ben-u-ron;

*Fazer o check-up dentário porque o Ministério da Saúde avisou para fazer (felizmente o SNS é tão atrofiado nesse ponto que o mal capitalista já criou clínicas com check-ups gratuitos);

*Pagar o que devem.

 

O PPC com esta medida efectivamente esquece-se que não é só o estado que tem que pagar as suas dívidas, o povo individualmente também contrai empréstimos e graças ao tempo das vacas gordas foi parvo e pediu mais do que tinha capacidade de pagar. Assim ele vai conseguir gerar mais "instabilidade social" mas não temam!, é para isso que o Welfare foi criado, para suportar os males que o dono Estado gerou!

 

Enquanto isso espero ansiosamente por verdadeiros cortes na despesa.

 

 

 

 

Aproveitem e vejam este sketch muito bem conseguido da série "Estado de Graça", a partir dos 7m20s:

http://www.rtp.pt/programas-rtp/index.php?p_id=27419&e_id=1&c_id=1&dif=tv&hora=21:00&dia=01-04-2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por João Rodrigo às 12:39

Junho 30 2011


 

“Credit expansion can bring about a temporary boom. But such a fictitious prosperity must end in a general depression of trade, a slump.” – Ludwig Von Mises

 

            Dentro das teorias explicativas do ciclo económico tem vindo a sobressair uma estrela ascendente, a teoria do ciclo económico austríaco. Primeiramente estatuída por Ludwig Von Mises[1] nos primórdios do século XX, esta teoria tem vindo a ser trabalhada pelos grandes nomes da escola tais como o prémio Nobel Friedrich Hayek[2],  Murray Rothbard[3] e, mais recentemente, o académico espanhol Huerta de Soto[4].

 

            Perante as crescentes dúvidas quanto às capacidades dos bancos centrais, nomeadamente a reserva federal, serem capazes de prever, processar e resolver as crises sistémicas esta construção teórica tem vindo a aumentar de importância na interpretação do fenómeno dos ciclos económicos. Não só o número de publicações associadas à mesma tem aumentado, sendo de frisar o best seller do New York Times “Meltdown”, como a atenção pública a esta abordagem tornou-se mais notória.

 

           Os membros mais proeminentes da escola austríaca como Thomas Woods e Robert Murphy, membros do Mises Institute, têm assim embarcado em discussões com economistas neo-keynesianos proeminentes, nomeadamente Paul Krugman, sobre a interpretação dos acontecimentos da crise actual.

 

            A perspectiva austríaca trata a questão como uma dinâmica criada pela extensão do crédito através de criação de moeda bancária, empréstimos dos bancos centrais ou taxas de juro artificialmente baixas. Basicamente qualquer medida que incremente a quantidade de dinheiro fiduciário disponível para crédito. A tese de que os ciclos são “naturais” ao capitalismo é rapidamente descartada. Os economistas da escola austríaca consideram que sendo o capitalismo um processo permanente de selecção, através da competição, dos actores económicos uma falha sistémica é altamente improvável. É como se os melhores  médicos deste mundo falhassem todos as operações no mesmo ano. Consequentemente centram-se nas distorções na informação económica como base explicativa.

 

            O processo começa, como referi, com a inserção de “dinheiro novo” nos bancos, através da acção do respectivo banco central. Isto afecta primeiramente as taxas de juro que, para os austríacos, são uma variável dependente, não independente. A taxa de juro, considerações por parte dos empreendedores quanto a cada empréstimo específico à parte, corresponde à diferença na valorização dos bens presentes contra os bens futuros por parte dos agentes económicos.

 

            Se queremos consumir mais prontamente, restringimos as nossas poupanças, aumentamos a compra de bens de consumo e, consequentemente, o capital para empréstimo começa a escassear, o que causa um aumento das taxas de juro. Isso, e o aumento do consumo, sinaliza aos empreendedores que devem apostar em empreendimentos a curto prazo, menos custosos e, provavelmente, menos produtivos; que estão mais perto, temporalmente, da fase de consumo. O que interessa, perante a alta do consumo, é por os bens no mercado, não produzir ou comprar bens de capital. Processos mais demorados que poderiam incluir, por exemplo, nova maquinaria, novos espaços, treino de pessoal etc, são descartados pois os fundos escasseiam.

 

           Por outro lado, se restringimos as nossas compras e pouparmos mais, baixam os preços dos bens de consumo, durando mais tempo o nosso stock disponível. Isto aumenta os fundos para empréstimo e, por isso, as taxas de juro baixam e a procura de bens de capital aumenta. A baixa nos preços dos bens de consumo resultam assim numa transferência de factores de produção para a produção de bens de capital. O facto de estarem mais fundos disponíveis dá margem de manobra aos empreendedores para investirem em processos mais produtivos e custosos, muitos deles mais afastados temporalmente do consumo, por exemplo a produção de bens de capital, matérias primas, automóveis ou imóveis.

 

            Estas orientações têm em conta as preferências do consumidor, uma sociedade que poupa mais terá mais recursos no futuro, pois o seu PIB potencial aumenta mais rapidamente. Os consumidores têm os recursos postos de parte para comprar estes bens mais caros, porque assim orientaram as suas preferências entre o passado e o futuro. Se somos mais “consumistas” a curto prazo, a economia desenvolve-se menos, derivado de menos fundos disponíveis para investimento, logo os processos de produção não são genericamente tão complexos, centram-se em bens menos dependentes de largos investimentos e, por isso, o factor capital não se vê tão desenvolvido, significando um PIB potencial mais baixo.

            Quando esta complexa instituição da economia de mercado se vê alterada pelo Estado todo este processo se descoordena tendo consequências graves para a estrutura económica. Estas consequências têm de ver com a não neutralidade do dinheiro, ou seja, os acrescentos à massa monetária têm canais de entrada na economia específicos e, logo, não afectam todos os preços ao mesmo tempo. Se a afectação se desse simultaneamente não existiria um boom para começar.

 

            Basicamente, a baixa nas taxas de juro inicia o mesmo processo que um aumento na poupança e, no entanto, não se dando uma baixa no consumo não liberta os recursos dedicados à produção de bens de consumo presentes para os novos investimentos. Os preços, derivados da expansão monetária, ficam distorcidos e a produção torna-se cada vez menos dependente do consumidor e mais da irresponsável abundância de capital, criando uma estrutura artificial. Investimentos que a uma taxa de juro definida pelo mercado não seriam executados são prontamente iniciados, e a economia entra numa fase de expansão.

 

            Toda a gente pede mais dinheiro emprestado, o crédito para empresários e consumidores alarga-se e existe um optimismo florescente com as altas de preço. Os salários aumentam perante a pressão dos investimentos, arrastando os bens de consumo, que acompanham a alta. Isto adicionado à expansão creditícia vai significar que a produção de bens de capital vai escassear, concentrando-se os disponíveis à volta da bolha emergente, daí os usos valorizados pelos consumidores sofrerem. Os preços dos bens de consumo, sobre pressão da procura acrescida,  não permitem a criação de bens de capital suficientes para a expansão exponencial do investimento.

 

            Existem dois fins possíveis para este processo, ou entramos num processo hiperinflacionário no qual as poupanças se vêm convertidas em bens e a moeda perde qualquer valor, ou, a determinado ponto, existe uma contracção no crédito disponível que causa o fim da torrente e rebenta a bolha que entretanto se criou. Os empresários, quando começaram os seus investimentos, tomaram em conta os preços aos quais estavam habituados e calcularam os seus empreendimentos com base nos mesmos. Quando os preços dos factores de produção começam a subir haverá, certamente, algum desconforto mas como os preços dos bens de consumo continuam a aumentar o mesmo é descartado. O que é um investimento sustentável ou não é indiscernível. Todos, devido às leis da concorrência, se sentem impelidos a investir sob pena de os seus competidores levarem a melhor. Tristemente, sem as poupanças adequadas é impossível criar os meios para garantir a rentabilidade da maior parte dos investimentos executados. Quando a taxa de juro finalmente sobe a escassez real é revelada, e enquanto aqueles que colectaram os seus lucros ficaram a ganhar, os outros, ainda longe da rentabilização dos seus investimentos, ficam sem os fundos necessários e uma crise instala-se.  Não havia, simplesmente, recursos para completar os projectos aos níveis de preço previstos.

 

            Quando se dá este choque temos uma economia estruturada à volta de uma bolha (em 2008 devido aos encorajamentos institucionais foi imobiliária) na qual recursos escassos foram desperdiçados repetidamente resultando na perda de capital não convertível e entregando o tecido económico a um profundo reajustamento. A não utilização de recursos durante esta fase de reestruturação resulta, obviamente, numa redução da qualidade de vida. Novas poupanças terão de ser criadas para compensar o capital destruído e os cidadãos, perdidos no caos, sofrerão economicamente com as mudanças no mercado laboral. Toda a riqueza aparente se destroça.

 

            A reacção do Estado perante esta realidade é, normalmente, a menos apropriada. Tenta reparar os estragos derivados das baixas taxas de juro… com taxas de juro ainda mais baixas. Os bancos envolvidos em investimentos demasiado arriscados são resgatados pelo governo, criando uma lógica de irresponsabilidade. Pedidos de resgate aos quais se seguem os de muitas mais indústrias, apanhadas na reconversão. Assim, os usos não produtivos de recursos são sustentados pelo contribuinte em nome da ameaça do risco sistémico, mais, são usados para manter uma estrutura económica pouco apropriada aos seus desejos. Os empreendimentos que são viáveis vêm-se privados de recursos atrasando a recuperação e as “empresas zombie” mantêm um enorme peso morto sobre a economia.

 

            A herança com a qual ficamos é “mais regulação”, significando provavelmente empecilhos desnecessários ao mercado livre, uma dívida crescente, e uma classe empreendedora irresponsável e dependente do Estado, o qual subverte permanentemente o saudável funcionamento da economia. Já para não esquecer, a nova bolha, vicissitude da solução apresentada ao problema. Tal como a bolha dot com deu o ónus à criação da bolha imobiliária, esta bolha, se não mudarmos de políticas, dará origem a uma outra. Com consequências cumulativas para o bem estar humano, representando crises económicas e sociais cada vez mais insustentáveis.

 

            A principal solução a tomar para não repetir os erros do passado é, como refere o congressista Ron Paul, candidato libertário às primárias republicanas, parar com a artificialização das taxas de juro e com os incentivos políticos na economia. A melhor maneira de garantir uma acumulação de capital crescente e logo uma economia mais rica e eficiente remete para poupanças e preços de mercado reais, garantidos por uma massa monetária estável.



[1] Ludwig Von Mises (1881-1973) foi o principal responsável pela revitalização da escola austríaca de economia após o advento do Keynesianismo. No que toca ao tratamento da temática dos ciclos económicos é necessário referir as seguintes obras: “The Theory of Money and Credit” (1912), no qual inicia a teorização, e a sua obra prima “Human Action: A Treatise on Economics” (1949) onde apresenta uma versão mais sucinta, madura e enquadrada da sua teoria.

[2] Friedrich Hayek (1899-1992) foi prémio Nobel da economia. Produziu um vário espólio de escritos sobre filosofia política, economia política e teoria económica. A sua principal obra é o livro “Road to Serfdoom”, uma fantástica obra que relaciona o estatismo e o atacar das liberdades económicas como caminho para o fim das liberdades civis.

[3] Murray Rothbard (1926-1995) foi um autor e economista da escola austríaca e o fundador do anarco-capitalismo moderno. Seguindo os passos do seu mentor Ludwig Von Mises, um utilitarista, chegou a conclusões bastante diferentes, defendendo a existência de uma lei natural.

[4] Huerta de Soto (1956-) é professor catedrático de economia na Universidade Juan Carlos I em Madrid, colaborador do Mises Institute e da Mont Pelerin Society. É um dos principais expoentes europeus da escola austríaca de economia.

publicado por Diogo Santos às 04:18

Junho 04 2011

Este sábado é dia de reflexão. O replicador deseja um bom espelho a todos os seus leitores para que possam reflectir muito bem no que vão fazer amanhã.

publicado por João Rodrigo às 11:58

Junho 02 2011

Escrevo este texto de forma a ser uma referência para todos aqueles que ainda me apoquentam com ideias de que a crise económica foi causada pelas políticas neoliberais. Espero no futuro poder enviar para aqui todos os que violarem algum dos sacramentos abaixo expostos. Não é uma exposição extensa de todos os argumentos errados que são ditos no dia-a-dia corrente nem mesmo uma explicação integra da escola austríaca para a crise que culminou em 2008 pela primeira vez (porque a bolha continua e há de voltar a rebentar).

 

1-      O que são os neoliberais?

Eu também não sei esta resposta e não há hipótese de ser esclarecido entretanto. Neoliberal é o termo dado à pessoa que promove o crescimento do sector bancário em detrimento do cidadão. É aquele que renega os interesses do indivíduo para os pôr no “mercado”, mercado esse que é constituído pela soma sinérgica da ganância de cada empresário.

Claro que liberal não é nada disto. Um liberal deseja acima de tudo a liberdade do indivíduo, tanto quanto a responsabilidade pelas suas acções e o seu direito à propriedade e inviolação desta. Isto é válido falemos do homem mais pobre do mundo ou do George Soros.

Para motivos de facilitação do discurso tomemos os liberais clássicos (como eu) por neoliberais, ou seja, faça-se essa confusão com o intuito de dar um mínimo de validade aos argumentos bacocos habituais.

 

2-      A culpa da crise é dos neoliberais!

Não e a razão é muito simples: os neoliberais não estavam lá sequer. Há duas versões habituais que apontam as culpas, ou para a reserva federal (como o caso de Krugman) ou para os banqueiros e especuladores (o caso dos políticos e cineastas).

No caso da reserva federal, a resposta para que a culpa não seja nossa é muito simples: não há um liberal que apoie a existência da reserva federal. A FED é um órgão com capacidade de emitir moeda (os liberais apoiam o ouro como moeda, não havendo nunca possibilidade de emitir ouro a partir do ar) e de emprestar essa moeda fiduciária a taxas de juro que pode alterar a seu prazer. Para um liberal, isso é inadmissível. A moeda tem que ser sempre acoplada a produção e sofrer alterações mínimas e esperáveis. No caso do dólar, euro e afins, cada vez que é imprimida mais uma nota esta vai diluir o valor de todas as outras, aumentando os preços. Mas quem recebe a nota primeiro ainda compra com os preços antigos. Isto prejudica tanto os empresários que não têm uma plataforma estável para calcular as despesas reais quanto as pessoas sujeitas a ordenados fixos (como os idosos na reforma) que passam a poder comprar menos com o rendimento fixo que têm.

No caso dos banqueiros e especuladores, este dedo difama os empréstimos maus que foram feitos, os chamados sub-prime, e que depois minaram todo o sistema. Os empréstimos sub-prime foram feitos em primeiro lugar porque a FED baixou a taxa de juro o suficiente para não haver risco para os bancos se meterem nestas aventuras. O governo americano chegou mesmo a encorajar os bancos a emprestar àqueles que não podiam pagar. Esses empréstimos sub-prime, tanto de bancos como de fundos de investimento, foram agregados e cortados e vários pacotes, os pacotes dos que recebiam primeiro e os pacotes dos que recebiam por último. Esses pacotes receberam classificações diferentes pelas agências de rating e assim os fundos de reforma e outros fundos mais conservadores que se preocupam principalmente com a segurança dos investimentos, seguiram a opinião das agências e compraram os primeiros, que tinham classificação AAA. Estamos a falar de empréstimos de pessoas que não tinham capacidade de pagar mas que ainda assim conseguiram a melhor classificação.

Obviamente que isto tinha que falhar. A culpa foi de quem? Dos especuladores? E que tal da reserva federal e das agências de rating? E as agências de rating não são sequer empresas privadas inquestionáveis, existe uma profunda intimidade entre estas e o governo americano, já que são mencionadas em leis que as tornam tanto imprescindíveis como insubstituíveis.

 

3-      A culpa é das agências de rating que “davam AAA a todos os títulos manhosos de hipotecas e imobiliário que alimentaram a bolha de especulação nos EUA, porque era isso que a grande finança queria, para ganhar mais e distribuir mais dividendos”.

Sim, não, por onde hei-de começar? A grande finança não existe, existem accionistas. E os accionistas não gostam de perder dinheiro. As agências de rating respondem ao governo dos EUA, não aos accionistas das empresas. E estes últimos fizeram o que fizeram (emprestar a torto e a direito) porque a outra hipótese era continuar a ver a FED a imprimir dinheiro enquanto eles ficavam de fora a ver os seus rendimentos a serem desvalorizados por decreto. As taxas de juro baixíssimas da FED significaram que quem “fosse no barco” teria altíssimos lucros e quem não fosse veria prejuízo pela desvalorização de capital. Assim a escolha foi muito fácil.

 

4-      A solução é gastar mais e salvar as estruturas (bailout)!

Não, obviamente que não. Graças a todos os empréstimos de dinheiro inexistente, existem muitos factores de produção que estão mal alocados, isto é, que não suprem uma necessidade dos consumidores. Estes investimentos têm que cair para que os seus factores sejam libertados para os investimentos que satisfaçam as necessidades das pessoas. E os bens têm que ser reequilibrados, isto é, os preços têm que ser reavaliados consoante a verdadeira procura e não a procura fruto do “expansionismo” da FED. Só quando os bens estiverem devidamente alocados e os preços reajustados à realidade económica actual se pode dizer que a economia tenha resumido a sua funcionalidade normal.

Gastar mais dinheiro significa perpetuar o desajuste, o mesmo são os bailouts. O desajuste entre o consumo e a produção mantem-se, os factores de produção estão mal alocados e a dívida destes países keynesianos e monetaristas tende a subir. O buraco continua-se a cavar até as pessoas se aperceberem. E na mesma comparação, quanto mais cedo se parar de cavar e começar a sair do buraco, melhor.

 

5-      A solução da crise é regular os mercados para que tal não aconteça!

É proibido copiar música e todos o fazem. Era proibido o aborto e também se abortava. É proibido roubar e há assaltos todos os dias, em Portugal a maioria nunca chega a tribunal. As regulações não funcionam e aumentam o gasto de recursos, quanto mais não seja em fiscalização. E foram por exemplo as regulações dos bancos impostas nos EUA que deram a origem aos fundos de investimento, pelo Krugman chamadas de “Instituições bancárias sombra”. Estas caiam fora da regulamentação e faziam o que queriam.

Além de que as regulações são feitas por políticos que a) não antevêem as necessidades futuras de mercado porque ninguém consegue; b) são tendenciosos para as empresas já instaladas, impedindo novas empresas de se juntarem e efectivamente criando monopólios; c) são ou têm capacidade ou tendência para serem corruptos.

Quando foi a última vez que mandaram um papel para o chão apesar de ser proibido?

 

6-      A dívida externa é um facto e a culpa dela aumentar é das agências de rating!

Como disse em 2, as agências de rating têm os seus problemas de falta de isolamento, têm uma ligação demasiado acentuada com os governos para se acreditar nelas. Mas a verdade é que muitos bacocos acreditam e como tal os outros também têm que estar à escuta para poderem antever as tendências de mercado.

A dívida externa é um facto mas não devia ser. Não faz o mínimo sentido um governo ter o poder de endividar os habitantes do seu país, exceptuando talvez um caso de calamidade nacional. Porquê? Esqueçamos a obrigação moral de não pedir dinheiro emprestado pelos outros e voltemo-nos para a conspurcação política que essa capacidade produz. Um governo de 4 anos tem todo o incentivo em pedir dinheiro emprestado enquanto pode para “mostrar obra”. Finda a governação vêm os impostos decorrentes do pagamento da dívida e esse antigo governo pode agora culpar o novo pela descida na qualidade de vida. Foi isto o que se passou em Portugal, durante anos se viveu acima das capacidades, endividando os trabalhadores futuros. Não se aceitaram os problemas da crise de 2008, apenas se cresceu a dívida com a fé de que se saltássemos esse período que tudo estaria bem. Não está, obviamente, porque continuamos com os problemas estruturais e agora somados a uma dívida que entre sector público e empresas públicas ascende a mais de 125% do PIB.

Espera-se que um país pague mais do que o que produz num ano? Se neste momento deixássemos de comer e gastar qualquer dinheiro apenas para mandar tudo para fora e pagar as dívidas, nem em Setembro de 2012 estávamos safos. As agências de rating mantiveram o nosso rating alto demasiado tempo. Neste momento, com toda a perda de credibilidade, vêem-se forçadas a baixar os ratings finalmente. Independentemente de as agências terem feito bem ou mal, a culpa da dívida é sempre nossa por termos pedido emprestado demasiado e durante demasiado tempo.

 

7-      Deixar os mercados â mercê vai levar a desemprego massivo!

Sim, momentâneo. Mas vai libertar esses desempregados e os recursos mal usados da empresa onde trabalhavam para que outras possam pegar neles. Estes novos empregados podem produzir algo de interesse e efectivamente aumentar a qualidade de vida geral. Perceba-se que emprego arranja-se facilmente, podemos pôr metade dos desempregados a cavar um buraco e a outra metade a tapá-lo. O problema é que a sociedade não fica mais rica por isso, fica mais pobre na medida em que os trabalhadores estão a gastar energia para nada. Por curiosidade, lembremo-nos da diferença entre a crise económica de 1920 que durou 1 ano sem o estado fazer nada e a crise de 1930 que, com intervenção estatal, se arrastou até…bem, até à 2ª guerra, não?

 

8-      Mas e os pobres?

Lembremo-nos do ónus que é a pobreza neste país. Decerto que um verdadeiro pobre prefere estar a ganhar menos que o salário mínimo e trabalhar para fazer a sociedade melhor e mais produtiva do que estar desempregado porque nenhum empregador tem trabalho que lhe possa oferecer que não dê prejuízo se lhe pagar o salário mínimo (mais subsídios de férias, natal, saúde, e todas as outras obrigações). Se continuarmos a política de redistribuição, minando todo o tecido produtivo, os pobres serão todos os que não têm cunhas no estado.

 

9-      E os direitos de Abril?

Nenhum direito é mais importante que o direito à liberdade e propriedade. Ponto final. Os direitos de Abril são invenções do socialismo que para ganharem o favor da maioria da população, concordam em expropriar os ricos, ou seja aqueles que por proporcionarem às pessoas aquilo que elas queriam conseguiram acumular riqueza, para dar aos pobres sem qualquer discriminação meritocrática. A igualdade de Abril não é igualdade de direitos, é igualdade de resultados.

 

 


Maio 30 2011

 

 

 

 

 

E a broa da semana vai para José Sócrates com a frase “Essas aventuras convidam ao conflito social”, referindo-se à eventualidade do PSD ganhar as eleições.

 

Ele saberia muito bem o que é causar conflito social, já que não tem feito outra coisa desde que as suas ambições se viraram de uma casa grande e envidraçada ao pé do Marquês para o governo de Portugal. É uma técnica mais velha que a civilização, “dividir para conquistar”, nunca esquecida por qualquer partido socialista que se preze.

 

Na democracia uma das formas mais eficazes de criar união em volta de um líder é transformá-lo no único defensor capaz contra uma ameaça externa ao grupo. Esta ameaça já vocês ouviram falar bastantes vezes só nesta semana e cada um tem nome diferente para ela: O Jerónimo chama-lhe “o grande capital”, o Louçã “a banca e os juros especulativos”, o Sócrates “os mercados e a crise económica”. Portas e PPC não tendem a sublinhar tanto o seu ataque à ameaça externa mas isto não quer dizer que a mensagem não esteja lá. Apenas se faz ao contrário e em uníssono com o resto da esquerda, falam em proteger os desfavorecidos, em responsabilidade social e “acabar com a miséria”. É o mesmo bolo com cobertura diferente, limitam-se a discriminar uma faixa da população que tem supostos menos poderes, intelectuais e produtivos, que os outros e inventa uma necessidade de os defender. Sabendo que no jogo redistributivo a defesa dos interesses de uns é sempre equivalente ao ataque dos direitos dos outros, estes supostos “campeões da direita”, “neoliberais” ou mesmo “fascistas” não transmitem menos que os outros.

 

Para quem não se debruçou sobre o “Road to Serfdom” ou equivalente, fique-se sabendo que parte importante do caminho para o socialismo faz-se sempre pela clivagem da humanidade. Marx fê-lo identificando os burgueses e todos os políticos portugueses da actualidade o fazem, nutrindo o ódio (ou pelo menos um profundo desprezo) entre as classes que criam. Os cidadãos com menos posses detestam os mais ricos porque estes não lhes dão trabalho e mais subsídios enquanto arrebanham toda a riqueza e os abastados desprezam os mais pobres que, sem trabalhar, lhes levam o dinheiro decorrente das suas acções que efectivamente levam os produtos que o consumidor deseja à sua posse.

 

Então mas não é preciso proteger os desfavorecidos? Tanto quanto os outros, proteger a sua liberdade, proteger o seu direito à propriedade, o direito a chamar de seu o seu trabalho (opondo os actuais 6 meses de trabalho para o “país”). Quem protege os pobres são os preços baixos dos produtores industriais, o potencial para baixos salários para que estes se tornem em mão de obra atractiva e conseguirem colmatar pelo menos parte das suas necessidades (eventualmente conseguindo melhores salários com o aumento da sua especialização e produtividade) e é a caridade, mas a caridade directa, aquela feita de livre vontade.

 

Quanto à caridade há também algo breve a dizer. Quando nos perguntam se demos à caridade nenhum de nós pensa nos 23% de IVA que deu há 5 minutos numa loja qualquer. Mas se nos pedirem para dar para a caridade as primeiras expressões que saltam à cabeça são “eu nem tenho suficiente para mim” ou “vai pedir ao estado que me leva metade do dinheiro”.

A caridade estatal, além de incontáveis vezes mal direccionada, não produz a descarga de endorfinas como a caridade directa. Quando nos tiram do bolso para dar por nós o que se sente é o roubo e não o fim do nosso dinheiro. O potencial português para a caridade pode estar muito subavaliado à conta disto. Senão lembremo-nos do filme do que os finlandeses deviam saber sobre Portugal e a quantidade de bens de que nos desfizemos para ajudar um país amigo.

 

Nunca esqueçamos o que disse acima, mesmo as campanhas ditas “positivas” são campanhas discriminatórias que clivam a sociedade. As pessoas têm que deixar de ver a riqueza como algo inalcançável, uma classe imutável, e olharem como um horizonte possível com inovação, produtividade e economia, aqueles que a atingiram por mérito como pessoas a aspirar e os verdadeiros impulsores da sociedade e da qualidade de vida. Com um único obstáculo no caminho: Expropriação, Regulamentação e Segurança Social, em suma, Governo.

 

 

 

 

E se o Sócrates não gera conflitos, que vá passar a tarde ao Rossio para ver se sai de lá inteiro.

 

Links:

Notícia do Público: http://www.ionline.pt/conteudo/126450-socrates-alerta-risco-conflito-social-se-psd-vencer

“The Road to Serfdom” de Friedrich A. Hayek (89 pg incluíndo imagens): http://mises.org/resources/2402/The-Road-to-Serfdom

publicado por João Rodrigo às 20:50

Maio 28 2011

Mário Soares tenta pela enésima vez convencer os Portugueses que a razão pela qual a União Europeia nos ofereceu o actual desastre económico é porque esta se tornou ... wait for it ... neo-liberal.  Nada de novo portanto. Mas há algo de interessante no seu discurso: ao menos Soares reconhece (ou parece reconhecer) que a União Europeia foi o principal actor nesta tragédia ao nível europeu. No entanto, inevitavelmente, falha em perceber a essência do monstro burocrático que sempre encorajou e para onde nos levou alegremente sem perguntar a um só português se o devia fazer.

 

Se a União Europeia é neo-liberal, falta que Mário Soares nos explique porque é os seus eurocratas  usaram o Banco Central Europeu para injectar crédito em Estados de países de fraco crescimento económico, levando ao sobre-endividamento. Tal foi implementado através da redistribuição do dinheiro imprimido pelo BCE dos países menos endividados (que receberam inflação) para os mais endividados (que receberam crédito).

 

Se a UE é neo-liberal porque é que em Bruxelas só se fala de aprofundar a centralização económica e legal de forma a permitir a redistribuição em massa de países produtivos para os improdutivos?

 

Se a UE é neo-liberal porque é que fez com que a agricultura europeia se tornasse dependente de subsídios e fundos comunitários?

 

Se a União Europeia é neo-liberal porque é que, ao injectar crédito barato nos Estados dos países improdutivos e ao redistribuir fundos europeus, apenas contribuiu para formar uma rede de grupos de interesse nesses países que vivem improdutivamente do investimento público?

 

Se a UE é neo-liberal porque é que tem uma comissão que, mesmo em tempos de austeridade em países europeus, quer aumentar em 4.9% o seu orçamento para 2012?

 

Se a UE é neo-liberal porque é que o BCE passou 11 anos a incentivar à dívida pública e agora esta pratica redistribuição directa através de bailouts (que é ILEGAL segundo os tratados europeus) e ainda usa o dinheiro dos contribuintes para salvar investimentos ruinosos dos bancos em dívidas de Estados membros?

 

Caro amigo Soares,  a UE é tudo menos liberal. O liberalismo não se faz com burocratas mas sim na ausência destes. A única forma da UE ser neo-liberal seria, ou não existir de todo, ou ser simplesmente um acordo de livre comércio entre Europeus.

 

O liberalismo da União Europeia não falhou porque simplesmente não existe. O que falhou sim foi a velha tendência socialista de tentar controlar a vida de milhões através da centralização de poder. Isto sim, está a falhar grandiosamente senhor Soares. Mas porquê a surpresa? O socialismo falha sempre.

 

Publicado originalmente no "O Insurgente"

publicado por Filipe Faria às 22:35

Maio 27 2011

 

 

Este é o retrato da minha última experiência com a segurança social. O que lá fui fazer é pouco relevante já que, tal como bacalhau, sendo português todos nós nos temos que cruzar com ela um dia mais cedo ou mais tarde.

A ideia que tenho do que as pessoas pensam que ocorre numa repartição da SS é mais ou menos similar a uma rave do boom fest: mal organizada, com muitas cores e slogans como “sustentáveis” mas no fundo ninguém lá dentro sabe do que está a falar.

 

Nada mais longe da verdade. Eis a minha história:

 

Na última quarta-feira tive que ir entregar um papel. Existe em cada repartição da SS uma caixinha muito útil para o fazer mas, já que da última vez que tive que lidar com o monstro redistributivo me perderam metade dos documentos, decidi sabiamente que precisava de um comprovativo.

A minha primeira tentativa foi fútil, entrei na repartição para me dizerem que ali só tratavam de assuntos de estrangeiros. Felizmente o balcão próprio para o efeito era só no cimo da rua. Nessa altura ainda não sabia que a rua tinha quilómetro e meio mas lá fui alegremente a pé.

Quando chego não há ninguém na recepção (estava a almoçar mas ninguém a substituiu) e pelos vistos já não havia senhas. A quatro horas do encerramento já não havia vagas para atender mais ninguém naquele dia. O que era curioso porque o local parecia bastante desafogado, respirava-se bem e só estava em pé quem queria.

Duas horas e meia mais tarde saí a correr para ir buscar o carro cujo parquímetro estava a acabar. Não houve problema porque, com 4 pessoas sem senha à minha frente e o tempo que demoravam a atender cada uma o mais provável era ter que voltar noutro dia de qualquer forma.

 

Hoje não tomei riscos. Estava à porta da mesma SS às 7:30, hora e meia antes de abrir. À porta como quem diz porque a fila já tinha uns 4 metros e 11 pessoas à minha frente. Saquei do livro do juiz Carlos Moreno e esperei. Às 9 entrei, fiquei com a segunda senha de entrega de documentos e esperei mais 50 minutos até à minha vez.

 

Quando me dirijo à secretária que foi indicada ainda lá estava uma senhora “de leste” (isto tem que ser lido com o sotaque dos nossos avós) e o que deveria ser o seu filho, que tentava desesperadamente compreender o que a assistente queria dizer com “a carta vai para sua casa”. Assim ficou justificado o tempo que se perdeu até à minha vez. Eu demorei 5 minutos, era mesmo só entregar o maldito papel e receber o comprovativo. Mas a minha impressão mudou muito. Fui bem atendido e por funcionárias (destaco a segurança que me atendeu na quarta depois do seu almoço e a secretária de hoje) muito competentes e simpáticas. Aquele mito de que todos os funcionários públicos são calões não passa mesmo disso.

 

Então porquê filas tão grandes?

 

Porque o sistema da segurança social assenta na necessidade de preencher papeladas parvas em triplicado, benzidas pelo padre, carimbadas pela autoridade de produtos agrícolas da Guatemala e amadurecidas em casca de carvalho. E isto tem razão de ser: se for demasiado fácil receber o dinheiro “a que temos direito”, então vão todos querer uma parte do bolo e com cada vez menos a pagar vamos ter um queque para dividir pelo casting de abertura dos jogos olímpicos de Pequim.

A segurança social restringe o consumo não pelo preço (conceito impossível no sector público) mas pelo desgaste e cansaço. Quem tem menos para fazer e mais paciência consegue arrebanhar mais fundos do estado que os outros que não podem perder entre 2 e 8 horas na segurança social a

Aturar maus cheiros;

Comer com um ecrã que publicita todas as maravilhas da segurança social;

Ler quinhentas vezes o slogan da SS “Agora e Sempre”.

 

Nisto as funcionárias que vêem estes rebanhos tão perdidos comovem-se e têm um atendimento muito bom e de certa maneira expedito. Pior fui tratado pela secretária de uma seguradora. Com a abismal diferença que o que demorava uma semana e requeria uma assinatura na seguradora demora mês e meio e requer números, assinaturas e carimbos de todas as entidades conhecidas ao Homem na segurança social.

 

Em conclusão, os serviços de atendimento dos organismos estatais parecem estar numa tendência para o seu aperfeiçoamento no nível da relação humana por uma questão de pena. Infelizmente esse atendimento é a cobertura açucarada de um bolo estragado constituído por burocratas de fato que vão desde o parlamento até às secretárias da sede da ISS e DGSS, que nem sequer deveria existir.

publicado por João Rodrigo às 23:02

Maio 23 2011

 

 

 http://www.ionline.pt/conteudo/125008-jovens-do-rossio-negociar-divida-ja

 

Vai-se tornando comum o comentário à notícia mas esta foi simplesmente irresistível. A geração à rasca tem-me dado muito com que trabalhar e voltaram a exceder-se.

 

É muito fácil bater nos jovens mas pelos vistos é necessário, não vão os casalinhos apaixonados deixar de ter outro espaço para a marmelada. A geração à rasca tomou o Rossio com novas manifestações que, segundo os dirigentes que não são dirigentes, porque o movimento não tem lideres, são absolutamente espectaculares já que há gente a falar em público com megafones que nunca antes o havia feito. Eu diria que estavam melhor calados mas depois chamavam-me fascista.

 

Quanto à lengalenga, é a do costume mas com um "twist". Agora já não querem mobilizar só os jovens para uma causa sem causa (a não ser que levantar Portugal meramente com barulho seja uma causa), desejam que se forme uma comissão de avaliação da dívida, distinguindo a parte dita "verdadeira" da dívida da parte que "é dívida odiosa, causada pela especulação". Como pelos vistos se fez na Islândia que tem sido divinificada nos últimos tempos.

 

A sério... leiam um livro de economia... façam uma tarde de raciocínio... até o Krugman percebe isto, acho.

 

Não existe dívida odiosa, existe dívida. A dívida não nos foi imposta, o estado é que pediu o dinheiro emprestado em nosso nome. E sim, os juros foram aumentando à medida que os especuladores perdiam a fé na capacidade de pagamento de Portugal. É de estranhar?

 

Há um assunto bastante importante que deve também ser comentado. A especulação. Esta é vista por muitos como um organismo de destabilização do mercado que sobe os preços, seja por pressão emotiva, seja por acção intencional - por exemplo pelos movimentos enormes que os hedge-funds são capazes. Os especuladores são incompreendidos porque, afinal de contas, estão a fazer dinheiro ao tirar produtos do mercado e aumentar os preços deles. Mas como o Hazlitt disse umas quinhentas vezes no "Economics in one lesson", as pessoas não estão a ver o assunto em profundidade.

 

O especulador tem uma função reguladora na mão invisível que é imprescindível ao bom funcionamento do mercado numa perspectiva de longo prazo. A economia evoluiu o suficiente para ultrapassar a fase do "guardar os cereais e sementes no celeiro para não morrer no inverno" mas isso não quer dizer que não seja necessário. Esse é o objectivo não intencional dos especuladores. Estes tentam obter o máximo de informação sobre determinados produtos, objectivando (com umas quantas contas matemáticas, magia negra e muita sorte) se o preço dos produtos irá aumentar ou não no futuro. Lembremos que este aumento reflecte habitualmente uma escassez. Os especuladores compram o produto agora a um preço mais baixo para vender mais tarde com este mais alto. E normalmente é aqui que o bom político pára e faz as suas observações superficiais na tentativa de captar votos através do ódio. Mas a história continua. Se realmente houver uma escassez futura do produto então o especulador obtém lucro. Ao mesmo tempo, saliente-se, é aliviada a mesma escassez com a introdução desses produtos no mercado.

 

Ou seja, o especulador tem uma função de restringir o consumo de modo a que não haja carência de todo (escassez "como no tempo dos nossos avós", em que simplesmente se esgota o produto).

 

E com o preço mais caro em tempo de abundância auxilia-se o mesmo facto já que se reduz o consumo, mantendo os stocks de reserva maiores.

 

E se não houver escassez? Então o especulador só aumentou os preços? Não. Se o produto não sofrer uma quebra ou ruptura, o especulador vai perder dinheiro, tal como é saudável numa economia sem regulações, e terá que pôr o produto no mercado, baixando o valor deste. Assim, num caso sem problemas, a flutuação de preços da responsabilidade do especulador é compensada no futuro em que a sua aposta caia por terra.

 

Há depois o problema dos "instrumentos avançados de especulação", como por exemplo os futuros. Os futuros não passam de instrumentos que reduzem o risco comportado pelos especuladores mas ao mesmo tempo reduzem a sua margem de lucro. O sistema é o mesmo, o da compra e da venda.

 

Finalmente o problema que muitos pensam ser o mais importante: a pressão enorme causada pelos hedge-funds, fundos de investimento tão massivos que conseguem descaracterizar as "verdades" do mercado. Um caso foi o "black-wednesday" de 1992 em que George Soros mobilizou dinheiro suficiente para a pressão no Reino Unido ser suficiente de modo a que estes não tivessem solução senão permitir que a libra voltasse a flutuar. Se removermos a intervenção estatal do UK na moeda, então o Soros não teria feito 1.1 biliões de dólares nesse dia.

 

As firmas demasiado grandes, além do facto de habitualmente serem criadas por alguma intervenção estatal que permite que estas cresçam, são um risco para e economia e humanidade? Sim, é possível. Do mesmo modo que qualquer outro poder é. Mas isso não é razão para o povo entregar as rédeas aos governos para estes as conterem. Eliminamos um leviatã para criar outro. E ficamos eternamente contentes porque temos a ilusão de que a democracia controla o governo. Com a diferença que os gigantes do mercado vivem para nos servir melhor ou pior e se não gostamos deles podemos abandoná-los e ir ao shopping do lado.

 

Como uma das activistas do movimento geração à rasca admitiu: "Quando os mecanismos democráticos não funcionam, cabe ao povo fazê-lo, para que exista justiça social", que eu leio "o povo é quem mais ordena mas não através da democracia".

 

 

Para quem quer ler mais sobre o tema da especulação como organismo benéfico, leiam este excerto do livro de Walter Block "Defending the undefendable"

 

http://mises.org/daily/4466  

 

 

 

PS: aparentemente a Raquel Freire diz que Portugal "acumula uma dívida que não se sabe de onde vem". Não se preocupem que se eu a vir na rua explico-lhe. Sou eu a ser um bom samaritano como é costume.

publicado por João Rodrigo às 12:15

Maio 21 2011

 

 

 

Qual é o problema do liberalismo? Todos os liberais sabem qual é, todos conjecturam sobre a solução mas muito poucos fazem algo por isso.

 

Na língua inglesa roubaram-nos a palavra liberal. Hoje quem vai a uma livraria pode comprar “a consciência de um liberal” por Paul Krugman e, com um pouco de sorte, percebe que não era nada daquilo que procurava. Nos EUA os liberais são os democratas, aqueles que promovem educação gratuita e saúde gratuita, ou pelo menos é assim que os americanos compram as palavras porque esses serviços saem à custa do empobrecimento geral (não falo estatisticamente, tanto os ricos empobrecem quanto os pobres). O liberal, dito libertário, está dentro do partido republicano, onde o chamam de conservador e o confundem, como seria de esperar, com senhores anafados veteranos de guerra, católicos ou derivados, que não querem direitos para ninguém que não se transforme numa lagosta no verão.

 

Mas não há problema, arranjou-se uma palavrinha fantástica para nos distinguir: neoliberal. Os portugueses já ouviram esta palavra proferida em todo o espectro político português (começando na direita de esquerda PSD, passando pela esquerda de esquerda PS, até à esquerda dos unicórnios cor-de-rosa BE e PCP, passando pelo senhor dos submarinos do PP, ou como todos querem lembrá-lo), mais ou menos da mesma forma que se falaria de um leproso na idade média. Os neoliberais são supostamente empresários vis e violadores de extrema-direita que querem banir os direitos de todas as pessoas, tirar a saúde e a educação dos doentes e das crianças e escravizar todos os pobres ao (recorrendo a um dos termos do Jerónimo de Sousa que mais me enternece) “Grande Capital”.

 

Sim, curiosamente segundo a opinião geral, ser liberal é ser neoliberal, ser neoliberal é ser fascista. O que faz todo o sentido porque nós como liberais queremos abolir a maioria das funções de estado (senão todas) e como tal seremos os grandes ditadores totalitários que tudo controlam… errrr… esperem, se calhar não pensaram bem nisto.

 

Pronto, o problema está diagnosticado: os políticos profissionais (incluindo aqui todas as criaturas que trabalham para a máquina de marketing estatal, comentadores, promotores de privilégios especiais e os tão enganados sindicatos) conseguiram convencer a opinião geral de que os liberais são contra o alargamento dos direitos sociais (tenho tanto medo de dizer esta palavra mas que fique explícito que me refiro ao casamento homossexual, aborto e outras questões que são na realidade leis que neste momento restringem os tais direitos) e que querem retirar as regalias do estado social (nesta parte estão certos),sendo que sem elas todos nós iremos ficar mais pobres, doentes e sem emprego (nesta parte não).

 

A solução? Mises escreveu que a grande arma do liberal é a caneta e a argumentação. Que a missão do liberal é a de elucidar os desinformados e iludidos pela “máquina”.

… estamos lixados…

Como é que vamos competir com discursos aborrecidos contra os slogans apelativos, videoclips coloridos e filmes que jorram continuamente de todos os poros da sociedade cheios de mensagens anti-liberais? Mises escreveu muitos livros bonitos, até vou com a cara dele, parece um avô muito simpático, mas nesta ele meteu o pé na poça, encharcou-se todo e pegou uma pneumonia multi-resistente ao liberalismo.

 

Há quem já tome uma nova abordagem, o “econstories” já fez muito pela nossa causa com dois videoclips que deram a conhecer as falácias de Keynes a mais pessoas que Hazlitt (embora provavelmente nenhum dos dois as tenha convencido todas). E como este há muitos mais exemplos.

 

Está no entanto na hora de ter uma nova abordagem ao liberalismo e infelizmente esta é uma abordagem que prima pelo ataque: a promoção do roubo como moralmente reprovável. Provavelmente todos os não liberais falharam na compreensão desta frase enquanto os outros a entenderam perfeitamente. Mas todos os dias quando vamos pôr gasolina dizemos que fomos roubados. Cada vez que pagamos IRS, imposto de circulação, IVA, IRC, PEC, foi um assalto.

 

Impostos são UM ROUBO.

 

Não interessa a quem, o imposto é um roubo, independentemente do que se vai fazer com o dinheiro. O detentor dos bens não consente de livre vontade e o estado utiliza a sua máquina repressora para expropriá-lo. É mais justo que o governo taxe o milionário numa fatia exorbitante do seu lucro do que quando cobra ao pobre pela fruta que comprou que teve que passar pela alfândega (supostamente para proteger os produtores portugueses) e IVA, saindo ao dobro do preço? Não, é errado em ambos os casos.

 

E, para quem já não se lembra, ROUBAR É MAU.

 

E se o governo quer redistribuir o que for, que cada um tenha o poder de decidir se quer voluntariamente entrar neste esquema ponzi (que curiosamente é proibido por lei, que irónico).

 

Está na hora de desmascarar os socialistas como os ladrões que são. Eles não advogam direitos para ninguém, advogam o direito do estado poder fazer com as pessoas o que quiser, dando-lhes através da democracia a impressão de que são elas a mandar. Para isso não basta o poder da palavra, apenas a verdade. Mas a verdade não tem que ser transmitida apenas em textos como este. A verdade está por exemplo no Robin dos Bosques, que não roubava aos ricos para dar aos pobres mas que roubava os impostos de volta aos homens e mulheres que haviam sido assaltados. A verdade está em slogans, em letras garrafais nas paredes das finanças, “este dinheiro é nosso, devolvam-no”. A verdade está em clips do youtube, no “compro o que é melhor e mais barato”, no “estou farto deste assalto, vou fugir para Singapura” e “Os sindicatos querem sugar o dinheiro aos trabalhadores privados que realmente trabalham para os públicos que só querem emprego”.

 

Vamos dizer a verdade e libertar as energias de Portugal deste socialismo.


Maio 18 2011

 

 

 

 

 Numa fase em que se começa a tornar evidente que o Euro tem debilidades inultrapassáveis, o livro “The Tragedy of the Euro” de Philipp Bagus arrisca-se a ser uma referência central na literatura que discorre não só sobre euro em particular, mas sobre União Europeia como um todo.

 

Bagus é um economista alemão que foi estudar para Madrid com Jesus Huerta de Soto e de quem hoje é colega de departamento na Universidade Juan Carlos. O próprio Huerta de Soto escreve no prefácio que Bagus o desafiou na sua anterior visão positiva do Euro e que este último apontou correctamente para a superior vantagem das moedas nacionais em competição em detrimento de um banco central europeu monopolista.

 

O livro não se limita a uma análise económica da moeda única europeia mas debruça-se igualmente sobre o contexto histórico em que ela se desenvolveu. Consequentemente, ele optou abrir a obra abordando as duas principais forças em oposição desde que o projecto da União Europeia começou. Desde o início da ideia europeia que existem duas visões para a Europa: 1) A visão liberal clássica entende o projecto europeu simplesmente como um acordo entre países europeus que permite a liberdade de movimento de pessoas, bens e capitais, gerando uma união através do mercado livre; e 2) a visão imperialista, a que ele denomina de visão socialista, implica a centralização de poder em Bruxelas, diluição das autonomias locais, harmonização legal e fiscal e um enorme estado providência ao nível europeu.

 

O autor revela que, tradicionalmente, a visão liberal clássica foi defendida por políticos de Estados como a Grã Bretanha, a Holanda ou a Alemanha e que a visão socialista foi essencialmente defendida pelas elites políticas francesas que procuravam um novo projecto imperial depois do vazio da perda das colónias. Franceses como Jacques Delors ou Francois Mitterrand são os nomes mais representativos da visão socialista da Europa.  Isto, claro, não invalida que defensores das duas visões não possam ser encontrados em todos os países.

 

Desde o início da união que se tentou compatibilizar estas duas visões, aceitando-se o livre movimento de bens, capitais e pessoas mas aceitando-se igualmente as sementes centralizadoras da visão socialista como a criação de uma comissão europeia com poderes para iniciar legislação ou a política agrícola comum. Essas sementes deram origem ao voraz processo de aglutinação de poder que se verifica desde então.

 

Porém, até ao nascimento do Euro, os defensores da visão socialista da Europa continuavam a ter muitas dificuldades na promoção da centralização de poder e uma das principais razões era a prosperidade que a Alemanha ocidental apresentava no pós-guerra. Esta prosperidade assentava numa política monetária do Bundesbank (banco central alemão) que era genericamente independente do poder político e que mantinha as taxas de juro altas, tendo como principal função evitar a inflação e não imprimir dinheiro para fins de despesa estatal. O Marco era assim uma moeda extremamente valorizada. Os bunderbankerstinham aprendido a lição da hiperinflação da república de Weimar.

 

Os políticos franceses viam no Bundesbank um travão às suas necessidades de financiarem  projectos estatais através da desvalorização da moeda francesa, pois qualquer política monetária expansionista (impressão de dinheiro) por parte dos franceses significava uma moeda muito mais fraca do que o Marco alemão, coisa que feria seriamente o orgulho francês e expunha rapidamente as más políticas do banco central gaulês ao serviço do seu governo. Desta forma, a competição entre moedas impedia que países (como a França) pudessem monetizar a sua dívida sem restrições. Sem surpresa, foram os políticos franceses a pressionarem a Alemanha para entrar na moeda única e acabar com a disciplina do Bundesbank. Depois de muitos lobbies políticos, o Euro foi introduzido e revelou-se, como esperado, uma moeda não só mais fraca que o Marco alemão mas também claramente expansionista e ao serviço da despesa governamental.

 

Mas porque é que os políticos alemães aceitaram trocar o Marco pelo Euro? Em larga medida porque esse foi o preço que os franceses pediram para permitirem a reunificação alemã. Tal como o ex presidente alemão Richard von Weizsäcker disse, a aceitação do Euro será ““nothing else than the price of the reunification” (p.52). Como razões adicionais, Bagus salienta a pressão dos bancos e indústrias exportadoras alemães que pressionaram no sentido de se livrarem da rigidez monetária do Bundesbank. Já com o Euro introduzido, estes puderam finalmente usar o crédito barato e a moeda desvalorizada para os seus fins. Isto claro, à revelia do povo alemão, que esmagadoramente preferia manter o Marco. Porém, como é típico em todo o processo da União Europeia, nada lhes foi perguntado em referendo.

 

Com a introdução do Euro, as taxas de juro que cada Estado tinha de pagar para se endividar baixaram consideravelmente pois não havia já o perigo de desvalorização unilateral da moeda e igualmente porque os investidores acreditaram desde o início que qualquer problema de liquidez estatal seria resolvido através de “ajudas” da União Europeia. Isto foi especialmente verdade para os países que estavam tradicionalmente endividados e que recorriam a desvalorizações de moeda constantes (o sul da Europa). Agora sim, era possível a estes Estados endividarem-se “ad aeternum” a baixo custo e foi isso que fizeram desde então. Alguns políticos alemães, ao anteverem este processo, pediram sanções automáticas e imediatas para países que excedessem o limite do défice anual (3% do PIB). Tal nunca foi aprovado pois nenhum Estado se queria auto-limitar na sua capacidade para contrair dívida.

 

Desde a introdução do euro que os governos de cada país têm a capacidade para indirectamente “imprimir” dinheiro. Isto é feito através da emissão de dívida pública, vendendo-a a bancos que aceitam comprar essa dívida. Estes últimos querem comprar dívida pública essencialmente porque o banco central europeu aceita emprestar-lhes dinheiro (imprimido) se estes tiverem títulos de dívida pública em seu poder (usando-os como colateral). Assim sendo, vender dívida pública significa em boa parte receber empréstimos da impressora monetária que é o Banco Central Europeu.

 

Chega-se assim à ideia central do livro de Philipp Bagus: o Euro é uma “tragédia dos comuns”.  Sabendo-se que os primeiros a receberem o dinheiro impresso pelo BCE podem gastá-lo com proveito antes da inflação os atingir, todos os Estados têm incentivos para se endividarem o mais depressa que puderem, pois se não o fizerem serão apenas os receptores da inflação causada pelos que têm acesso ao dinheiro primeiro. Naturalmente que os países com economias mais débeis (Portugal, Grécia...) foram os que mais correram para o BCE nos últimos 11 anos, sob pressão eleitoral e com a impopularidade de subir impostos, emitir dívida pública foi a única solução que os políticos destes países encontraram para vencerem eleições.

 

Desta forma, os políticos locais injectaram crédito no seu país e passaram a inflação para os outros. Como o último a chegar ao crédito torna-se exclusivamente num receptor de inflação, vão todos correr para obtenção desse crédito o mais depressa possível. Da mesma forma, os bancos não têm medo de emprestar a Estados falidos porque contam com a protecção dos Estados e dos bailouts da UE na defesa do Euro. Todos estes agentes políticos e económicos podem assim ser irresponsáveis à discrição e em última instância, se algo correr mal, pedem mais impressão de dinheiro ao BCE. Consequentemente, esta expansão de crédito leva a bolhas imobiliárias (Espanha, Irlanda) ou a improdutividade/destruição da estrutura produtiva (como Portugal e Grécia). O único travão para esta tragédia dos comuns é a perspectiva de hiperinflação ao nível europeu; este é um cenário que esteve já mais longe, visto que o BCE, na tentativa de salvar o euro, está já a partir de 2010 a comprar dívida pública dos Estados insolventes, numa clara demonstração que não é independente e que está ao serviço dos interesses políticos.

 

Outro problema central do Euro é a sua falta de adequação à produtividade dos PIIGS, como é o caso de Portugal ou da Grécia. Estes países entraram no Euro vindos de moedas consideravelmente mais fracas, o que os tornou desde então pouco competitivos. Para resolver este problema os governos usaram o “bónus” do crédito fácil do Euro para se endividarem e subsidiarem o desemprego, seja através do subsídio directo, seja através de reformas antecipadas ou através de criação de empregos no sector público. No entanto, Bagus salienta que o Euro não é um desastre porque os países têm diferentes estruturas produtivas, mas sim porque permite a redistribuição de crédito a favor dos países que se endividarem mais depressa, ou seja, estes últimos deixam de ter incentivos para adoptarem políticas de livre mercado internamente. Ademais, o autor lembra igualmente que problema não é tanto a moeda única (o ouro também já serviu esse propósito), mas sim o aproveitamento político e a captura do BCE pelas autoridades políticas europeias.

 

A título exemplificativo, Bagus ilustra as 3 fases distintas de redistribuição da União Europeia até chegar ao ponto actual: A primeira fase foi a redistribuição dos fundos estruturais e da PAC, a segunda fase foi a redistribuição de crédito via BCE e bancos comerciais e a terceira fase é a redistribuição directa através dos bailouts e da compra directa de dívida pública pelo BCE. Estas fases podem ser entendidas como um premeditado processo de integração europeia que irá centralizar toda a política económica em Bruxelas, com inúmeras consequências nocivas para as autonomias locais.

 

No entanto, Philipp Bagus fecha o livro apresentando igualmente 3 possibilidades para o futuro do Euro: Na 1ª hipótese o sistema colapsa devido a um ou mais países acharem mais vantajoso sair do euro e entrar em default ou porque a própria Alemanha sai do euro antes que a sua dívida pública passe a reflectir os encargos de toda a Europa. Na 2ª, os castigos da UE aos países com excessos no défice passariam a tornar-se efectivos e tal implicaria, mais tarde ou mais cedo, a expulsão de países incumpridores, o que levaria ao fim do Euro. Já na 3ª hipótese, os países ricos continuam a pagar pelos países mais pobres e eventualmente chegar-se-á à hiperinflação.

 

Parece assim claro que o Euro só terá futuro se se alienar a autonomia económica dos Estados nações para a entregar a Bruxelas, mas tal, a médio/longo prazo, teria custos enormes. O que se deve retirar do livro do Philipp Bagus é que apesar de ele ser idealmente a favor do ouro como mediador monetário e não de dinheiro produzido por bancos centrais (fiat money), as vantagens de limitação de poder político que as moedas nacionais em competição apresentam são incomparavelmente superiores ao que o Euro oferece. Consequentemente, conclui-se que este projecto monetário deve ser revertido e que os países devem reaver o controlo não só das suas moedas, mas acima de tudo reaver as suas autonomias.

 

Em suma, usando as tipologias do autor, esta será a única forma de evitar a concretização da visão socialista da Europa e permitir a concretização da visão liberal clássica.


Originalmente publicado no "O Insurgente"

publicado por Filipe Faria às 16:26

Maio 16 2011

Às vezes ‘gosto’ de ir a jornais online portugueses ler os comentários a certas notícias, nomeadamente referentes à ‘economia’ do país com muitos nomes giros como IVA, taxas de tudo e mais alguma coisa, desemprego, subsídios, estado social, etc etc.

 

Chego mais uma vez à conclusão que o bom português se encontra extremamente dependente do seu compincha Estado, um português desorientado que tem de fazer contas à vida porque lhe tiram o rendimento social de inserção, um português invejoso dos ‘grandes ricos’, um português cego, que insiste votar naquele que lhe garante o dinheiro fácil que lhe cai nos bolsos ao fim do mês. Acima de tudo um português que aplica o que experiencia na sua pele e/ou do que ouviu falar o vizinho, achando que sabe tudo o que há para saber, disparando postas de pescada a uma velocidade estonteante. Aliás os mais ‘perigosos’ são precisamente aqueles que por lerem um livro de uma ideologia qualquer assumem logo que são uns iluminados.


Ora nisto o político se quer ser eleito tem que obrigatoriamente adoçar as suas palavras, usar uma retórica muitas vezes inflamada cheia de gritos e acusações a outros políticos (porque passar a batata quente é muito fácil). Não existe um único político a meu ver que ofereça a verdade como ela é; estamos todos num pardieiro com bosta até à cintura, e todos oferecem uma mansão de 17 quartos e piscina.


Só posso conjecturar mas possivelmente se houvesse neste momento um político português com ideias liberais a sério (não aquele liberal que pensa que Keynes se encaixa nesta categoria) que se dedicasse exclusivamente a dizer a verdade, a defender a propriedade, a propor a abolição do estado social, dos impostos, da intervenção do estado nos mercados, etc etc, não teria êxito nenhum. Não é isso que as pessoas querem ouvir, e em boa verdade todos querem uma realidade segura, estável e não uma em que tenham que fazer sacrifícios e assumir riscos. Muitos desejam um ‘nanny state’ e o liberalismo é precisamente o contrário; é aquele que nos incita a sermos empreendedores e autónomos, os senhores do nosso destino, dito de uma maneira mais poética.

 

Entretanto lá continuamos com esta palhaçada a que chamam eleições, onde os candidatos são extremamente simpáticos, distribuem beijinhos e abraços, fazem promessas fantasiosas como aumentar o salário mínimo nacional e acabar com a recessão entre outras propostas igualmente sonantes ao ouvido do eleitor.


 A sério Portugal? Vamos continuar a insistir sempre nos mesmos cavalos?


Maio 13 2011

 

Gostava muito que lessem esta notícia de grande interesse:

http://www.ionline.pt/conteudo/123085-existem-novos-poderes-que-utilizam-comunicacao-social-os-seus-proprios-fins

 

A notícia mostra dois grandes peixes, cada um com a sua narrativa, ambas de um interesse amplo para a... paródia.

 

Começamos com Francisco Balsemão a dizer que “existem novos poderes que utilizam a comunicação social para os seus próprios fins”. Bom, ainda bem que o i nos avisa disto porque ninguém sabia. E ao mesmo tempo não estou a perceber muito bem onde quer ele chegar. Refere-se aos políticos? Aos privados? Às empresas de marketing? Às meninas a tentar pagar as propinas que expandem o negócio através dos anúncios?

Quanto aos políticos, desde as primeiras repúblicas que eles usam a comunicação para convencer (ou enganar) as pessoas. Portanto não são estes de certeza, é tudo menos novidade.

Os privados também metem a sua colher. Afinal de contas eles também têm um produto a vender e uma ajudinha de umas notícias que passem por verdade não prejudicam ninguém... a não ser os competidores. E, tal como os políticos, não estou a desvendar uma novidade. Adiante, tanto as empresas de marketing como as meninas estão nos jornais há muito tempo.

Se calhar refere-se às agências de rating e fundos de investimento que aproveitam os media para difundir mini-pânicos e lucrar com movimentos síncronos de vendas e compras. É, é capaz de ser isto. O Francisco Balsemão prefere deixar o mistério no ar (aumentando assim exponencialmente o sex-appeal), ninguém me impede de chegar às minhas conclusões.

 

Centremo-nos agora no que ele se esqueceu de dizer: de quem é a culpa da comunicação social ser manipulada pelos interesses de outras posições de poder? Bom... é da comunicação social, até provado o contrário. São os jornalistas que perseguem as “celebridades” para obter a sua próxima capa e é muita a publicidade pertencente a estado, organismos estatais e empresas a estes ligadas que assim pode manipular (palavra feia, hoje prefere-se “retocar”) as notícias que chegam ao público geral. Pronto, a culpa pode ser um pouco do estado por absorver uma quota de mercado suficientemente grande para lhe conferir influência. Mas não vejo os media a tentar resolver o problema (que implicaria muito provavelmente reduzir dimensões e lucros), vomitam muitas vezes a palavra “deontologia” mas o resultado é o mesmo que o do traficante de droga que tem muita pena de a andar a vender às criancinhas. Queixem-se menos, façam mais.

 

Depois vem a vez do presidente da Lusa nos agraciar com pedacinhos de sabedoria. Afonso Camões começa por colocar dúvidas sobre a privatização da agência. Compreendo, eu também coloquei dúvidas em saír da barriga da minha mãe, afinal de contas é quentinho lá dentro e cá fora há todo o tipo de perigos.

 

“Qual é o grupo privado que está disposto a pagar para que a Lusa esteja presente em Elvas, Bragança ou Timor-Leste?” diz ele. Não sei, juro que não sei. Afinal de contas, Elvas, Bragança e Timor-Leste são locais perfeitamente desertos, sem pessoas, com pessoas destituidas de posses ou sem interesse algum no que se passa nas suas terras. Este é o grande problema do pensamento socialista (ou antes, um deles, já que o socialismo tem suficiente para escrever tomos enciclopédicos), o “é muito caro para ser pago por pobrezinhos”. Ignora completamente factores como a competição e a pressão desta nos preços, adequação do tamanho do serviço e mesmo o desejo de acesso ao serviço. Facilmente podemos imaginar que em Bragança por exemplo (apego-me ao local que melhor conheço mas é extrapolável) não precisaremos de um corpo jornalístico massivo, pode ser pequeno e com poucos meios resolve-se o problema. Também as empresas em Bragança estarão dispostas a entrar no jogo já que a comunicação é uma arma importantíssima no arsenal dos privados e finalmente, se não há gente em Bragança que queira notícias da sua terra, então qual é a utilidade de uma agência notíciosa lá? Nenhuma. Se o resto do mundo quiser notícias de Bragança, que mandem os seus reporteres para lá.

Quando pensamos em todos os serviços da humanidade nunca podemos deixar de ter em conta a meta final, SERVIR. A qualidade de vida de um português médio é uma casa com piscina e um carro de alta cilindrada mas do francês pode ser viajar várias vezes para outros países, todos os anos. Não se contesta o que cada um toma como o seu ideal, os serviços moldam-se em volta dos consumidores e não são iguais de região para região.

 

Finalmente, e esta é a minha favorita, “Afonso Camões adiantou ainda que a sobrevivência das agências noticiosas no geral e na Lusa, em particular, deve passar por conteúdos pagos, combatendo a “pirataria” reinante atualmente.”

 

A sério? Vamos combater a pirataria com conteúdos pagos!

 

Esta ainda é melhor que a das agências de música que quer combater o fantasma omnipresente da pirataria com repressão polícial. Imagino-o a tentar explicar isto numa acção de sensibilização de crianças da creche e elas a rirem-se na cara dele. É que a lógica é simples: as pessoas estão a começar a habituar-se a não pagar por coisas que podem ter de graça. Hoje já sei mais do que aconteceu na queima das fitas de Coimbra pelo facebook (mau exemplo, eu sei) do que alguma vez saberia antes do advento das redes sociais. E os media, como as editoras, têm de entender que o seu papel como distribuidoras de conteúdo diminuiu drasticamente a partir do momento em que este conteúdo deixou de escassear. É uma evolução natural, tal como o momento em que as transportadoras de gelo se depararam com a criação do frigorífico doméstico.

 

Ou então podem seguir o mesmo método que as editoras de música tentaram. “Mais conteúdos pagos!”, ninguém quer pagar portanto nós disponibilizamos mais serviços pagos. Faz o mesmo sentido que meter a bola no buraco do quadrado, só se entende quando somos bebés. E o resultado será o mesmo, as agências noticiosas conseguirão alienar ainda mais depressa os consumidores, passando depois para o método empregue hoje, a penalização da distribuição de notícias que não seja por empresas criadas específicamente para o efeito.

 

Eu por acaso pagava por notícias a sério, acham que se arranja isso? Não, não pode ser por causa das pressões dos “novos poderes”? Hm, está bem, vou então ao facebook e aos blogs, não se pode dizer que sejam menos fiáveis que o telejornal.

publicado por João Rodrigo às 14:41

Maio 11 2011

Começo o meu primeiro post no Replicador com um tema extremamente interessante e de elevada importância: semáforos. Não? Pois deveria ser, uma vez que é uma alegoria perfeita entre o Estado Intervencionista/Regulador e a Liberdade do Indivíduo.


Vejamos o seguinte exemplo: imagine-se numa fila interminável de carros parados à espera que o semáforo emita a bendita luz verde. Passados 300 metros depara-se outra vez com o seu já velho conhecido (sim adivinhou!) semáforo! And so on, num pára-arranca de meter nervos a um monge budista. Independentemente das razões que o(a) levam a submeter-se a tal suplício todos os dias (sim porque é impossível não os encontrar – a não ser que viva em Miranda do Douro) todos sentem lá bem dentro de si uma certa aversão aos senhores semáforos. Quem é que já não se sentiu agraciado (a) pelos céus quando apanha tudo verde chegando assim mais rápido ao seu destino? No entanto há que ver para além da enfadonha espera nos ‘traffic jams’. Toda a gente sabe da quantidade de acidentes e mortes, e é lamentável. O que muitos não reparam é nos ‘processos legais’ que entopem o sistema judicial, o dinheiro gasto a planear e concretizar formas de melhorar este sistema, e sim, as quantidades de combustível que se gasta à espera. Tudo dinheiro que vai ao ar, e como é público, é o seu dinheiro que está ali à sua frente na forma de um reluzente semáforo/sistema xpto de coordenação de semáforos (esse não se vê…mas sente-se). Heck! até me atrevo a lançar a carta do ambiente, porque o smog existe por alguma razão, não foi deus que o criou para nos castigar. Ah e sim, somos umas marionetas que obedecem ao todo poderoso semáforo, *cough* entidades reguladoras *cough* estado.

 

Convém referir que as regras de trânsito foram implantadas sem grande pesquisa por parte dos legisladores, passo a citar Kenneth Todd “Contemporary writings describe how traffic laws were adopted without prior research on the basis of personal opinion”, “The fallacy has been to cram 'good medicine' down people's throat because the ’experts’ thought it was good for them,” wrote Judge Edward G. Fisher in his Vehicle Traffic Law.

 

Tornamo-nos condutores negligentes pois sabemos que não podemos mudar a ordem do trânsito e deixamo-nos embalar pelo bip bip bip. Claro que não convém ao Estado não investir nisto pois alimenta uma indústria multibilionária (artificialmente claro).

 

One might have thought that the authorities would focus not only on using less restrictive controls as alternatives to new traffic signal installations but also as replacement for existing ones.

Yet in the years 1998 to 2001, the states received $1.13 billion in federal aid for traffic signal installations and improvements. The Federal Highway Administration (FHWA), which claims safety to be its first priority, does what no other government agency would be allowed to do. If the airports operated a federal-aid air traffic control system so unsafe that the Federal Aviation Administration's guidelines advised against its use, there would be a public outcry, a spate of malpractice suit and a congressional investigation.’ (mais Kenneth Todd)

 

Mas vamos cometer uma loucura! E se…tirarmos os semáforos? O que será que acontece? Possivelmente instalar-se-ia o caos com acidentes, sangue, tripas em todas as direcções, talvez até um Godzilla ou um King Kong a passear pelo meio dos destroços. Como é possível então haver ordem no caos se ninguém controla o inútil do ser humano? Pois bem, tenho uma ‘novidade’. Em Portishead, perto de Bristol (Inglaterra) a Junho de 2009, os semáforos da ‘Cabstand Junction’ falharam durante umas horas e desde então aquele sítio tem sido lugar de experimentação para remover todos os controladores de trânsito. (http://www.youtube.com/watch?v=vi0meiActlU&feature=player_embedded) Para grande admiração da população local, o trânsito fluiu naturalmente, imperando as regras do bom senso e cortesia; chega-se a poupar 10 a 15min de viagem e todos sabemos que isso pode fazer a diferença. Além disso até à data (pelo menos do vídeo do Cassini) não houve nenhum atropelamento/ninguém ficou ferido e apenas dois pequenos toques. Isto tem obviamente uma razão de ser: o condutor quando chega à intersecção em vez de se focar estritamente no semáforo (que deixa de ‘existir’) passa a olhar em redor, toma consciência dos outros condutores e peões e através dessa análise toma uma decisão. Até parece que estamos na presença de uma utopia.


Mas agora o leitor mais inquisidor diz ‘Ah mas isso é a um nível micro, essas estradas não são nada comparadas com as das grandes cidades! É impossível isso resultar!’. Bem já aconteceu (http://www.youtube.com/watch?v=lBcz-Y8lqOg&feature=related) em Washington DC e Londres (Novembro 2006; Fevereiro 2007) quando as luzes falharam notando-se uma fluidez maior de trânsito; no entanto fazer com que o estado reconheça os benefícios de tal ‘não-sistema’ é uma tarefa árdua porque claro, as entidades reguladoras não se demonstram muito receptivas a experiências de maior envergadura; sabem muito bem o que lhes acontece assim que existirem mais provas sobre as vantagens do não-uso de semáforos. A sua ineficiência ir-se-á notar de maneira gritante.

 

Resumindo: mais poder de decisão às pessoas. O estado quer fazer-nos passar (atrevo-me a dizer ‘tornar-nos em’) por atrasados mentais que não sabem aplicar bom senso no seu dia-a-dia, e se limitam a distinguir luzinhas num robot. E assim se adquirem maus hábitos. Restringem as nossas acções a cada dia que passa de uma maneira muitas vezes subtil e que nos escapa à primeira vista até começarmos a senti-la na pele muito tempo depois. PENSEM, não transformem o vosso cérebro numa massa amorfa sem utilidade.


Para quem estiver interessado em saber mais: http://www.bikewalk.org/pdfs/trafficcontrol_backtobasics.pdf


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